OPINIÃO

1974: Às escovas, cidadãos

O povo saíu à rua para limpar paredes e ruas, recuperar calçadas, desbravar mato daninho. Um domingo de trabalho, em nome da revolução.

Texto de Ricardo J. Rodrigues | Fotografia Arquivo DN

Isenção? Mas qual isenção? Na edição de 7 de outubro de 1974 do Diário de Notícias o entusiasmo era tal que não havia margem de manobra para o lado da barricada a ocupar. «Milhões de portugueses trabalharam para o ressurgimento da pátria livre», era a manchete.

A seguir este subtítulo, «O país viveu em festa uma jornada de esforço.» Depois a inflamação, logo nas primeiras linhas. «Todos os homens, mulheres e crianças que ontem saíram de casa e, à sua maneira, contribuíram para transformar o pacato domingo do costume em grandiosa jornada de trabalho, deu à reação melhor resposta que todas as manifestações de rua e todos os slogans anti-fascistas surgidos depois do 25 de abril.»

A ideia tinha sido de Vasco Gonçalves, que dias antes tinha sucedido a si mesmo como primeiro-ministro no III Governo Provisório. A «maioria silenciosa» tinha nascido dias antes, em apoio ao general Spínola, e havia marcado uma manifestação para 28 de setembro desse ano para expressar-se contra a instauração de um regime comunista.

O protesto não chegaria a acontecer, mas dias depois o chefe de governo convocava o povo para as ruas numa medida simbólica que varresse a reação de vez.

O povo saiu essa única vez rua para limpar paredes, varrer lixo das ruas, recuperar calçadas, desbravar mato daninho. O Dia Nacional da Vassoura, como lhe chamou o DN, morreu com o Verão Quente.

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