OPINIÃO

Patinho feio

Na escola, Kate Winslet era gozada e chamavam-lhe «gordura de baleia». Um estudo da Universidade do Minho confirma que as características físicas são o maior motivo de gozo entre alunos. E o que acontece aos patinhos feios que nunca chegam a sentir-se cisnes?

Costumamos vê-la glamorosa a esvoaçar sobre a passerelle. Um anjo milionário, entre as mais cotadas manequins internacionais. Perante produções cuidadas, com peças exclusivas e lingerie cheia de rendas, torna-se difícil acreditar nas memórias do tempo em que o cisne ainda não tinha ganho asas e Sara Sampaio se sentia presa à imagem de menina tímida, sem sucesso entre os rapazes e considerada «marrona» pelos colegas.

Na escola, Kate Winslet era gozada quando dizia que queria ser atriz. Chamavam-lhe «gordura de baleia», provocavam-na e chegaram a trancá-la num armário. Tudo porque não encaixava nos padrões comuns de perfeição. Hoje, com uma estatueta a pontuar uma carreira recheada de êxitos e de interpretações de excelência, fala com todas as letras de como a infância de violência psicológica a marcou.

Sofia Gomes tem a mesma idade de Kate, 41 anos. Tinha a mesma ambição, quando era miúda: pisar um palco. Nos recreios declamava poemas, recriava cenas das novelas, desdobrava-se em personagens, tiques e vozes. Ignorava as frases frias que lhe eram repetidas com insistência. «Monte de banha! Quem é que achas que vai querer olhar para ti?»

O sonho resistiu até aos 17 anos. Nessa altura, quando se preparava a récita de finalistas do liceu, ofereceu-se para todos os papéis e mais algum. Ficou de fora, a ajudar a coser fatos e a esticar cenários. Decidiu que era tempo de sair de cena e não chegou a completar o 12º ano. Hoje é assistente operacional num lar de idosos.

«Vocês podem fazer qualquer coisa. Acreditem.» A mensagem inspiradora de Kate foi deixada recentemente a 12 mil jovens que a ouviram falar da infância e juventude, num evento em Londres. A verdade, aquela verdade que não entra em Hollywood nem é bonita de ouvir, é que nem todos conseguem. Nem todas as histórias que começam tortas têm um final de superação.

Um estudo desenvolvido por quatro investigadoras da Universidade do Minho nos últimos três anos, em quatro escolas do país, concluiu que 235 dos 739 alunos inquiridos relatam situações de discriminação entre colegas. A listagem das causas é clara. À cabeça surge a aparência física, com o «ser gordo» a liderar os motivos de gozo, seguindo-se dimensões do corpo como o tamanho das mãos ou do nariz.

De tanto os rótulos serem repetidos, vão-se colando à pele. Até entrarem na alma e a pintarem de cinzento, contribuindo para fenómenos de isolamento, para o abandono dos estudos ou para estados depressivos.

A timidez, a insegurança ou a fragilidade constituem a segunda maior causa de discriminação. Em terceiro está a preferência sexual, seguida dos resultados escolares – um jovem tanto pode ser gozado por ser bom aluno como por ser muito mau. Estes motivos podem acumular-se e exponenciar os insultos, tendo havido alunos que indicaram ser vítimas de quatro ou mais causas de discriminação em simultâneo.

Uma das conclusões mais impressionantes do estudo é que poucos são os adolescentes que sinalizam estes comportamentos, na primeira abordagem, como discriminação. A explicação sintetiza-se quase sempre na mesma fórmula: «Dizemos essas coisas, mas é a brincar.» A brincar insulta-se. A brincar menoriza-se. A brincar explora-se a fragilidade e o medo de quem se olha ao espelho e se sente inferior. E, de tanto os rótulos serem repetidos, vão-se colando à pele. Até entrarem na alma e a pintarem de cinzento, contribuindo para fenómenos de isolamento, para o abandono dos estudos ou para estados depressivos.

As crianças conseguem ser cruéis na sua falta de filtro. E às vezes confundimos a espontaneidade com naturalização de comportamentos transmitidos pelos adultos. Nenhuma criança chamará gordo ao amigo se não tiver aprendido de um adulto a acentuar as diferenças físicas. Perante estudos como o agora divulgado pela Universidade do Minho, o pior que podemos fazer é encolher os ombros. Ou fechar os olhos.

A escola inclusiva e potenciadora do melhor que há em cada um não pode estar apenas fixada em metas e classificações de Matemática, Português ou Química.

Tem de ser capaz de olhar para resultados como estes e trabalhar no sentido da mudança. Não basta formar futuros médicos, engenheiros ou programadores de sucesso. É preciso que a escola seja, desde o jardim-de-infância, um espaço de liberdade em que não há patinhos feios nem cisnes. É utopia? Sem dúvida. Mas se desistirmos de olhar para o avesso do que os olhos veem, teremos ficado na margem do que nos faz ser gente.