Quanto custaram mesmo as calças que traz vestidas?

Notícias Magazine

Como a moda rápida está a fazer alterar os ciclos da moda – e isso pode mudar a moda como a conhecemos.

Quanto custaram as calças que traz vestidas neste momento? Só isso? Acha mesmo que algum bocado de tecido cortado, cosido, chuleado, empacotado, transportado, publicitado podia custar tão pouco? Imagine quanto tempo foi preciso para coser todas as costuras e bainhas, pregar botões, fazer vivos e folhinhos… Já pensou bem? Há qualquer coisa que não bate certo, não é?

Parabéns, acabou de encontrar mais um dos desconcertos do mundo: a moda barata. E que é tão grave – ou talvez até mais – como as offshores postas a nu pelos agora tão em voga Papéis do Panamá. O que lhe contamos nesta edição é que a moda barata está a pôr em risco o próprio conceito da moda. A Margarida Brito Paes, que é coordenadora de moda do site Delas. pt, explica porque é que os ciclos da moda estão todos, digamos, baralhados.

Comecemos pelos princípios: a moda barata é feita porque há moda cara. As grandes superfícies de moda barata usufruem da criatividade, do trabalho exploratório e, porque não dizê-lo, dos talentos que as grandes casas de moda têm de pagar a peso de ouro para continuarem a ser reconhecidas no mundo exigente da moda, dos críticos, dos editores. A moda é uma arte e é também uma indústria. Enquanto as marcas daquilo que os ingleses chamam high fashion – já para não falar da alta-costura – têm de pagar a arte, as marcas de moda barata dedicam-se apenas à segunda parte da equação.

Trocando por miúdos: as marcas de moda tradicional fazem um desfile numa qualquer semana da moda, colocando toda a criatividade de meses de investigação e arte na passerelle; as marcas de moda barata arranjam uns olheiros que fotografam os modelos. A rapidez da velocidade da informação, os telemóveis cada vez melhores, tudo isso tem ajudado, claro. Depois, os dois processos seguem em paralelo: as marcas caras vão desenvolver os produtos, de acordo com o que melhor foi acolhido, com meses de distância, as marcas baratas vão ordenar às suas fábricas de mão-de-obra também barata que reproduzam em série os modelos copiados. E põem-nos nas lojas na semana seguinte.

Segundo um estudo da Universidade de Cambridge, as mulheres têm hoje mais do que cinco vezes mais roupas do que tinham em 1980. As marcas de roupa acessível colocam nas lojas mais de 18 coleções por ano. Uma coleção de uma marca grande levava tradicionalmente seis meses a entrar nas lojas. Agora os ciclos são de três semanas. E é por isso que à moda barata também se chama rápida. Fast fashion.

Tudo isto levou a uma pressão enorme sobre o mundo da moda. Pressão financeira, prejuízos reais e um grande peso na cadeia de valor. Os designers e as grandes marcas já estão a responder, como conta a Margarida: algumas marcas anunciaram que vão pôr à venda as coleções imediatamente a seguir às semanas de apresentação internacional – o que implica que a produção tem de ser feita antes. Ou seja, o que vai acontecer é que até a moda tradicional vai acelerar. As semanas da moda podem vir a ser antecipadas.

E, mais uma vez, o que pode vir a ser benéfico para o consumidor vai ter um custo social e humano escondido. Um relatório da Oxfam explicava, já em 2004, que «quando os compradores pressionam as fábricas a ter a roupa mais rapidamente pronta, a maior parte das fábricas não têm outra maneira de o fazer do que pondo pressão nos trabalhadores. É a única margem em que podem mexer».

Ou seja, da próxima vez que vestir umas calças que lhe custaram cinco euros, pense onde estará o resto do valor que elas verdadeiramente têm. O problema é que isto é mais fácil de dizer do que de fazer: a moda barata é como as offshores. Todos gostamos de usufruir dela sem pensar que é feita à custa de várias coisas, muito perniciosas: o roubo criativo, a exploração de mão-de-obra barata, o desperdício… As offshores só existem porque alguém delas usufrui, normalmente quem pode, mesmo que saiba que por detrás do que lhe trazem de bom – mais riqueza – está o que têm de mal – retirar impostos aos Estados que através deles sobrevivem, corrigem desigualdades, proporcionam serviços comunitários. São os novos tempos da globalização.

[Publicado originalmente na edição de 17 de abril de 2016]