OPINIÃO

Não, Ronaldo não é o melhor da Seleção

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O gordo ia sempre à baliza e eu era esse, caixa de óculos ainda por cima, e o mais novo da rua. Nunca tive hipóteses, onde cresci não havia funfuns nem gaitinhas: guarda-redes ou nada. Em abono da verdade, também não era grande espingarda nas alas – e chamar-me uma nulidade ao ataque não é propriamente uma injustiça. Mas, vá, até me safava à defesa, há reais possibilidades de ter desperdiçado o meu potencial de Canavarro na inclemência púbere da escolha de equipas.

E depois houve o verão dos meus 12 anos. Agosto foi passado na quinta dos meus bisavós, manhãs a roubar ovos às galinhas e tardes a subir a serra. Ao fim do dia, mais por tédio do que por vontade, eu e os meus irmãos entretínhamo-nos a trocar remates contra a parede da capoeira, um à baliza, dois ao ataque. Três golos, roda, três golos, roda, e o pé esquerdo a afinar o tiro. Na Malveira, nesses dias estivais de 1988, fiz-me Chalana sem que ninguém tivesse notado.

Setembro levou-me de volta ao bairro – e agora entrava a geração mais nova nos combates da rua. O Toninho substituiu-me no posto e eu subi de categoria, mas fui o último a ser convocado. Era sempre o Herculano que escolhia e o Herculano nunca me escolhia a mim, fiquei na equipa do Paulo. O jogo mal tinha começado quando a bola me veio parar aos pés. Recebi-a antes do meio campo, parei-a e puxei o pé esquerdo. Pum. Saiu-me um daqueles chapéus tão colocados que nem Preud’Homme o conseguiria defender. Marquei um golo à Chalana. Nunca mais fui o último a ser escolhido. Nunca mais fui à baliza.

A única vez que o Benfica ganhou ao Manchester United foi por causa de um golo de Beto, que é bem capaz de ser o trinco mais gozado no clube dos últimos anos. Há dias, o Le Monde trazia uma história fantástica de Bruno Bellone, o jogador com quem os franceses mais zombavam na Seleção. Em 34 internacionalizações, marcou apenas dois golos. Mas um foi contra a Espanha na final do Europeu de 1984 e outro foi o penalti que permitiu ao país passar o Brasil nos quartos de final no México ’86. Um golo estranho, que bateu na trave, nas costas do guarda-redes e só depois entrou. Bellone, muito contestado no seu país – chamavam-lhe Lucky Luke mais pela sorte do que pela velocidade – foi um herói insuspeito.

Acreditem em mim: o melhor jogador da Seleção portuguesa no Europeu que está prestes a começar não vai ser Cristiano Ronaldo. Nem Pepe, nem João Moutinho, nem Quaresma. Também não vou falar dos talentos promissores, como Renato Sanches ou João Mário, por mais bem-vindos que eles sejam. Não, a minha aposta é outra, é o tipo com quem andamos todos a gozar, o jogador que não marca golos, que falha o que ninguém devia falhar. Éder há de ser o herói insuspeito desta Seleção. Há de marcar golos à Chalana. E nunca mais vai ser o último a ser escolhido para os jogos da rua dele.

 


[Esta crónica foi publicada originalmente a 25 de maio, mais de duas semanas antes do arranque do Euro 2016.]