OPINIÃO

André Jordan: «Perdoo, mas não esqueço»

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Responsável por alguns dos mais famosos projetos imobiliários do país – Quinta do Lago, Vilamoura XXI ou Belas Clube de Campo – e pela criação de alguns dos melhores campos de golfe do mundo, chamam-lhe o pai do turismo português. Chegou a Portugal em 1971, com muitas ideias e pouco dinheiro. Quatro décadas e meia depois, aos 83 anos, André Jordan, «construtor de cenários», continua a apostar no turismo de alta competição. Em Portugal.

Chega ao Brasil em 1950, primeiro ano de uma década de ouro na cultura brasileira, anos loucos, que são também os anos em que faz jornalismo. Diz no seu livro: «O Rio oferecia tudo.»
E era barato. Os rapazes do meu tempo eram de boas famílias no verdadeiro sentido da palavra. Meninas e rapazes queriam casar com pessoas bonitas – e o padrão era Hollywood dos anos 1950, principalmente para os homens – categoria à qual eu não pertencia. Sentia-me muito frustrado.

Mas foi um conquistador.
Naquela altura sofri muito. Muitas angústias, muitas dúvidas, muita timidez. Mas, vista de hoje, a minha carreira amorosa foi maravilhosa. Olhando para trás fui abençoado com as relações amorosas. Deram muita riqueza e sabor à minha vida.

Fale-me dos jantares em casa do pai, patrocinados pela segunda mulher, Josefina Jordan, para a elite brasileira.
Eram jantares para sessenta pessoas. O lado social era muito superficial mas muito elegante. Todos os dias havia cocktails. Bebia-se imenso. Só whisky. Não havia vinho no Brasil – whisky com gelo acompanhava as refeições. O Brasil era um país de homens alcoolizados. Toda a América Latina era alcoolizada. O povo bebia tequila ou cachaça. A partir de certa hora, andar de carro era um perigo.

Depois, frequentava os grupos dos artistas e dos intelectuais. Um outro mundo.
Conheci gente muito interessante. Já falei do Zé Keti, com quem tive uma relação muito fraterna e curiosa. Era um homem misterioso. Nunca soube se era casado ou solteiro. Tive grandes amigos jornalistas, a começar pelo Hélio Fernandes, irmão de Millor [Fernandes] que modernizou a área das revistas semanais e o estilo de reportagem.

Tem casa em Lisboa, em Washington, no Rio de Janeiro. Andou pelo mundo, viveu em vários países. Onde é o «lar»?
Já tive dezenas de casas. A minha ligação é com pessoas não com prédios, objetos, coleções. A minha ligação é com a comunidade. Esse é o meu país.

Disse numa entrevista que o Brasil é a pátria da juventude, Portugal a da maturidade. Pode amar-se um país onde não se tem amigos de infância?
É verdade isso que diz. Eu sou aceite em Portugal, muito bem aceite até, mas não sou um dos vossos precisamente porque não tenho aqui amigos de infância. Falta-me em Portugal a convivência da fase acrítica da relação. Sabe, a minha mãe foi cremada e está aqui em Lisboa numa caixinha. O meu pai está no Cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro, que deve ser um dos mais feios do mundo. Há uns tempos comecei a pensar no assunto e conclui que não quero ser cremado nem quero ir para o São João Batista. Quero ir para um lugar que tenha que ver comigo. E escolhi o Cemitério de São Lourenço, em Almancil. Almancil tem uma pequena igreja, das mais bonitas de Portugal, e o cemitério, sendo feio, está ali, no lugar onde passei metade da minha vida. Devo dizer que à decisão seguiu-se uma odisseia burocrática de cinco anos para conseguir o jazigo e a aprovação do projeto mas está uma obra bonita. Muito simples e sóbria.

Quando viveu no Brasil, integrou a lista dos solteiros mais cobiçados.
Passados uns dias comecei a receber cartas de raparigas de todo o Brasil que diziam que, de todos os eleitos, eu era o seu favorito. Fiquei desconfiado. Efetivamente verifiquei com amigos meus que estavam na lista que eles também recebiam as mesmas mensagens das mesmas admiradoras.

O casamento com Mónica do Liechtenstein encerra a década de 1950. O bon-vivant e a princesa. Como se conheceram?
O período brasileiro intenso termina aí. Tinha 27 anos, já não saía com raparigas de 17 e foi portanto com pouca vontade que aceitei o convite de um amigo para acompanhar uma das três raparigas da aristocracia europeia que ele, como organizador, convidara para o Baile de Debutantes. Quando entrei na sala VIP, e ainda sem saber quem era a Mónica, declarei a uma amiga «Ó Teresinha, vou casar com aquela loura.» E assim foi. Um ano depois estávamos casados, numa cerimónia íntima, oficiada pelo meu amigo, o famoso D. Hélder Câmara.

Seguiram-se sete anos na Argentina.
O meu pai assinou com o governo argentino o maior contrato de habitação jamais feito na Argentina. Ele não fazia por menos. Tinha 27 anos e foi uma grande aventura.

Foi lá que em 1967 terminou o casamento com a princesa.
Nunca imaginei que poderia separar-me dos meus filhos. Na altura do divórcio, o Gilberto tinha 6 anos e o Constantino 3. O meu pai tinha morrido uns meses antes, deixando uma situação muito complicada, com negócios em vários países. Ele não era um gestor, era um criador de negócios brilhante, mas tinha pouca paciência para administrá-los.

O que mudou na sua vida com a morte do pai?
Comecei de novo aos 38 anos. Fui trabalhar para os Estados Unidos para desenvolver a área internacional da maior empresa americana de habitação. Desentendi-me com o meu chefe imediato e tive de sair. Recém-casado com a minha segunda mulher, norte-americana, que tinha uma filha de 8 anos, estava sem emprego e sem dinheiro. Conheci na altura um sueco que me disse o seguinte: «Olha, o que interessa mesmo é um lugar em Portugal chamado Algarve.» Estávamos em 1969. Passei uma noite a pensar no que fazer da minha vida. «Vou para Portugal.» Arranjei um investidor inicial e vim.

Passara por Portugal em criança, a caminho do Brasil, e mais tarde, quando vem a Lisboa agradecer a Salazar a carta de condolências pela morte do pai.
Sim, mas nessa altura não quis ficar. O meu pai era uma pessoa de direita. Eu não. Da mesma maneira que não fiquei no Brasil durante a ditadura. Vim então a Portugal e fui para o Algarve ver propriedades. Na zona onde é atualmente a Quinta do Lago. Havia a estrada para Vale de Lobo e nem uma única casa. Acompanhado do senhor da imobiliária entro no pinhal, vejo a duna, o mar, a propriedade que tinha sido da família Ramalho Ortigão por dois séculos, e pensei: «É aqui.» Senti que havia lugar na Europa para um projeto assim e mais de quarenta anos depois ainda é um empreendimento emblemático no continente.

Estávamos em 1972. Dois anos depois aconteceu a revolução que o levaria a abandonar o projeto e a segunda fuga.
Uma situação esquizofrénica. Politicamente entusiasmado com a revolução, fui economicamente sua vítima.

Politicamente entusiasmado até que ponto?
Com a liberdade. Sim, não era possível ficar encantado com Vasco Gonçalves.

Mas com Otelo deu-se bem.
A certa altura, Otelo teve curiosidade em relação à social-democracia. Tivemos várias conversas. Otelo é impulsivo, muito inteligente, fala um inglês soberbo e tem um grande sentido de oportunidade. É um ator natural. Em novembro de 1974 chegou a ir à inauguração do nosso campo de golfe.

Quando é que percebe que tem de se ir embora?
Quando me avisaram que estava numa lista para ser preso. Organizei a nossa saída via Faro. Em Londres, a minha mulher foi com as duas meninas para os EUA e eu fui entregar o meu filho à mãe no Liechtenstein.

Pensou que nunca mais regressaria?
Durante esses três anos de Portugal, o meu grande amigo fora um cão rafeiro-alentejano que me ofereceram. Na partida, chorei a pensar no Tostão. Acreditei que nunca mais voltaria. Ali começara a minha vida adulta, ali encontrara o meu verdadeiro caminho. Antes do Algarve, fui a Marbella e a Málaga à procura de terrenos. Mas Espanha era apenas mais um país estrangeiro. Portugal tinha que ver comigo.

No Brasil, seguia a situação portuguesa?
A certa altura, o governo português entrou em contacto comigo para resolver a situação. Os meus dois sócios fizeram uma jogada para ficarem com as minhas acões pensando certamente que eu, a passar por grandes dificuldades, não teria capacidade de reação. Mas reagi. Apesar de no Brasil os negócios terem corrido mal e de ter passado por uma fase de muita depressão.

Que o levaria à psicoterapia.
Encontrei uma terapeuta, uma senhora russa que vivia no meu prédio. E eu ia lá e contava as minhas histórias. Passadas três ou quatro sessões, diz-me ela: «Olhe, essas histórias são todas muito interessantes, mas agora vamos falar a sério. Aprendi a identificar as causas da ansiedade. A lidar melhor com as crises de ansiedade e até de pânico.

Regressa em 1981. Marca quem lhe faz mal?
Perdoo, mas não esqueço. E, uma vez ou outra, se tenho oportunidade de retaliar, faço-o. Sou paciente.

Nos negócios também é emocional?
Nos negócios tenho um misto de intuição, razão e know-how. Nos EUA aprendi a planear. Aquilo é feito para qualquer um saber executar. Isso vale-me até hoje.

É muito bom a fazer castings. Sabe imediatamente quem lhe interessa ou não.
Isso vem com a experiência. Regra geral, tenho acertado nos meus colaboradores.

Neles, o que mais aprecia?
Capacidade de trabalho e lealdade. E mantemos uma longa ligação. Conheci-os jovens, conheço os filhos, conheço os netos. Nos meus primeiros anos de Algarve, havia um rececionista de hotel muito vivo. Muitas vezes o ouvi pedir a um amigo que trabalhava no aeroporto que lhe mandasse clientes porque ainda tinha um quarto para vender. Um dia disse-lhe «Você vai trabalhar comigo». E trabalha comigo até hoje.

O país deve-lhe que Algarve?
Eu ofereço o que a elite civilizada do mundo quer: segurança, discrição, sobriedade, qualidade, educação. Sempre me dirigi ao mercado médio-alta. Há poucos multimilionários. Burguesia rica, civilizada e culta, ainda há alguns milhões. Mas não basta saber que gostam de nós. Temos de ser proativos.

Que julga que os portugueses pensam de si?
Não estou muito preocupado. Prefiro que fique a obra e que a família persista e se ramifique. Tenho a sorte de ter quatro filhos [Gilberto, Constantino, Sarah e Henrique] e oito netos inteligentes e bonitos. Na minha família direta há doze origens diferentes. O futuro do mundo é esse.

Durante muito tempo não pediu a nacionalidade portuguesa. Porquê?
Até o Brasil mudar a lei e permitir a dupla nacionalidade, não quis deixar de ser brasileiro. Eu e a minha família chegámos ao Brasil como refugiados de guerra e fomos sempre muito bem tratados. Não podia ser infiel ao Brasil.

Em 1998 recebe a Grã-cruz da Ordem de Mérito. Merecida?
O meu pai gostava muito dessa coisa das condecorações. E eu brincava muito com ele. Pois hoje sou igual. Também gosto. O reconhecimento da nossa comunidade é muito gratificante.

Tem muitos amigos ou conhecidos?
Tenho vários amigos.

Alguma gratidão em particular?
Muitas. Jorge Jardim Gonçalves, nos bancos pelos quais passou, foi o grande apoiante de tudo o que fiz em Portugal.

Depois de a recuperar, vende a Quinta do Lago em 1987.
A venda da Quinta do Lago era imperativa e acabou por ser um alívio. Levantar de novo a Quinta do Lago foi uma tarefa ciclópica.

Em 1971 cria a Quinta do Lago, em 1991 o Belas Clube de Campo. Vinte anos depois, continuou a confiar em Portugal.
Quero sempre fazer coisas. Quisemos com a nossa equipa criar algo semelhante, na Grande Lisboa, num contexto residencial urbano. Belas vai ser um empreendimento tão ou mais importante do que é a Quinta do Lago. Entretanto, assumimos o controlo e revitalizámos Vilamoura em 1996 e criámos o Vilamoura XXI, a nova fase de um empreendimento turístico residencial que é o maior da Europa gerido por uma só empresa.

Ao longo da vida empresarial foi seguramente obrigado a compromissos que não queria. Alguns de ética duvidosa?
A ideia de que há muita corrupção em Portugal é falsa. Há, é verdade, pessoas que não serão condenadas apesar de merecerem. Fora isso, devo dizer que nunca paguei a ninguém nem nunca ninguém me exigiu dinheiro, e falo de centenas de projetos.

As mulheres são um capítulo à parte na sua vida. E central.
Olhando para toda a minha vida, não posso pensar em nada que me dê mais prazer do que a companhia da mulher. Costumo até dizer que homens só até às seis da tarde. Há poucas coisas mais chatas do que um jantar de negócios.

Namorou em várias línguas.
É muito diferente de namorar no português do Brasil. Já namorei em espanhol, inglês e francês. O brasileiro é muito sensual. Os franceses têm uma maneira muito ritualística de comunicar no amor. Mas qualquer língua é boa para namorar.

Tem sido bem tratado pelas mulheres?
Sim, de uma maneira geral. As minhas memórias são muito doces e mesmo as partes dramáticas à distância no tempo ficam atenuadas.

Punta del Este, anos 1960. O que pensou quando, num restaurante, um amigo lhe diz que Anita Ekberg, a jantar no mesmo local, gostava de lhe falar?
Senti que era o premiado. Fui ter com ela, fui levá-la ao bungallow – que era defronte ao meu – e quando achava que poderia entrar aparece o marido completamente bêbedo e estatela-se diante de nós no relvado. «Pegue nas pernas que eu pego nos braços», disse-me ela. E pronto, acabou ali a noite.

Foi namorado da mulher de Vinicius de Moraes.
Tive uma relação intensa e dramática com a segunda mulher do Vinicius, a Lila Boscoli. Vivemos juntos durante alguns anos numa relação que marcou a minha vida.

Ainda as madrugadas: vida interessante e feliz?
Uma vida com momentos desagradáveis, o que é natural quando se vive com a coragem com que eu tenho vivido. E também com momentos muito doces. Sim, tenho uma vida interessante e feliz. Tenho sorte em estar vivo.

Leia a continuação da entrevista ao empresário André Jordan:
«Devia ter mais respeito pelo dinheiro»

Alexandra Tavares-Teles
Fotografia de Jorge Amaral/Global Imagens e arquivo pessoal de André Jordan