OPINIÃO

Cliques, vídeos e pecados de gula

Mesmo na disputada «economia da atenção», o jornalismo tem de marcar a diferença. Porque é essa a sua responsabilidade social.

Corre um debate sério na comunidade dos media sobre as redes sociais e as plataformas digitais, as suas responsabilidades e as suas consequências para a comunicação mundial. Decorre em fóruns normalmente fechados, de jornalistas e empresários de comunicação. Só chega a público quando há escândalos, como o das notícias falsas nas eleições americanas e no referendo do brexit. Ou quando um jornal como o The Guardian publica uma investigação sobre as regras de moderação de conteúdos do Facebook, os Facebook leaks, divulgados nesta semana.

Uma vez que as redes sociais se tornaram o meio primordial de distribuição online de informação, há uma grande pressão para que sejam responsabilizadas pelo conteúdo que publicam. Pelo seu lado, Facebook, Twitter, Google e companhia usam o argumento da liberdade de expressão e escudam-se no papel «anódino», de simples transmissor – todas gozam de um estatuto conferido pela lei americana aplicável aos operadores de telecomunicações que diz que estes não são responsáveis pelo uso que os utilizadores fazem dos seus sistemas, linhas, redes.

Acontece que todas estas plataformas fazem escolhas editoriais na partilha de informação. As redes sociais, em algoritmos elaborados que determinam quem vê o quê. As plataformas de pesquisa, na junção de utilizadores com anunciantes. A escolha é feita, até, na promoção de conteúdos em detrimento de outros. E, embora de forma mitigada, na seleção da informação que sai para a rede – como mostraram os Facebook leaks. Por algum motivo, alguém que tem os mesmos que eu não recebe a mesma informação.

Até agora, tudo tem ficado na mesma. Mas o álibi das redes sociais começa a roçar uma impunidade que se tem revelado contraproducente. A polémica das notícias falsas é só um exemplo. Há outros, mais graves, como o do americano de Cleveland Steve Stephens, que fez um vídeo que publicou no Facebook a atirar a matar sobre um transeunte, ou o homem na ilha tailandesa de Phuket que fez um live video a matar a sua filha de 11 meses antes de desligar a câmara para se matar a seguir. Qual é a responsabilidade do Facebook? Atualmente e legalmente, nenhuma.

Segundo os dados divulgados nos Facebook leaks, esta rede social está cheia de «pornografia de vingança», vídeos sexuais usados para extorsão, ofensas a crianças e abusos a deficientes. Tudo porque as suas regras da liberdade de expressão o permitem. Talvez a questão não se resolva nunca. Mas é bom que se continue a separar o jornalismo do resto. E que quem o pratica perceba a sua responsabilidades – é por causa do poder que têm os media de alterar a vidadas pessoas que a sua atividade é tão regulada, e a nível mundial. Um clique não vale uma vida. Nem uns milhões.

Na dependência da distribuição facebookiana – que tem como efeito a prática dos famosos clickbaits (os títulos pescadores de cliques) –, é cada vez mais importante que o jornalismo mantenha a cabeça fria e saiba que o seu único capital é a confiança. Se nós não estivermos sempre a lembrá-lo, é provável que os nossos leitores sejam os primeiros a esquecer-se – tal é o turbilhão da economia da atenção em que se encontram mergulhados.