Era como naquela canção do Rui Veloso. Mas sem bodas de prata, sorte a minha

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Não sei a que horas vais ler isto. Ainda hoje ou só amanhã de manhã, antes da meia-noite ou a bater nas sete. Era a essa hora que chegavas tantas vezes, eu a acordar os miúdos e tu a entrar porta dentro, de mansinho, direto à casa de banho para um duche rápido e mudar de roupa à pressa antes de correres para o escritório. Eu sei, os prazos, os clientes, os projetos, tanta coisa para resolver e tu a teres de aguentar as pontas, não há mais ninguém e se não fosses tu aquilo não ia para a frente. Poupa-me. Já me contaste isso tudo. Não me falaste foi das noites fora em hotéis ao pé da empresa. Nem das faturas de restaurantes às duas da manhã. És muito inteligente em pagar as coisas da tua conta e não da nossa. Era o que mais faltava. Esqueceste-te é que eu sou segunda titular e tenho acesso a tudo.

Quando leres isto eu já não vou estar cá. Lembras-te daquela série de que gostavas, o Dear John? A do grupo de autoajuda para divorciados, onde entrava aquele, o Kirk, a que tu achavas graça? Mal eu sabia que ia casar com um igualzinho. É como essa canção, a do genérico: «By the time you read these lines, I’ll be gone.» Não andes feito barata tonta a correr divisões para confirmar o que estás a ler. Fui mesmo. Não limpei os armários nem levo as pratas da tua família. Se vires bem, ainda tenho aí uma série de coisas. Depois venho buscar. E preciso da roupa dos miúdos, de livros deles e de jogos. Não se arrumam 14 anos em três ou quatro malas, mais as que o meu irmão levou quando lhe pedi para me ir ajudar.

Vá, não faças essa cara de espanto. Sabias que ia acontecer, não sabias? Sabias que eu não ia aguentar sempre. Já te tinha dito que um dia me saltava a tampa. Diz-me que sabias. Diz-me que sabias, bem lá no fundo, que não eram favas contadas. Que eu não era assim tão parva, tão atada, tão cega e tão dependente de ti para aguentar estes anos todos de flirts, engates, conquistas, enrolanços, cambalhotas e facadinhas. Diz-me que tinhas medo que eu descobrisse. E que pensavas, lá no fundo, que um dia ias mudar. E que ias tornar-te um homem sério. E que me ias dar, finalmente, a atenção, o mimo e o cuidado a que eu tinha direito.

Fui-me embora e estou a ter um nível tremendo no meio disto. Não sei como consigo. Nem sempre foi assim, claro. Houve dias em que tinha vontade de te chamar nomes. De te ofender. De te humilhar como gente grande. Ir para a porta da tua empresa, esperar que saísses e fazer uma peixeirada à antiga, chamar-te ordinário, sacana, mentiroso, aldrabão. Queria ter coragem para te riscar o carro, para te limpar o dinheiro da conta, para escrever ao teu patrão a dizer o reles que tu és. Queria conseguir encher a boca de palavras gordas para te chamar tudo. Meu cabrão, meu filho de uma grandecíssima puta, fora a tua mãe, que não tem culpa nenhuma nem sabe o filho que pariu, Deus a tenha. Ou o teu pai, que se matou a trabalhar para tu teres uma educação em condições. E depois deu nisso: um falinhas-mansas que engata miúdas.

Queria fazer tudo isso. Mas só consigo ter coragem para me ir embora. Chamas-me pirosa e antiquada por gostar do Rui Veloso e das mais antigas e agora só me vem à cabeça aquela da mulher que saiu decidida para a rua. Assim como assim, não conseguiste secar-me tanto a ponto de chegar às «bodas de prata comemoradas em solidão». Vou-me embora. Danada contigo pelo que me fizeste. E comigo pelo que eu deixei que me fizesses.

[Publicado originalmente na edição de 20 de novembro de 2016]