OPINIÃO

Viver da terra

Aurora Santos sonha fazer da produção de marmelo, no Alentejo, o seu projeto de vida.

Andar descalça, regar a horta, apanhar azeitonas e ajudar na vindima dos pais fizeram de Aurora Santos uma mulher com gosto pela terra. Com o projeto de produção de marmelo, no Alentejo, ambiciona garantir o sustento integral da família.

Tem 43 anos, nasceu em Borba e foi viver para Beja há vinte para tirar um curso universitário. Filha de trabalhadores rurais, neta de produtores de grandes cereais e com explorações pecuárias, Aurora Santos teve uma infância muito «saudável». Os pais ainda hoje praticam «uma agricultura familiar» e tiveram uma influência determinante no gosto que a filha foi cultivando pela área. Os seus três irmãos seguiram outros rumos e todos eles se dedicam a setores diferenciados, desde a educação, o comércio e a indústria eletrotécnica. Tem uma licenciatura em Engenharia Agroalimentar e apesar de a vida lhe ter reservado outros desafios nunca deixou de lado a enorme vontade «de mexer na terra». Aurora Santos e os irmãos passavam muito tempo a apanhar azeitonas e a ajudar nas vindimas uma vez que os pais tinham olivais e vinhas de pequenas dimensões que constituíam o sustento da família. «Nos intervalos da escola ou durante as férias ia trabalhar por conta de outrem para ganhar algum conforto financeiro de forma a dar seguimento aos meus projetos pessoais», explica. Costuma partilhar com os filhos as histórias de uma infância feliz onde as memórias surgem acompanhadas de cheiros e sensações. «Lembro-me de andar descalça e de regar a horta com o meu pai», diz.

Trabalha como técnica de informática no Instituto Politécnico de Beja (IPB) e em simultâneo desenvolve um projeto de produção de marmelo num terreno de 4,25 hectares localizado na aldeia de Nossa Senhora das Neves, a quatro quilómetros de Beja. Apesar de ter demorado algum tempo «a convencer o marido a adquirir um terreno para cultivar, o casal avançou em 2013». Dado este passo, Aurora Santos investigou, fez uma pesquisa de mercado, frequentou congressos, e a solução, afinal, estava perto. «Temos um Centro Hortofrutícola no IPB com uns marmeleiros que têm tido bons resultados. Após ter investigado descobri que não existia nenhum pomar de produção de marmelo com as dimensões do meu e achei que seria uma boa aposta, até porque o marmelo pode ser aproveitado para posteriores transformações ao nível da indústria», explica. Em simultâneo, encontrou informações na internet sobre a Academia do Centro de Frutologia Compal (CFC) e a abertura de candidaturas para integrar a Academia 2013/2014. Candidatou-se sem grandes expectativas mas avançou. «Quando recebi o número da candidatura comentei com o meu marido que nem sequer seria chamada para participar, pois deveriam ser muitos candidatos, pelo que fiquei muito surpreendida quando me contactaram», afirma. Seguiu-se uma experiência formativa composta por aulas teóricas e sessões práticas que incluíram a visita a explorações agrícolas modelo em vários locais do país durante cerca de dois meses. No final, cada um dos participantes teve de apresentar um projeto a um júri que escolheu, entre todos, os três melhores, atribuindo uma bolsa no valor de vinte mil euros a ser investidos na totalidade da exploração de cada um dos premiados.

Aurora Santos recebeu a notícia de que seria uma das vencedoras da bolsa na mesma semana em que foi mãe pela terceira vez. Dois momentos importantes que acabaram por dar um novo rumo à sua vida. «Com a ajuda da bolsa, consegui começar a plantar em fevereiro deste ano e neste momento já tenho cerca de dois hectares plantados». No decorrer do verão, irá dar início à preparação da área do terreno que ainda não está plantada. «A gradagem, ripagem e mobilizações têm de ser feitas nesta época do ano. No próximo inverno, prevemos a plantação propriamente dita», afirma. Aurora Santos espera vir a colher os primeiros frutos para provar e para realizar os primeiros testes daqui a cerca de dois anos. «Ao final de três, já conseguirei ter produto para vender mas só daqui a cinco é que já terei alguma escala de produção. Há que ter muita paciência e insistir no processo. O retorno é muito demorado porque estamos constantemente dependentes das condições climatéricas.» Um desafio acrescido que este ano já trouxe alguns custos acrescidos e dificuldades no processo devido ao facto de o inverno ter sido mais seco do que o esperado. O objetivo do seu projeto passa por chegar às 90 toneladas em 2018.

Todos os dias, ao final da tarde e depois de ir buscar os dois filhos à escola – Jorge Miguel de 11 meses e Georgina Serafim de 9 anos – a visita ao pomar é obrigatória. «A minha filha corre pelo terreno, fala e brinca com as árvores, atribui-lhes nomes e faz construções com pedaços de madeira que apanha do chão.» Por sua vez, o filho mais velho, António Brito, de 16 anos, já demonstrou vontade de tirar um curso universitário ligado à agronomia e de vir a trabalhar no projeto familiar.

Neste momento, todos colaboram. Há sempre o que fazer e todos os tempos livres são aproveitados para trabalhar no terreno. «Passamos muitos fins de semana no pomar. Quando o meu marido não tem trabalho na sua área (Jorge Serafim é humorista e contador de histórias) ajuda a cuidar do terreno». Para já, consegue conciliar o papel de mãe, mulher, profissional e empreendedora mas o desejo é que a família continue este projeto no futuro. Mais do que uma ambição, é um sonho. «Trato do pomar como cuido dos meus filhos e espero produzir fruta de qualidade.» Ainda que falte algum tempo para que a fase da comercialização se inicie, ideias não faltam a Aurora Santos que planeia desenvolver estratégias e estabelecer parcerias locais com empresas que venham a interessar-se pelo fruto e que até possam transformá-lo. «Existem imensas potencialidades. O apoio familiar é muito importante, uma família empenhada ajuda- nos a nunca desistir», deixa como mensagem a outras pessoas que tenham uma ideia empreendedora mas algum receio de concretização. «Tenho o objetivo de criar a minha própria marca e ambiciono vir a ter consumidores que gostem da minha fruta. Gostava muito de poder viver da terra.» Para já, ainda não é possível mas força de vontade e criatividade não faltam a esta mulher que enche de orgulho os seus pais ao verem que o seu investimento acaba por ser uma continuidade daquilo que construíram ao longo dos anos naquele que é um grande projeto de vida.

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APOIO AOS EMPREENDEDORES AGRÍCOLAS
A Academia do Centro de Frutologia Compal (CFC) completa agora três anos de atividade de dedicação à inovação na fruticultura nacional. Apósum período de candidaturas, são identificados os empreendedores que pretendam instalar-se pela primeira vez, aumentar ou reconverter a sua exploração frutícola, sendo escolhidos 12 participantes. Depois de um período formativo, os participantes submetem um projeto à avaliação de um júri composto por especialistas do setor recebendo os três melhores uma bolsa no valor de 20 mil euros. «Esta iniciativa é uma oportunidade para os empreendedores agrícolas se aproximarem das diversas realidades do setor em que atuam, dando-lhes uma perspetiva mais abrangente e integrada, aprofundando os seus conhecimentos sobre fruta e fruticultura, reforçando as suas competências de negócio e também a sua rede de relações», afirma José Jordão, presidente do CFC.

Cláudia Pinto
Fotografia de Leonardo Negrão/Global Imagens