Gente do meu coração

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O gesto que se repete lembra-me que sou nómada. Fazer e desfazer malas repetida e rotineiramente, no poiso seguro ao qual teimo em chamar casa, lembra-me de que nunca me devo esquecer que a minha casa, na verdade, é a estrada. Sou nómada, ando com a casa às costas, que é como quem diz, trago o mais importante comigo: o amor por aquilo que faço e uma vontade gigante de abraçar todos os caminhos que a vida me mostre poder seguir.

Claro, deixo para trás coisas valiosas. Nada de importante se faz sem se ter de sacrificar outras coisas igualmente importantes. Para trás deixo família, amigos e o privilégio de acompanhar a sua vida. Torço para que me possam perdoar por falhar os seus aniversários, casamentos, baptizados, jantares de sábado à noite, passeios de domingo, ou qualquer constante de uma vida com raízes bem fundadas.

Não é que a minha vida não tenha raízes, mas é que as minhas raízes viajam comigo, na mala que faço e desfaço outra e outra vez. Trago-as na minha voz e mostro-as aos que me ouvem. Nas notas que saem de mim estão todos os que passaram pela minha vida, os bons, os maus, os assim-assim. A minha vida é a minha casa-nómada, a tenda que estendo sempre que chego a mais um poiso da digressão permanente em que escolhi embarcar há muito, muito tempo.

Sou como aquele que vai colhendo os frutos das árvores quando estão já maduros, um a seguir ao outro, uma a seguir à outra, pelo caminho de terra e de cesta no braço.

É preciso cuidado, para que os frutos possam crescer e amadurecer. Nenhuma cesta pode guardar frutos de uma vida estéril. Como equilibrar esse caminhar constante com a necessidade que uma árvore tem de ser regada, para que dê frutos? Inquieta-me não ter uma resposta completamente satisfatória.

Vou andando, passo seguro, sempre, que o meu destino é este e sem ele é que o cesto ficaria estéril e a mão que rega secaria. Mas sei que as minhas árvores, as minhas constantes na vida que vão ficando enquanto eu vou indo, gostariam que fosse uma agricultora mais presente.

Só que o que me move é a semente que quero deixar na terra e a água com que a planto são as lágrimas que choro de alegria e de tristeza pela vida fora. Dobro-vos bem dobradinhos na minha mala, de cada vez que a vou buscar ao armário para partir mais uma vez. Vão sempre comigo. Nunca me esqueço de vós. E se vos canto é porque a vossa música, as notas que cá deixam, há muitos outros que as querem ouvir.

O mérito é vosso, ó gente do meu coração.

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(Fotografia por Ana Bacalhau)

[Publicado originalmente na edição de 29 de maio de 2016]