OPINIÃO

Viajar é um ato de resistência

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Não deixámos de viajar e dos viajantes será sempre o mundo. Mas andar daqui para ali e alimentar-se da diferença passou a ser para pessoas com coragem.

Com o advento da internet – ups, só alguém nascido há tanto tempo, antes de o digital ter tomado conta disto tudo, pode dizer uma frase destas… Como eu dizia, quando a Internet tomou conta do mundo, e vieram outras realidades que não as reais, as virtuais, as aumentadas e etc., achava-se que iam acabar as viagens. As físicas mesmo, em que o corpo vai daqui para ali. Para quê fazer viagens de trabalho, milhares de quilómetros percorridos só para reunir com pessoas, quando havia a possibilidade de falar com elas por videoconferência, Facetime, Messenger, Skype? Para quê ir para filas à porta de museus quando podiam ser visitados online, com muito mais informação por segundo do que os nossos olhos podem absorver?

Mas não. Afinal, ficou tudo na mesma. Permaneceu este ímpeto – humano? – de andar por aí, calcorrear caminhos, chegar mais além, envolver-se em atmosferas diferentes, em temperaturas novas, ver caras, interagir e recolher dessa interação informação que não se submete a formato digital, entre 0000 e 1111. Os aeroportos continuaram cheios de gente em trânsito. São dos lugares mais fascinantes da história contemporânea – talvez por isso já deram origem a filmes e livros e obras de ficção, que, estou certa, não terão metade do interesse que teriam se a história fosse contada por alguém que se pusesse, de facto, a conhecer as razões para estar ali todas e cada uma daquelas pessoas. Os aeroportos continuaram a ser esses lugares de aglomeração de gente, e por isso são hoje alvo privilegiado de terroristas. Assim causam o máximo impacto, com várias nacionalidades entre as suas vítimas. Mas também atingem outro dos seus objetivos: minar a diferença, a dissensão, a miríade de ideias, religiões, cores, formas de estar e de viver.

Ora é por isso que todos os viajantes viajam – para conhecer o que é diferente. Há milhares de frases inspiradoras sobre este assunto, mas todas falam da riqueza de ser confrontado com o que é estranho e incorporá-lo na nossa formação. Eu sei, eu sei, uma viagem não é uma vacina contra a estupidez. Nem todas as mentes tacanhas ficarão iluminadas por um banho nas Caraíbas – sobretudo se estiverem num resort fechado, para onde foram transportados por um guia e uma agência que os afastou de qualquer contacto com a realidade e as dificuldades, nem que seja uma pontinha de stress, que qualquer viagem acarreta. Mas, vá, qualquer tacanho sê-lo-á menos se um ar diferente lhe tiver entrado pelas narinas dentro. Ainda que esteja sempre a queixar-se da comida local, a suspirar por um «bacalhauzinho»…

Sortudos os que têm em si o gene do viajante. Os que se sentem em casa em qualquer lugar, e gostam tanto da humidade que se cola à pele na estação das chuvas dos climas tropicais como do vento cortante de janeiro em Nova Iorque ou da chuva miudinha da Irlanda em agosto. Dos que veem em cada novo sabor um desafio – até dos escaravelhos que se vendem assados nas ruas de Banguecoque. Dos que sentem uma excitação no estômago quando se abre a porta pressurizada do avião que só se acalma, em tristeza, no voo de regresso, e tudo no meio é transformado em descoberta. Deles é o mundo. E não há terrorismo que os faça ficar em casa. Ainda que viajar seja um ato de resistência.

[Publicado originalmente na edição de 7 de agosto de 2016]