OPINIÃO

A obesidade é hereditária?

Cerca de 1,5 milhões de portugueses são obesos, três milhões têm excesso de peso. É quase metade da população, portanto. Sabia que um adulto obeso com 40 anos pode ter menos sete anos de vida? Pais obesos, filhos obesos? O que é que a a dieta mediterrânea pode fazer por nós? Mas afinal do que falamos quando falamos de obesidade? Hoje é Dia Mundial da Obesidade.

Texto de Sara Dias Oliveira | Fotografia de Shutterstock

Os números quase explodem. Desde 1980 que a prevalência da obesidade quase duplicou em todo o mundo. Em 2015, havia um total de 603 700 milhões de pessoas obesas na Terra. E o nosso país é, neste momento, um dos países europeus com maior taxa de obesidade: cerca de 1,5 milhões de pessoas são obesas e três milhões têm excesso de peso.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já rotulou a obesidade como uma preocupante pandemia. Não é caso para menos. Basta lembrar que a obesidade condiciona o aparecimento de doenças como a diabetes, a hipertensão arterial, a apneia obstrutiva do sono. E, como se não chegasse, está associada a vários tipos de cancro. Hoje é Dia Mundial da Obesidade.

«A obesidade é hoje considerada uma doença crónica com impacto na morbilidade e na mortalidade», diz à NM João Jácome de Castro, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo. É uma doença que não brinca em serviço.

A esperança média de vida de um adulto com obesidade de 40 anos encontra-se reduzida em cerca de sete anos.

«Aos 40 anos de idade, a esperança média de vida de um adulto com obesidade encontra-se reduzida em cerca de sete anos», adianta o médico. Os estilos de vida são para aqui chamados. Uma alimentação desequilibrada e falta de exercício físico têm responsabilidades nesta matéria.

Obesidade e diabetes andam de mãos dadas e se, há uns anos, apenas as pessoas com mais de 50 anos tinham esses problemas de saúde, a verdade é que agora essas doenças «atacam» gente cada vez mais nova.

Aqui ao lado, em Espanha, Dora Romaguera, investigadora de epidemiologia nutricional e fisiopatologia cardiovascular no Instituto de Investigação das Ilhas Baleares, distinguida com o prémio de jovens cientistas, anda a estudar se a combinação da dieta mediterrânea com a atividade física e perda de peso moderada é uma boa estratégia para prevenir e tratar da diabetes tipo 2, em que cerca de 90% dos doentes têm excesso de peso e obesidade.

Romaguera defende a dieta mediterrânea – 50% de vegetais, 25% de alimentos ricos em hidratos de carbono e 25% em alimentos proteicos, como meio de prevenir obesidade, diabetes, cancro ou depressão.

O estudo envolve 6800 participantes e tem vindo a demonstrar que aqueles que aderem à dieta mediterrânea e diminuem de peso melhoram os marcadores da diabetes.

Numa entrevista ao El País, a investigadora explica que a diabetes atinge cada vez mais jovens e crianças precisamente por causa da obesidade. «A obesidade e a diabetes são doenças associadas. Na origem da obesidade, há um fator ambiental: mudanças na influência dos estilos de vida. Há mais e mais crianças sedentárias nas cidades. Além disso, a dieta é pobremente equilibrada. Existe também um fator genético. O estado de obesidade da mãe, o desenvolvimento de diabetes gestacional ou sua dieta durante a gravidez predispõem a criança a desenvolver obesidade ou diabetes no futuro», diz.

«A verdade é que a obesidade geralmente ocorre nas famílias: geralmente vê-se pais obesos com filhos obesos. É difícil saber se é por causa do meio ambiente na casa, ou seja, o tipo de alimentação, ou porque a mãe é obesa na gravidez», acrescenta.

Romaguera defende a dieta mediterrânea, idealmente constituída por 50% de vegetais, 25% de alimentos ricos em hidratos de carbono e 25% em alimentos proteicos (como peixe, legumes, frango, ovos), como meio de prevenir não só a obesidade e a diabetes, como também o cancro da mama, o cancro colorrectal e ainda doenças do foro cognitivo como a depressão.

A obesidade acontece quando a ingestão calórica excede o consumo energético do corpo.

«Devemos tentar eliminar de nossas despensas todos os alimentos processados, refrigerantes, biscoitos ou cereais matinais. Um bom café da manhã ou um bom petisco seria “pa amb oli”, isto é, pão de trigo integral, com tomate e azeite». Há, portanto, todo um trabalho pela frente e as crianças precisam de ser educadas a nível nutricional.

Para Romaguera, as cantinas das escolas deviam ter menus equilibrados e as máquinas de venda automática deviam ter frutas. Os adultos também precisam de educação nutricional para perceberem que um estilo de vida saudável não é apenas importante para perder peso. «Há 15 anos, falava-se de dieta e as pessoas pensavam apenas em emagrecimento. Agora estão mais interessadas em saber o que é e não é saudável para a saúde», refere ao El País.

O estado de obesidade da mãe, o desenvolvimento de diabetes gestacional ou sua dieta durante a gravidez predispõem a criança a desenvolver obesidade ou diabetes no futuro

A obesidade tem um impacto significativo na qualidade de vida. «Há causas, nomeadamente doenças endócrinas que provocam obesidade e excesso de peso. Mas trata-se de um número pouco relevante de casos.

Na verdade, o excesso de peso e a obesidade no mundo atual decorrem de um conjunto de fatores de onde sobressaem o estilo de vida e as suas consequências na alimentação e na atividade física», adianta João Jácome de Castro.

E há que separar as águas. Na obesidade, é necessário diferenciar medidas preventivas e medidas curativas. «Podemos considerar que uma alimentação saudável e uma atividade física regular constituem a base do que deve ser a prevenção destas situações, mas devem ser sempre parte integrante (modificações do estilo de vida) de um regime terapêutico para o excesso de peso/obesidade. Há, também, fármacos que ajudam na perda de peso».

Mas, afinal de contas, como é que ela surge? A obesidade acontece quando a ingestão calórica excede o consumo energético do corpo. O impacto fisiológico deste desequilíbrio energético sobre o peso corporal pode ser diferente de pessoa para pessoa, pela influência de fatores genéticos, físicos e ambientais.

«O Índice de Massa Corporal (IMC) é o indicador mais utilizado na prática clínica e resulta de uma relação entre o peso e a altura, relacionando-se habitualmente de forma fiável com a percentagem de gordura corporal. É, contudo, aconselhável também avaliar o perímetro da cintura que nos dá informação relativamente à gordura visceral, a mais desfavorável para a saúde», refere o médico.

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