OPINIÃO

Lições, ou o mundo depois de Trump

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Não é um mundo muito auspicioso o que levou Donald Trump a candidato às eleições americanas.

Há quem culpe a economia, a política, a religião, a globalização, a falta de educação. Eu acho que a comunicação, como hoje a conhecemos, é a responsável pela ascensão de Donald Trump. A comunicação, sim – e dizer social é pleonasmo, hoje em dia. Tirando conversas de pé de orelha, ou almofada, toda a comunicação é social – seja no táxi, por onde correm ideologias e se espalham ideias, no local de trabalho, e não há nada de mais social do que aquilo a que chamamos «rádio alcatifa». Ou, mais do que tudo isto, nas redes sociais, feitas para tornar social o que era pessoal: desabafos, fotografias de pés ou opiniões ideológicas.

Donald Trump nasceu como figura pública, cresceu como figura política à conta da comunicação. Umas vezes pelas boas razões, a maior parte pelas más. E a sua campanha também só foi possível porque, digamos, algo vai mal no reino da comunicação. Vamos por partes. Trump foi levado ao colo pelos media quando era o epítome do sucesso louco dos anos 1980. Grandes torres em Manhattan, casinos, iates, mulheres vistosas. Deixou-se entusiasmar e começou a ter também intervenção política – nomeadamente num caso de uma violação coletiva, em Nova Iorque, cujos suspeitos, cinco miúdos negros que ele condenara com veemência na televisão, pedindo para eles pena capital, acabaram por ser ilibados.

Os anos 1990 foram dramáticos para as empresas de Trump, com falência em dominó dos negócios, nomeadamente os casinos. Ele próprio safou-se, em parte, por causa da imagem que tinha. Mais tarde, foram os meios de comunicação que o reabilitaram com uma lavagem de imagem nas 14 temporadas do reality show The Apprentice, na NBC.

Deste programa Trump saiu como símbolo do sucesso, duro homem de negócios, um Chicago boy, na ideologia, mas de carne e osso em linguagem do povo. E ganhou a impunidade que só as câmaras dão. Podia dizer o que quisesse, até que queria ser presidente dos EUA. Lembram-se da frase de Emídio Rangel, no início da SIC, de que uma TV pode vender tudo, sabonetes ou presidentes? Em Portugal tivemos a face boa da ideia, com o imparável Marcelo Rebelo de Sousa. Nos EUA a face mais negra, com Trump, produto acabado da chungaria dos reality shows – que trazem ao de cima o pior da humanidade.

Essa impunidade é a que está hoje espalhada nas redes sociais que fizeram espalhar ideias feitas, falsidades com a mesma importância que verdades, e – numa cultura de «não me venham cá com os vossos factos que eu tenho os meus argumentos» – polarizaram opiniões. Tudo isto colheu na já dividida América – não só apenas entre raças mas, também, e cada vez mais entre classes socioculturais, valores de referência e, cada vez mais, níveis de educação. Trump falou para o votante branco inculto zangado, Hillary para os de raças diversas, cultos, educados, urbanos, liberais. E assim ficaram até ao fim da campanha, e assim se ganharam as eleições desta semana. O que sai daqui é um mundo todo estropiado pela comunicação, sem campo de entendimento, onde as audiências valem mais do que a verdade ou a informação. Não é um mundo muito auspicioso.

[Publicado originalmente na edição de 13 de novembro de 2016]

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