OPINIÃO

Vilhena, o provocador

João Francisco Vilhena não aceita que o amor possa matar. E então fotografa.

Oito anos passou o fotógrafo João Francisco Vilhena a recolher histórias de mulheres que morreram às mãos dos companheiros. A exposição que acabou de inaugurar na Galeria das Salgadeiras, em Lisboa, chama-se O Amor Mata. Imagens que, mais do que gritar a infâmia, induzem o incómodo das mortes intoleráveis.

Maria foi esfaqueada vinte vezes, Margarida morta a tiro, Fátima levou com uma barra de ferro que lhe abriu completamente o crânio. Ana foi esmurrada até não lhe sobrar um sopro de vida, Alice foi regada com gasolina e atearam-lhe fogo, Teresa suicidou-se depois de anos de abuso verbal. Leonor foi encontrada pela filha com o rosto desfeito em sangue, depois de o marido lhe ter desferido inúmeros golpes com um martelo. Ao longo de três meses, o marido de Rosa envenenou-lhe a comida. Em pequenas doses, até os órgãos falharem. São estas histórias que dão o mote a O Amor Mata, a exposição de fotografia de João Francisco Vilhena que ocupa as paredes da Galeria das Salgadeiras, no Bairro Alto, em Lisboa, até 14 de novembro.

Não são imagens documentais destes homicídios, retratos diretos e imediatos. Antes são dípticos que mostram as armas do crime, que mostram uma cruz de cemitério, que provocam o assombro, mais do que figurá-lo. «Demorei muito tempo a pensar como havia de ilustrar estas histórias», diz Vilhena, que tem 50 anos, uma carreira construída nos jornais (foi editor do extinto O Independente e do Sol) e, depois disso, muitos trabalhos que entram pela porta de uma linguagem mais metafórica – artística, se quisermos. «Mas achei que não interessava aqui a narrativa direta e imediatista da imprensa. Quis induzir, mais do que dizer.»

Foi há oito anos que João Francisco Vilhena começou a recolher notícias de violência doméstica que terminavam em morte. «Fiquei absolutamente perplexo quando li que um homem tinha matado a mulher por tédio. Estava farto dela. Então comecei a colecionar recortes, angariar património sobre uma das maiores chagas da sociedade portuguesa, que é a violência de género.» Também leu estudos, teses de mestrado e doutoramento, para ter uma visão mais académica do assunto. «E quanto mais aprendia sobre o tema, mais percebia que tinha de fazer alguma coisa sobre isto.»

Começou por percorrer vários cemitérios, fotografar as cruzes das campas, na luz e na pedra conseguia encontrar a dor das mulheres assassinadas. Depois concentrou-se nos objetos que tinham provocado a morte, colou-os às cruzes, nesses dípticos estavam as sensações que ele queria provocar. «Hei de continuar este trabalho, tenho mais histórias reunidas e quero fotografar os rostos de quem perdeu estas pessoas – os pais, os filhos, os que sofrem com a sua ausência.»

O Amor Mata está em exposição na Galeria das Salgadeiras e foi inaugurado nesta semana no âmbito do Bairro das Artes, que marca a rentrée cultural das galerias de arte da sétima colina, com várias inaugurações simultâneas no eixo Príncipe Real/Bairro Alto/São Bento. Este trabalho de João Francisco Vilhena está em exposição até 14 de novembro e marca uma página nova da obra do fotógrafo. Os seus últimos trabalhos exploravam as relações da imagem com a literatura, com a coordenação fotográfica da revista Tabacaria, da Casa Fernando Pessoa, e a edição do livro Lanzarote – A Janela de Saramago, uma imersão profunda na vida do nobel português.

Ricardo J. Rodrigues
Fotografia: Paulo Alexandrino/Global Imagens