Se vindes, vindes

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Estava no segundo ano de faculdade quando abri a minha primeira conta de e-mail. A internet tinha chegado anteontem, o correio eletrónico era em grande medida desconhecido, os telemóveis eram uma raridade. A minha geração, a que está agora a chegar aos quarenta anos, foi a última que confirmou a adolescência por telefone fixo e a puberdade por carta. Tínhamos por isso de combinar os encontros com antecedência. Onde cresci obedecia-se a instruções precisas: às três no fundo da estação, às nove e meia no café do do senhor Zé, às onze nas escadinhas do Palácio. Vinte minutos de tolerância, meia hora no máximo. Se queríamos estar juntos, tínhamos de acertar o tempo e o espaço – e comprometermo-nos com isso. Não havia, na verdade, campo para demasiadas indefinições

A geografia era, provavelmente, fator incontornável para tanto rigor. Um encontro significava muitas vezes uma longa caminhada a pé, ou uma viagem de comboio, ou uma difícil autorização parental, sobretudo em dias de escola. Eu cresci longe da cidade e, quando vim viver para Lisboa, estranhei o «já se vê», o «passo por lá», a indefinição com que os habitantes da urbe fluíam pelos encontros, sem certezas de aparecerem nos sítios, sem se comprometerem com um jantar ou uma ida ao teatro. E não é a falta de planeamento que me irrita. Aliás, estou calejado em lançar-me à vida sem planos. Faço viagens imprevistas, prolongo encontros que não esperava, atiro-me de cabeça aos lugares que quero explorar. Não, o que me irrita mesmo é o renhonhó, a indefinição, o logo-se-vê e o vai-com-calma.

A culpa, na verdade, não é só tecnológica. Tenho um amigo com quem costumo marcar refeições por telemóvel em menos de dez segundos. Queres jantar? Quero. Nove? Boa, encontramo-nos no largo e depois logo se vê. Combinado. Pronto, eu gosto disto. A comunicação eficiente potenciada pela tecnologia eficiente. Mas, se e-mails e telemóveis aceleraram a eficiência comunicacional, também se tornaram numa ferramenta de prolongamento eterno do renhonhó. Hoje é muito mais fácil descombinar jantares, anular encontros, mudar horários de entrevistas ou reuniões. O compromisso de tudo o que tínhamos para fazer passou a esvair-se três minutos antes, com uma chamada.

Há pouco mais de uma semana, apanhei um escaldão na praia, estava um dia de calor estival. E, dias depois, embarquei para Trás-os-Montes. Inspirado pelo verão da semana anterior, trouxe na mochila vários pares de calções e camisas de manga curta, mas pouca roupa quente e nenhum abrigo para a chuva. Ontem, estavam sete graus à noite em Alijó e eu atravessei-os de t-shirt e blusão de ganga. É chato, porque eu e o tempo estávamos combinados, ele avisou que ia trazer o verão e depois desmarcou tudo à última da hora. E isso irrita-me um bocado, como me irrita o renhonhó todo deste país que hesita antes de cada decisão. Alguns dos meus melhores amigos transmontanos ensinaram-me esta expressão preciosa, e perdoem o meu francês, mas não há outra forma de usá-la: «Se vindes, vindes. Se não vindes, fodei-vos.» É isto que eu tenho para dizer hoje aos céus. E, já agora, a uma ou outra pessoa que conheço.