OPINIÃO

As guerras e depois

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Ich bin ein Berliner, disse John Kennedy em 1963, passavam 18 anos do fim dos bombardeamentos americanos sobre aquela cidade. De Sousa, mais conhecido como Marcelo, foi saudado em grande euforia em Maputo há poucas semanas, 42 anos depois da independência de Moçambique e de quase dez anos de guerrilha. Há alguns dias, Obama foi acolhido em Hanói como uma rock star, no país sistematicamente devastado por napalm americano até ao acordo de paz em 1973. São momentos que tocam em cordas sensíveis e bem antigas, pela possibilidade de mudança que revelam. As feridas de guerra podem ser ultrapassadas pelas gerações seguintes, porque não há outra maneira de viver a paz se não compreendendo e gerindo dentro de nós as mágoas e as destruições. Sem esquecer, porque o esquecimento não resolve nada.

Emoções à parte, é de política pura e dura que se trata, de estratégias a olhar para equilíbrios regionais e mundiais e para futuros enquadramentos económicos. Essa é toda a história que não podemos ignorar quando vemos o avião de Obama a sobrevoar Havana com 44 anos de embargo dentro da mala. Compreender, palavra-chave. Mas ver o vídeo filmado numa tasca de Hanói com Anthony Bourdain e Obama em amena cavaqueira perante taças de noodles, e depois o calor dos que esperaram na rua a saída do presidente americano, aí está, não há como evitar o prazer de observar isto, mesmo que nos venham logo à cabeça comentários do género «bom marketing», «bom trabalho de imagem», tudo tão certo.

A Guerra do Vietname teve um efeito enorme nas gerações dos anos 1960 e 1970, e para muita gente foi um elemento formador de opinião e de convicções. Para mim foi, tenho a certeza. As poucas informações que chegavam a Portugal, em paralelo com a (des)informação que era divulgada cá sobre a nossa própria guerra colonial, empurraram-me para fazer perguntas, querer saber, pôr em causa. Poderia aqui desfiar nomes, livros, fotografias, referências que moldaram a minha visão do mundo, com destaque para o livro de Bertrand Russell Crimes de Guerra no Vietname, proibido por cá e com circulação clandestina.

E a propósito vem-me à memória uma história daquelas só possíveis nos tempos da revolução portuguesa. Tinha lido um livro de reportagens do australiano Wilfred Burchett precisamente sobre a guerra do Vietname, e um dia pediram-me que o acompanhasse, como tradutora, quando veio fazer uma reportagem sobre Portugal em 1975. Ele tinha nessa altura 64 anos, recheados de todas as guerras que cobriu. Tinha sido correspondente durante a Segunda Guerra em Paris, foi o primeiro jornalista a entrar em Hiroxima depois da bomba, esteve nos países do Leste Europeu, na Coreia, no Vietname, no Camboja, na China de Mao. Era considerado um herói no Vietname por ter mostrado o outro lado da guerra que não aparecia nos jornais. Foi recorrentemente acusado de espionagem para o KGB.

E foi ele que me telefonou na manhã de 26 de Novembro de 1975 a dizer que os Comandos tinham entrado no quartel da Polícia Militar. Dias antes, tinha andado com ele pelo Alentejo da reforma agrária. De repente, ele pediu para parar o carro porque queria falar com apanhadeiras de azeitona que trabalhavam no meio dos campos. Fez perguntas e mais perguntas, e depois elas quiseram saber quem era ele, de onde era, o que fazia. E disseram uma frase que o deixou perplexo: «Então diga-lhe que nós desejamos que haja uma reforma agrária lá na Austrália também.» Como quem diz, tu também és berlinense como nós.

[Publicado originalmente na edição de 29 de maio de 2016]