O meu pé de cerejeira

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Querido Júlio,

Segundo dizes: estar velho é mais preocupante do que sê-lo. Oh, se é! Traduz a «agonia do sonho» ou o temor em querer ir mais além. Enquanto lia as tuas palavras «registadas em ata», dei por mim a observar o ramo de cerejeira que colhi em jardim alheio e que coloquei na jarra de água transparente. Apenas duas ou três flores de cerejeira brotavam envergonhadas da rama escura e torneada de forma atrevida pelo vento. Pouco a pouco, ao longo dos dias preguiçosos e húmidos de abril, a força da primavera fez o seu milagre, e mesmo longe da terra o «meu» ramo despido floriu e encheu- se de esplendor, como num sonho. Essas flores de cheiro contido espreguiçaram-se durante dias e explodiram a cada manhã de azul, acabando por tombar como flocos de neve, deixando as suas vestes espalhadas pelo caminho. Pouco a pouco o meu ramo florido encheu-se de folhas verdes vitoriosas que as supriram, e que no decorrer dos dias se foram encarniçando como só as cerejeiras o sabem fazer. Não sei quantos dias faltam até todo o ramo se cobrir de folhas vermelhas. Sonhei que seriam dois, e que dia 27 o «meu ramo» de cerejeira me festejaria com o tom escarlate, que só o outono ousa comprometer-se. Esperarei confiante e dir-te-ei mais tarde se sonhei bem.

Reparei quase por acaso que a raiz do meu ramo está envolta numa espécie de orla branca, como se fosse uma nuvem que se apropria do sol. E estremeço pela não realização do meu sonho – se tivesse aqui a minha amiga, bióloga de corpo e alma, perguntar-lhe-ia do que se trata e certamente o saberia. Devo esvaziar a jarra para que o meu ramo não apodreça ou deixo a natureza encontrar o seu caminho? Qual será a melhor solução? Será que são males de água estagnada, bolor? Quando mudei pela última vez a água do «meu» ramo: a semana passada?, o mês passado?, não me recordo… Tenho andado distraída com trabalho. O tempo vai passando sem reparar. A observação diminui e faz com que nos esqueçamos do essencial. No entanto, a potência das folhas verdes encarniçadas deixa-me confusa. Será que o esplendor coabita com a podridão? Ocorre-me pensar que é possível viver com esplendor e, ao mesmo tempo, manter pequenos podres que vão crescendo como ervas daninhas.

Júlio, não sonhar é um fim certo, pois corre-se o risco de ser-se comido pela podridão, pelo desespero, pela amargura. As palavras sábias de Gedeão, que escutei há pouco, dizem-nos «que o sonho comanda a vida, e sempre que um homem sonha o mundo pula e avança». Direi que no amor, o sonho ao comandar a vida, também faz com que a relação pule e avance e não se transforme em jarros de águas estagnados, onde a decomposição espreita e só mesmo o acaso as desperta. Já ouvi demasiados casais que na perda do outro se apercebem daquilo que não aproveitaram em vida, daquilo que deixaram por fazer, das mágoas que os fizeram abolorecer e do envelhecimento interior e precoce que os impediu de construir um sonho.

Dito isto, vou mudar a água ao meu ramo, não quero que o bolor se apodere do meu «pé de cerejeira», pois gosto muito dele e também gosto muito de sonhar.

[Publicado originalmente na edição de 1 de maio de 2016]