OPINIÃO

O português que nos une, o preconceito que nos separa

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A língua que é falada por 244 milhões tem um novo Atlas que acentua a sua importância no mundo, e o desperdício que é o desprezo a que a votamos.

Todos temos inveja daqueles turistas ingleses que chegam a Lisboa e levam como bónus, além do sol, da simpatia e dos pastéis de nata, conversas superinteressantes na sua própria língua. Já todos assistimos a diálogos tidos em inglês, em Portugal, que não envergonhariam nenhum nativo daquela língua. Nesta semana ouvi António Guterres a falar um francês perfeito, sem teleponto, em reunião com o presidente François Hollande, depois de o ter ouvido já muitas e muitas vezes num inglês onde apenas o som duro de algumas consoantes faz denotar que é um estrangeiro que está a falar.

A nossa facilidade para aprender e falar outras línguas faz-nos muitas vezes esquecer todas as potencialidades da nossa. Até essa: tem tantos sons que nos permite entender e falar bem todas as outras. O português é provavelmente a nossa riqueza mais menosprezada, isto depois de termos percebido outras – e em boa parte, valha a verdade, porque nos vieram dizer isso mesmo de fora. Que temos um país fantástico, criativo, empreendedor. Até o desenrascanço já teve piores dias, sendo hoje visto como uma caraterística positiva de quem segue menos regras mas atinge os mesmos fins que outros, mais organizadinhos.

Mas os factos estão aí para demonstrá-lo: com 244 milhões de falantes, o português é a quarta língua mais falada (só ficando atrás do mandarim, do espanhol e do inglês), a quinta mais usada na internet, (depois do inglês, do chinês, do espanhol e do árabe). Nas redes sociais, nomeadamente o Facebook, o português é a terceira língua (atrás do inglês e do espanhol). Na raiz desta importância não está este país minúsculo à beira-mar plantado, mas o que ele fez pelo mundo, ou melhor, os mundos que ele abriu ao mundo.

Em 2012, segundo o Público, a cidade de São Paulo, no Brasil, era onde mais se tweetava, acima de Nova Iorque ou de Los Angeles. E a conversa vai continuar: segundo dados do novíssimo Atlas da Língua Portuguesa, divulgado nesta semana, em 2100 os falantes de português serão 387 milhões e a língua será a mais falada em África, isto tendo em conta a expansão demográfica de Angola e Moçambique. Além de considerações geopolíticas importantes, o que estes números põem à nossa vista é o enorme poder que temos nas mãos – e o desperdiçado que esse poder tem sido.

Não há estatísticas que nos convençam, não há números que nos levem a perceber que, neste mundo de interdependências, onde as conexões são tudo e as relações privilegiadas dominam a economia – e a política –, esta ligação portuguesa nos devia ser fundamental, e, mais do que isso, aproveitada ao máximo. Tantas vezes preferimos perder-nos em considerações teóricas, deixando-nos ensombrar por preconceitos históricos e ressentimentos espúrios. Tanto teríamos a ganhar se, em vez disso, olhássemos pragmaticamente para o que nos une, em vez de para o que nos separa. E isto poderá ser ainda mais importante num mundo mais perigoso como aquele que escolheu Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, em que o que separa será certamente mais valorizado do que o que une.

[Publicado originalmente na edição de 20 de novembro de 2016]