OPINIÃO

Põe aqui o teu pezinho, ó turistazinho…

[…]

O desafio da democratização das viagens e do turismo, em Lisboa e nos Açores. Como aproveitá-la sem estragar nada.

Quando tinha 19 anos anos escrevi uma crónica para o Diário de Notícias sobre turismo. Estava integrada num suplemento de verão, desses com que os jornais têm de encher as páginas sem publicidade – mas muita leitura de veraneantes ociosos. Toda a gente da redação escreveu sobre a sua terra, e eu escrevi sobre aquela que é a minha, por afinidade, os Açores.

Nesse artigo, e na altivez da minha juventude, eu vociferava contra os turistas que começavam a chegar às ilhas. Eu, que os encontrava nos aeroportos e aviões, nas idas e vindas para visitar a minha família, irritava-me com as manifestações do que interpretava como uma falta de compreensão da alma açoriana. Dizia que eles não compreendiam nada. Não percebiam o nevoeiro, a chuva miudinha, a beleza que eu queria imaculada. O fechamento, a nostalgia, as lágrimas que eram uma constante de quem vivia a duas horas e muitos euros (nessa altura eram escudos) de distância de tudo o resto. Quer do lado de cá, do continente, quer do lado de lá, da América. Imigrantes, emigrantes, migrantes, os açorianos eram gente com lágrimas. Feliz ou não.

A distância e o preço das passagens para os Açores fizeram perdurar esta sensação durante muito tempo. E, até ao ano passado, os aeroportos açorianos mantiveram esta pátina de tristeza, de saudade, de lonjura. E, até, de um certo distanciamento. Viajava quem podia ou quem tinha mesmo de o fazer. Viajava quem vinha ao médico a Lisboa. Ou para estudar, de mochila cheia de recordações e geleiras de comida preparada pela família. Ou, então, quem estava acostumado a esta ponte aérea, pessoas já habituadas a férias e que não faziam disso uma festa.

No último ano, algo mudou. Os aeroportos açorianos transformaram-se em algo diferente. Dantes eram soturnos, agora são… apetecia-me dizer uma festa, mas a verdade é que não chega a tanto. Estão borbulhantes, vivos. Com gente que fala alto – e às vezes não é muito bem-educada nem muito polida – mas se percebe estar feliz.

Com a chegada das low-cost aos Açores, aconteceram duas coisas, nos dois fluxos. Gente nova a viajar. Sai das ilhas quem nunca esperou fazê-lo. Gente que, embora viva no meio do mar, raramente andou de avião. Que nunca esperou ter o continente ali de forma tão acessível. E isso nota-se na alegria do embarque ou nas filas para o controlo das bagagens.

E chegou às ilhas um novo tipo de turistas. Gente que ainda vê como um privilégio viajar. Que nunca fez turismo, agora faz porque as viagens se tornaram acessíveis, e que entende isso como uma benesse. Que diria eu, aos 19 anos, deste novo turismo que chega aos Açores sem salamaleques? E que, apesar disso, está disponível para perceber toda a beleza, toda a idiossincrasia destas ilhas de penumbra? Que os aproveita como o paraíso que são? Estaria eu disponível, como estou hoje, para partilhar isso tudo?

Lembrei-me disto a propósito da polémica que corre sobre a questão do turismo a mais em Lisboa – que faz tema da secção «Opostos». Lisboa tem tudo a ganhar em abrir-se a quem vem de fora, em democratizar aquilo que tem para oferecer – e sobretudo, em manter aquilo que a torna diferente, que é, no fundo, aquilo por que os turistas a visitam e o que procuram. Tal como os Açores. Quem entender isto terá ganho a batalha da democratização do turismo. Quem não o levar à prática ficará estragado para sempre.

[Publicado originalmente na edição de 15 de maio de 2016]