OPINIÃO

Eu declaro morte ao fado

Mas agora vejam lá este último ano da vida portuguesa. Vejam lá aquele golo do Éder e aquele golo do Salvador. E o Guterres na ONU e o Ronaldo no Olimpo. O alcance de um país com a dimensão de Portugal é hoje extraordinário em níveis em que nos tínhamos habituados a ser pequenos.

Começou tudo em 1998, também no final de maio. Eu apercebi-me de que o fado estava a morrer quando pus o primeiro pé na Expo. Não sei se se lembram disto, mas havia umas máquinas de bebida no recinto que faziam a festa inteira quando se selecionava uma cerveja. Antes da lata cair, ouvia-se o som de um yuppie! Nesse verão, o país viveu uma euforia que antes teria parecido impossível. Naquela exposição mundial sobre os oceanos, realizada 500 anos depois de Vasco da Gama chegar à Índia, Portugal ganhou um orgulho em si mesmo que eu nunca tinha visto antes. No último dia do certame, no final do fogo-de-artifício, um milhão de pessoas puseram-se a gritar espontaneamente o nome do país.

No ano seguinte o fado morreu mais um bocadinho, por causa de Timor. Depois de tropas indonésias invadirem a ilha – que tinha votado pela independência –, eu vi o meu país sair à rua vestido de branco e exigir ao mundo que parasse a chacina. Fomos tantos e gritámos tão alto que ninguém podia deixar de nos ouvir. E, caramba, que país o meu – esse que soube levantar a voz por outro. Como nasci depois do 25 de Abril, sempre invejei a alegria de uma liberdade nova e de uma manhã de crença inabalável. Portugal, do que me era dado a ouvir, era lamento e dúvida, desnorte e fado.

A Expo e a luta por Timor. Esses foram os dois grandes sucessos da nossa vida coletiva a que eu assisti enquanto português. Não consigo meter o Euro 2004 no mesmo saco – não quando gastamos uma pipa de massa em estádios obsoletos, perdemos uma final com a Grécia e ainda por cima, passados poucos meses, elegemos um primeiro-ministro chamado Sócrates. E também não tenho ponta de orgulho no facto de ter havido um presidente da Comissão Europeia que tem a minha nacionalidade. Não quando ele chega lá como mordomo de uma reunião que decide a guerra. E não quando sai de Bruxelas para a Goldman Sachs.

Mas agora vejam lá este último ano da vida portuguesa. Vejam lá aquele golo do Éder e aquele golo do Salvador. E o Guterres na ONU e o Ronaldo no Olimpo. O alcance de um país com a dimensão de Portugal é hoje extraordinário em níveis em que nos tínhamos habituados a ser pequenos – na diplomacia, no desporto, nas artes, mas também na ciência, na arquitetura e no turismo. Habituados que estávamos a vermo-nos menores, temos agora o mundo a mostrar-nos que não é bem assim. Um miúdo que cresça hoje em Portugal não vai precisar de esperar até à idade adulta para ver o esplendor do país. Vai crescer com ele.

O fado desenvolveu-se extraordinariamente no século XIX, foi lamento que subiu de tom à medida que perdíamos um império, travávamos uma guerra mundial e outra colonial, vivíamos a instabilidade política de um projeto falhado de república e a ferocidade infame de uma ditadura tacanha. Crises, analfabetismo, miséria, atraso. Foi-nos justo o fado todo este tempo. Quando olhávamos o espelho, era difícil amarmo-nos como povo. E, se é certo que a estrada é longa, que nos continuam a classificar de lixo e que estes até podem ser sintomas irrelevantes, também sabemos que, não sendo melhores do que os outros, também não somos piores que ninguém.

Então eu declaro morte ao fado. Não à canção – essa é bela e património do mundo inteiro. Mas a este destino que nos prende no nacional choradinho, à cansativa lamúria, aos impossíveis que damos como certos. E que nos apercebamos que a única derrota que sofremos todos os dias enquanto povo é que as máquinas de bebida já não gritem yuppie! cada vez que pressionamos o botão da cerveja.

 

[Publicado originalmente na Notícias Magazine de 21 de maio de 2017]