Gosto muito da tua família. Mas não tenho paciência para o teu pai nem para a tua mãe

[…]

– Estás atrasado. Despacha-te. Ainda vais tomar banho?
– Tomar banho? Para quê?
– Para o jantar. Vamos jantar a casa dos meus pais, lembras-te?
– Mas eu tinha-te dito que não podia hoje. Que ia jantar com o Tiago. Ele está cá, vamos jantar hoje. Até te perguntei se querias vir.
– Sim! Eu lembro-me. E o que é que eu te disse? Que não podia ser porque hoje era dia de irmos jantar aos meus pais.
– Sim, também me lembro. E eu disse-te que não podia ir, porque o Tiago só está cá uma semana e eu queria aproveitar para estar com ele. E que desta vez eu não ia aos teus pais, porque já tinha um jantar combinado.
– Não. O jantar não estava combinado. O que estava combinado era jantarmos em casa dos meus pais. O teu amigo Tiago veio depois.
– Primeiro, o meu amigo Tiago também é teu amigo. Segundo, o meu amigo Tiago vive no estrangeiro, vem uma semana a Portugal quando o rei faz anos, arranja tempo para estar comigo e tu queres que eu não aproveite porque temos um jantar em casa dos teus pais. Que estão cá o tempo todo. Aliás, se não estão em casa deles estão na nossa. Sempre. E com quem jantamos todas as semanas. Religiosamente.
– Que é isso de os meus pais estarem sempre na nossa casa?
– Desculpa, não é sempre. Uma vez por semana não estão: quando jantamos na tua irmã.
– Mas tu estás a embirrar com a minha família?
– Não. Estou só a dizer que não vou jantar com eles. E a lembrar-te que te avisei disso, mas tu resolveste ignorar, porque achaste que o jantar semanal em casa dos teus pais se sobrepõe a qualquer coisa.
– Para a minha mãe sobrepõe. Sabes como ela gosta desses jantares. E até costuma fazer a tua sobremesa preferida, só para te agradar.
– Não é a minha sobremesa preferida. E estou farto daquilo. Já não posso com palitos la reine com doce de café. Já não consigo comer.
– Porque é que não dizes nada?
– Já tentei, mas tu não ligas. E a tua mãe também não. Da última vez até cuspi para um guardanapo.
– Tu cuspiste a sobremesa da minha mãe?!
– Sim. Cuspi. E agora não quero ir jantar a casa deles. Achas que te vão deserdar? Ou vão querer que tu te divorcies? Ou queres divorciar-te tu porque não vou jantar aos teus pais?
– Vamos chatear-nos por causa do Tiago?
– O Tiago é meu amigo, gosto muito dele, vamos jantar, se quiseres vir, és bem-vinda. Pelo menos sabes que não vamos passar o tempo a falar de cortinados. Como a tua mãe com a tua irmã.
– Pegas no telefone e vais dizer tu que não vais jantar.
– Não. Não vou. Até porque se calhar atende o teu pai e começa a falar dos e-mails de pornografia que me enviou ou do resultado da bola. E eu não gosto de falar de futebol. E gosto de falar de mulheres, mas não com o teu pai. Só que ele ainda não percebeu.
– O meu pai não fala de mulheres. Muito menos contigo.
– Fala. Quando vocês falam de cortinados, o teu pai fala de mulheres. E do que gostava de lhes fazer. E eu não sei onde me enfiar quando ele começa com essa conversa.
– É disso que vocês falam quando estão a fumar charutos?
– Eu detesto charutos. É o teu pai que os fuma.
– Mas ele oferece-te imensos.
– E eu dou-os ao Tiago. Ele gosta.
– Tu dás os charutos que o meu pai te oferece a outra pessoa?
– Dou. Estão ali, naquele saco, para não me esquecer. Ele já me mandou uma mensagem a lembrar e tudo.

[Publicado originalmente na edição de 06 de novembro de 2016]