OPINIÃO

A tentação de matar Soares

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O primeiro trabalho que me deram para fazer quando entrei no jornalismo foi um obituário de Mário Soares. Foi há praticamente 20 anos, numa revista que acabava de ser fundada e que hoje já não existe. Eu era estagiário e os estagiários preparavam os obituários das figuras públicas que podiam finar-se a qualquer momento. Além de Soares, escrevi também sobre a vida de Nelson Mandela, Manoel de Oliveira, Álvaro Cunhal e Ronald Reagan mais de uma década antes de qualquer um deles perecer. Tinha uma pasta no computador chamada “Abutre”, porque era assim que me sentia sempre que terminava um destes textos.

O jornalismo tem de funcionar muitas vezes na antecipação. A imprensa traz o relato do que aconteceu ontem ou há umas horas, mas também se vê obrigada a pensar no que vai acontecer amanhã ou no mês que vem. Para mostrar a realidade mais completa é preciso ter tempo para pensar em melhores abordagens. Um exemplo: não há redação neste país, nem no mundo ocidental, onde os jornalistas não exasperem em novembro à procura de temas para as edições de Natal. Ou que não tenha preparado um obituário de Clint Eastwood ou de Isabel II. São acontecimentos expectáveis e por isso planeáveis. Ou seja, quando pensam a montante, os jornalistas têm melhores oportunidades de tornar interessantes os acontecimentos que são significativos.

Por mais escabroso que possa parecer, não há mal nenhum em ter um obituário de Mário Soares preparado duas décadas antes para o dia em que ele morrer. Mais que não seja por isto: esperar por uma morte permite firmar ideias sobre alguém ainda em vida. Permite a justiça refletida da análise. E perceber que Soares foi simultaneamente o pai da democracia portuguesa e o traidor de Zenha e Alegre, o visionário da europeízação do país e as vistas curtas da descolonização. O que torna as grandes figuras humanas é a sua ambiguidade. Soares tinha tudo, Soares foi enorme e Soares deu-nos tempo para pensarmos nele. Não precisou de morrer para sabermos quão grande era.

Se consigo encontrar alguma utilidade naquela pasta a que chamei “Abutre”, com os obituários de pessoas vivas, custa-me mais ver a relevância desta corrida jornalística ao hospital, à espera da morte de um homem. O melhor obituário de Mário Soares está escrito e já foi publicado. É um livro de Filipe Santos Costa chamado A Última Campanha, em que o jornalista do Expresso parte da humilhante terceira corrida presidencial de Soares para explicar toda a ambiguidade da mais icónica figura política do Portugal democrático. Então não é preciso entrar em direto sempre que o estado de saúde do antigo presidente se agrava. Pressa para quê? Podemos bem lembrar-nos que o seu obituário está preparado há décadas, que a sua importância e dualidade estão escrutinadas. Não é preciso matar Soares. Vivo ou não, já é.

Ricardo J. Rodrigues