OPINIÃO

O véu das meninas do Rio

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Não é um marco nem fez história, ao contrário do que se disse por aí. Mas pode mudar a História. E nem sempre será para melhor.

Lembram-se da imagem das voleibolistas olímpicas egípcias a jogar em Copacabana cobertas dos pés à cabeça, uma de hijab? Os títulos domundo inteiro diziam que se estava a «fazer história». Bastava uma pesquisa com as expressões «hijab», e «fazer história» e percebia-se que, não só não se fez história como também não se fez História.

reuters

Se com «fazer história» se queria dizer mudança, então as duas egípcias não a fizeram. Desde 2004, em Atenas, há atletas muçulmanas a usar véu. A primeira foi a velocista do Bahrein, Ruqaya Al-Ghasra. A tendência acentuou-se em 2012, quando as nações islâmicas foram obrigadas pelo Comité Olímpico a pôr mulheres nas equipas, ou seriam excluídas. Arábia Saudita, Qatar e Brunei escolheram algumas, entraram na guerra pela mudança de regras e o véu foi autorizado em certos desportos. Se com esses títulos se pretendia acentuar História com H grande, no sentido de progresso, então temos muito para conversar. A questão do véu no desporto, sobretudo no olímpico, é um pau com muitos bicos. Para já, é uma concessão que atinge o cerne do espírito olímpico. Pôr os atletas em circunstâncias iguais implica premissas, entre elas as regras de equipamento ou a exclusão de símbolos religiosos, proibidos aos atletas – exceto, claro, os seus corpos aproximando-se dos dos deuses.

O véu é, antes de mais, religioso. Para perceber o tanto que assim é basta ver como se atribuiu a maior presença de muçulmanas à maior presença de véus, quando sempre as houve nos JO. Boulmerka, a fundista argelina, ouro em Barcelona 1992, dizia que usava o véu na mesquita, mas na pista usava os calções. Acabou por ter de fugir do país, perseguida.

As mulheres que agora foram notícia no Rio por usarem véu têm acentuado o lado religioso da coisa. A esgrimista americana Ibtihaj Muhammad disse que queria «quebrar preconceitos e mudar a perceção das mulheres muçulmanas». A voleibolista egípcia Dooa Elgobashy disse que usa véu há dez anos e isso nunca a impediu de fazer o que gosta.

As frases, promocionais, escondem nuances. Ibtihaj «teve» de escolher um desporto em que podia usar roupa «modesta», que a cobrisse. Ao lado de Dooa estava Nada Meawad, que usa o biquíni do vólei de praia mas «teve» de se submeter à escolha da colega (regras do COI) e jogar coberta ao sol tórrido de Copacabana.

Um ato liberticida, como obrigar as mulheres a usar um véu, pode ser usado como uma afirmação de liberdade?A ministra francesa do desporto, Valérie Fourneyron, foi perentória, quando, em 2012, foi permitido à judoca saudita Shaherkani lutar de hijab: «Isto é perigoso porque encoraja os países mais radicais a colocarem- nos no caminho da regressão. O objetivo dos JO é abrir oportunidades às mulheres.»

Poderá o véu abrir os Jogos à participação de mulheres que ficariam de fora? A ideia é polémica. Ali-Ahmed, um estudioso do desporto na zona do Golfo, garante, num artigo da Quartz, que as mulheres veladas nos Jogos pioraram as coisas na Arábia Saudita porque a fez escapar das críticas. «As meninas do Rio – quatro sauditas em jogo – vão esconder o sofrimento de dez milhões de sauditas, e de todas as que no mundo inteiro» têm de submeter-se a estas regras.

Para terminar, usemos uma citação de Um Conto de Duas Cidades, o livro de Charles Dickens que é o favorito da voleibolista egípcia que jogou com a cabeça descoberta: «Foi o melhor dos tempos, o pior dos tempos, a época do conhecimento, a época da tolice, a época da fé, a época da incredulidade, a estação da luz, a estação das trevas.» Estamos assim.

(Fotografia Reuters)

[Publicado originalmente na edição de 14 de agosto de 2016]