Nas vésperas de uma desgraça, talvez

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Sinto-me como se o domingo desta crónica fosse aquela quinta-feira. A dois dias do começo – sábado, 6 de julho de 1497 – e eu sei que vai acontecer. As naus estão no rio prontas a zarpar, enfunar as velas até à Índia, sei que está para acontecer e o mundo vai mudar. A probabilidade é pouca que o Velho do Restelo convença os marinheiros a não partir e D. Manuel devolva Vasco da Gama a casa… Também agora faltam dois dias. Com um porém: agora não é esperança que sinto, mas temor. Na próxima terça-feira, 8 de novembro, pode acontecer uma desgraça.

Os dicotómicos que se avisem, não é um esquerda versus direita, democratas e republicanos, progressistas e conservadores… Desses já sabemos que estão uns para os outros. Uns melhores, uns anos, do que outros. Os mesmos vícios em ambos e as qualidades também. Não estamos a falar da fraqueza do democrata Carter ou da mediocridade do republicano George W. Bush. Da grandeza de perceber o momento histórico, de Franklin Roosevelt e Ronald Reagan. Do jeitinho para a política politiqueira, o que nem sempre é mau, de Bill Clinton e Richard Nixon. Daquela ambiguidade que leva um texano conservador como Lyndon Johnson a conseguir uma das grandes revoluções sociais do século XX, os direitos cívicos americanos. Em política quase nunca impera o preto e branco, ela é o terreno próprio para o cinzento.

Mas na terça pode acontecer uma desgraça. Daquelas coisas que suspiramos de alívio – oportunistas e mesquinhos – para que só aconteça em Aleppos longínquos. Donald Trump é um infrequentável e pode-nos entrar pelo mundo dentro. Não só um nojo como homem, o que já é mau para uma casa ou um bairro, mas ele é uma desgraça universal, pois é um nojo como político e pode chegar a líder da maior potência. Ele não é para ser medido pelas suas propostas sobre a condução da OTAN ou os acordos comerciais internacionais. Ele é um homem sem compaixão e sem vergonha de o dizer. É isso que é o seu perigo. E o que a estupidez das campanhas eleitorais, nas primárias entre republicanos, primeiro, e nas presidenciais, até agora, não o soube mostrar.

O que ele disse dos negros e dos seus guetos, dos mexicanos e do seu muro, do por onde agarrar as mulheres, da redução das alianças internacionais ao pagar das quotas, do desprezo pelo fraco para quem não se paga impostos porque escapar a eles mostra esperteza… – tudo quanto Trump defende é o orgulho em ser a raposa no galinheiro. Dir-me-ão: mas isso não são todos? Não, não são todos. Na direita, na esquerda, no centro, das velhas políticas e novíssimas experiências, há políticos com erros graves, venais e perigosos. Mas raramente os há a desprezar como Trump. Não o povo – que é uma ideia que pressupõe a noção de uma identidade que Trump não tem –, a ralé. Definição de ralé: o outro, para Trump.

O outro, que é para despedir. Donald Trump fez um programa televisivo para mostrar o seu gozo em dizer o inominável com satisfação: «Estás despedido.» O outro, que é para apalpar. Donald Trump organizou concursos de misses pelo prazer de as ver subjugadas ao seu poder. O outro, que é sempre mero bem consumível da cadeia alimentar de Trump.

E ele di-lo. Não esconde, publicita. Mas não fiquem contentes por ao menos ele ser sincero. Ele, a ganhar, a sua sinceridade vai passar a padrão. O pudor do poder e a falsa humildade são feios mas são tributo à decência que a história construiu para proteger os fracos. A arrogância como norma será a carnificina no galinheiro. O azar a acontecer na terça, o mundo andará uma viagem para trás.

[Publicado originalmente na edição de 06 de novembro de 2016]