O que temos para oferecer aos extraterrestres

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Na noite de 10 de janeiro, na rua das Olarias, em Lisboa, a janela do primeiro andar do número 11 ecoava o Absolute Begginers e a do 3º andar do número 37 bramia Let’s Dance. Mais à frente, já na rua da Bombarda, os meus vizinhos ouviam Modern Love e China Girl, e, quando virei para o largo do Intendente, ouvi o Moonage Daydream. Arrepiei-me. David Bowie tinha morrido na noite anterior, eu passara o dia a escrever sobre ele e ao jantar tinha percorrido a discografia essencial do cantor britânico no YouTube. Devia passar da meia noite e ouvi o meu bairro a prestar um tributo espôntaneo a Bowie. Dei por mim a pensar que as janelas de Seul e de Teerão eram bem capazes de estar a escorrer aquelas mesmas melodias, naquele preciso momento. Que o planeta inteiro pulsava os mesmos acordes e os emanava para lá da atmosfera.

Já tinha tido essa sensação em 2009, quando morreu Michael Jackson. Voltei a tê-la há um par de semanas, quando se finou Prince. Não tanto como com Bowie, é certo, mas isso talvez seja o meu gosto a falar. Pus-me a fazer contas de cabeça, com quantos artistas ainda teremos o planeta a emanar música, em todo o lado e ao mesmo tempo? A Terra inteira só cantará as canções dos que se tornaram maiores do que a própria Terra. E não estou certo se Iggy Pop, Dylan,  Leonard Cohen ou Nick Cave serão capazes de ocupar as janelas do meu bairro quando morrerem. Mick Jagger sim, e talvez Madonna. Se calhar o Springsteen, também. E depois mais nada.

Esta semana, uma equipa de investigadores da universidade belga de Liège anunciou a descoberta de três planetas a 40 anos-luz da Terra que podem muito bem ter condições de habitabilidade. A distância, quando falamos da dimensão da galáxia, não é assim tão grande. Então, se houver mesmo vida extraterrestre num deles, eu espero bem que os tipos tenham bons radares. E que a ligação de som estivesse limpa na noite em que cantámos Heroes, ou Billy Jean, ou Purple Rain. Porque isso – a arte que nos junta a todos – é bem capaz de ser o melhor que temos para oferecer.