OPINIÃO

Se podes ver, repara

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Fui roubar a José Saramago a frase que me veio à cabeça quando soube da morte de Querubim Lapa, o mestre que deixou semeadas pelo país obras de cerâmica tão familiares que passamos por elas sem notar. Estão ali, talvez nos façam sentir um pouco melhor por deslizarmos nelas o nosso olhar, mas na maior parte das vezes nem temos consciência disso. Tomar um café na Mexicana e ver o brilho do sol no interior, subir a Rua Garrett e sentir a falta do painel da Casa da Sorte, passar no metro e espreitar em andamento as paredes da estação da Bela Vista – tudo isto nos acontece sem realmente sabermos.

Há pessoas assim, como este velho mestre, que desatam a desenhar em crianças e, ao contrário do que acontece com a maioria de nós, não deixam nunca mais esse gesto instintivo. A mão está sempre a pedir-lhes mais e melhor, explicam-se aos outros através de riscos e formas que são a sua linguagem. Por isso é tão maravilhoso ver imagens da última aula de Querubim Lapa, dada há menos de um mês, um grosso marcador preto na mão e um quadro de papel branco continuamente riscado e renovado.

Reparar nos painéis que ele criou, e criou ele próprio na fábrica da Viúva Lamego, como noutros que as paredes das cidades e dos edifícios públicos nos mostram, é um exercício do que diz Saramago: «Se puderes olhar, vê; se podes ver, repara», na contracapa do fortíssimo Ensaio sobre a Cegueira. Observemos aquilo que no nosso estar desatento é uma mancha vaga como quem estuda, ou como quem tem um livro nas mãos e não consegue parar de ler, porque a cada frase há mais e mais para saborear.

O sol da Mexicana, por exemplo, que aquece com a sua presença os pássaros que moram na estufa ali mesmo ao lado, e juntamente com eles cria um ambiente de vida no que podia ser o fundo escuro do restaurante. Reparemos nos pormenores, na rugosidade e na espessura da cerâmica vidrada, pintada em cores quentes e sobrevivente com décadas de vida em redor. Imaginemos como aquela casa foi lugar de encontro de poetas e pintores, cenário de almoços de famílias do bairro, mesa de chá para conversas lentas de senhoras em intervalo de compras e cabeleireiros.

Na escola básica e infantário que hoje se chama Querubim Lapa, em Lisboa, um painel mostra o traço inconfundível do artista, crianças brincando, lendo, crianças num cenário sonhado de azuis tranquilos, folhas e flores esvoaçando. Na Bela Vista, formas geométricas dão cor ao revestimento em azulejo, com dois painéis de cerâmica que são ilhas de cor num espaço de tons claros.

Ficará para todos com a sua cerâmica, ele que teria sido serralheiro no Algarve, onde nasceu, se ninguém tivesse reparado no seu talento. Estudou na Escola António Arroio, fez Escultura nas Belas-Artes, onde ainda estudavam também os arquitetos. E depois voltou à base e ensinou cerâmica ao longo de 45 anos a gerações e gerações de jovens na escola que lhe dera a formação inicial. E viveu estes 90 anos cruzando a sua arte com a de outros, convivendo em tertúlias e ateliês, deixando a sua marca em edifícios emblemáticos.

As cidades têm estes segredos à vista que temos de identificar e cuidar. Painéis de azulejos como os que intervalam os prédios da Avenida Infante Santo, recantos que nos piscam o olho como se um artista lá tivesse deixado apenas um aceno ou uma declaração de que a beleza mora ali. Passamos e não reparamos, menos quando eles faltam como na entaipada e antiga Casa da Sorte do Chiado. Se puderes olhar, vê; se podes ver, repara.»

[Publicado originalmente a 8 de maio de 2016]