OPINIÃO

Carta de condução

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A maldade é um contexto. Pelo menos foi isso que Zimbardo tentou demonstrar num livro sobre como as pessoas boas e incorruptas se tornam torcionários e vilões. Chamou a esse fenómeno, que apesar de tudo é singelo e observável quotidianamente, efeito Lúcifer. Qualquer um de nós pode ser, conforme as circunstâncias, um sátrapa, o mais hediondo torturador, carteirista e até presidente do conselho de administração do Goldman Sachs. Claro que isso nos parece impossível de acontecer, nunca faríamos certas coisas, e quando nos olhamos ao espelho vemos uma pessoa eticamente inquebrantável, sólida nos seus princípios, incorruptível e impoluta. Essa mesma pessoa sai de casa, entra no carro, fecha a porta, põe o cinto de segurança e, de repente, fruto de uma qualquer prestidigitação malévola, as tais circunstâncias mudam, o honesto e pacífico cidadão – tal como se refletia no espelho – está agora metamorfoseado, sem que disso se aperceba, num pequeno selvagem que despoticamente governa o seu minúsculo universo usando os pedais, o volante, o dedo médio e o português vernáculo. É o efeito Lúcifer.

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Zimbardo diz-nos que as sociedades cujos membros usam máscaras são vulgarmente mais cruéis e violentas. Os automóveis parecem funcionar como uma máscara. Dentro deles insultamos de uma forma tão fácil e eloquente que parece que o treinamos constantemente. A verdade é que ninguém caminha na Baixa Pombalina da mesma maneira que conduz na Baixa Pombalina. Se alguém esbarrar connosco, pede desculpa, nós sorrimos, de nada, seguimos em frente. Dentro do carro, teríamos insultado as respetivas mães, tias e animais de estimação. O que muda? Uma barreira de lata ou fibra ou vidro, uma máscara ou a ilusão de uma máscara que nos parece oferecer os dons da imunidade e da invulnerabilidade em conjunto com uma liberdade que, ao contrário do que seria de esperar, não nos faz boas pessoas, mas arruaceiros que tiram macacos do nariz como se ninguém pudesse ver o que se passa dentro do automóvel. Se uma ação tão simples, quotidiana e rotineira como é o caso da condução pode provocar estragos éticos tão visíveis, imaginemos o que aconteceria noutras circunstâncias e contextos mais complexos, mais duros e adversos, como a guerra, o exílio, a fome. Cada vez que algumas pessoas fecham a porta do carro, imaginamos a metamorfose possível face a outras pressões e adversidades, o que aconteceria nesse caso, e então, enquanto olhamos para esses condutores transformados em lobisomens, a buzinar e a gritar, perdemos, ainda mais, a esperança na humanidade.

(Ilustração de Afonso Cruz)

[Publicado originalmente na edição de 06 de novembro de 2016]

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