OPINIÃO

Viagem ao interior das malas das mulheres

Diz-me quais usas, dir-te-ei quem és.

Os homens temem-nas tanto quanto as mulheres as adoram, talvez porque as bolsas femininas guardem segredos como nenhum outro acessório – e os revelem a quem souber ouvi-las. Quem disse que um fecho não pode conter o mundo?

São uma paixão das mulheres desde que começam a andar, o ombro amigo que as ajuda a afirmarem-se na vida, o elemento decisivo que as completa (maridos, ponham os olhos neste exemplo). A dormir, sonhamos com a mala que nunca teremos dinheiro para comprar. Acordadas, gostamos de pensar que as que escolhemos usar em cada ocasião refletem com elegância o nosso lado mais exibicionista (todos temos um), ao mesmo tempo que nos definem naquela parte íntima ligada à identidade. Os homens não entendem o fascínio e desesperam com o roupeiro cheio de malas de senhora, ao passo que elas reclamam da insensibilidade masculina face a este laço tão pessoal. Como podem eles não perceber que uma só não chega?

«Não há mala que dê para todas as ocasiões, até porque à medida que o dia vai passando o tamanho reduz e nós, mulheres, gostamos de variar», explica Sandrina Francisco, especialista em marketing de produtos e serviços de luxo. Ter várias permite-nos ser mais criativas, variar mais. Dizer mais aos outros acerca da personalidade e do estilo daquela mulher em particular: se é prática, arrojada, clássica ou criativa; se tem carro; se usa maquilhagem e a cor do batom, o feitio do bloco de notas, o modelo do telemóvel. «Seria aborrecido utilizar todos os dias a mesma mala, já para não falar da possibilidade de não combinar com a roupa do momento. Apenas uma não chega para espelhar a mulher que a usa.» Quantas mais, melhor, diz, embora ela própria seja apologista de se apostar numa boa mala em pele, de preferência de cor neutra, capaz de complementar qualquer look quando temos de estar perfeitas.

«Uma mulher deve ter pelo menos cinco malas», reforça a consultora de imagem Benedita Paes, para quem o principal fator a ter em conta na hora de investir numa bolsa é a quantidade de vezes que vamos usá-la. «Para o trabalho, as médias e grandes são as melhores opções independentemente da sua função, de preferência peças lisas em couro ou camurça, que mostram seriedade e comprometimento. Precisa de uma bolsa mais elegante para uma ocasião formal, de duas malas médias – uma preta e outra bege ou camel –, de uma de alça traçada e de uma clutch para cocktails e festas.» No seu caso, a stylist não dispensa ainda uma máxi, a sua preferida, que lhe dá para a rotina dos dias e para o fim de semana.

«O nome já diz tudo: são enormes. Autênticas malas do dia-a-dia em forma de saco, feitas de couro, pelica, material sintético ou tecido, em que conseguimos levar tudo o que precisamos e até o que não precisamos», aponta. Por detrás do fecho, o interior parece alargar-se a outras dimensões, misterioso e sedutor como uma galáxia. Sandrina confirma esta tendência de as mulheres trazerem mais do que o necessário na mala: «A verdade é que colocamos nela tudo aquilo de que podemos vir a ter falta durante o dia. É a nossa bolsa salva-vidas em muitas situações, temos o nosso mundo lá dentro: chaves, telefone, documentos, maquilhagem. Tirando-nos a mala, ficamos sem chão.» Um dilema que ainda não perturba muito os homens: apesar de disporem de modelos cada vez mais exclusivos, como os da Saccus, a maioria guarda os objetos nos bolsos.

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É DIFÍCIL SITUAR AS ORIGENS deste apego emocional, apenas comparável ao das mulheres pelos sapatos (e muitas elegem, ainda assim, as bolsas como principal objeto fashion). Nos espetáculos de entretenimento no Coliseu Romano, a mala porta-moedas fechada com cordão era a mais utilizada por espetadores de ambos os sexos. Por volta de 1900 as mulheres usavam malinhas minúsculas, indicando que tinham empregados e qualquer objeto maior seria transportado por um serviçal. A Primeira Guerra Mundial potenciou a emancipação feminina e o estilo foi revisto: as malas tornam-se essenciais na década de 1920, com as senhoras a descobrirem um mundo de liberdade ao ocuparem os setores de atividade antes dominados pelos homens. Imperava a carteira debaixo do braço, sem ter de combinar perfeitamente com a roupa e com tamanho à justa para maquilhagem, cigarros e pastilhas de menta. As malas mais práticas surgem após a crise económica, servindo um estilo de vida ativo e independente.

«É muito raro encontrar uma mulher sem bolsa. A mala está para as mulheres como a casca para o caracol, com a diferença de que sabemos o que há dentro da casca», compara o sociólogo francês Jean-Claude Kaufmann, professor da Universidade Paris V – Sorbonne e autor do livro Le sac. Un petit monde d’amour (A mala. Um pequeno mundo de amor), lançado em 2011. Após 18 meses de pesquisa, concluiu que as bolsas femininas têm muito para contar a quem se dispuser a ouvi-las. «Guardam objetos afetivos preciosos para lá de qualquer análise racional. E os homens sentem sempre haver nelas algo de interdito: mesmo se autorizados a tirar qualquer coisa de dentro, limitam-se a pôr uma mão ao de leve, com infinitas precauções.»

Muito mais do que um acessório, a mala carrega a personalidade e os estados de espírito da dona, razão por que circunscrever-se apenas a uma é redutor. «A mala diz tudo sobre cada mulher. Define-lhe o estilo pelo formato, a cor e a textura», garante Adelaide Nunes, criadora da Glove Attitude & Style – uma agência de consultoria de imagem e personal shopping – em parceria com Sandrina Francisco. «O modo como ela transporta os seus pertences está intimamente relacionado com a forma como gere a sua vida.» Este statement explica que muitas sejam capazes de investir um ordenado numa Noé, da Louis Vuitton, ou de dar mais de cinco mil euros por uma Birkin, da Hermès. «É a concretização de um sonho, o ideal de se ter uma mala de edição limitada associada às divas, de qualidade irrepreensível. O luxo é singular e intemporal, revela poder.»

NAS VÁRIAS SOLICITAÇÕES para irem a casa das pessoas restaurar-lhes a honra dos armários e ajudá-las a ir às compras, raramente descobrem malas que jamais associariam à figura que lhes abre a porta do seu pequeno universo: «É pouco habitual uma mulher comprar uma mala que não se identifica com ela naquele momento», sublinha Sandrina, notando que quando escolhem modelos mais clássicos e intemporais, essa aposta faz com que as usem sempre ao longo da vida. «Já encontrei mulheres que guardam malas de há 20 anos! Muitas vezes não espelham mais aquilo que somos, mas temos dificuldade em deitar fora objetos de afeto.»

Segundo Ana Couto, especialista em marketing de moda e docente na Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa, vivemos num mundo que explora a atribuição de significados e as relações entre o ser humano e os objetos. «Justamente enquanto seres humanos, quando percecionamos os objetos fazemo-lo envolvendo o afeto», justifica. Lançamos mensagens que são depois descodificadas de diversas formas, dependendo de quem as usa, de quem vê e do contexto em que se integram. «Como diz Umberto Eco, quem se interessou alguma vez pelos problemas da semiologia já não pode continuar a fazer o nó da gravata todas as manhãs, diante do espelho, sem ficar com a clara sensação de estar a fazer uma opção ideológica ou, pelo menos, de lançar uma carta aberta a todos que se cruzarem com ele durante o dia.»

Benedita Paes concorda que, na moda, coisas pequenas podem deter um imenso poder: «A mala é a extensão do corpo de uma mulher. Reflete a personalidade da sua dona desde o interior, com as suas organizações peculiares, até ao exterior, transmitindo um pouco do que ela deseja aparentar.» Trazemo-las penduradas ao ombro como se fossem bebés, agarradas às costas, encostadas ao peito. Companheiras de todas as horas, sabem guardar segredos, atordoar um assaltante e fazer confusão, sobretudo na hora de encontrar as chaves de casa ou o passe. E não pensem os homens que é má vontade nossa não lhes respondermos quando perguntam o que raio levamos na mala para estar tão pesada. Às vezes nem nós sabemos.

ANTES DE COMPRAR, TOME NOTA:

MÁXI
Existem em todos os materiais e feitios, dão um ar moderno sem perder a seriedade laboral e são uma ótima opção para substituir a pasta de trabalho, caso a mulher não queira andar carregada. Ainda assim, as “baixinhas” devem evitar este modelo para não dar a impressão de que se estão a esconder atrás da bolsa.

DIZ-ME PARA QUE A QUERES…
A mulher deve ter sempre em conta o design da mala, a cor, o propósito (se é para o dia ou para uma saída), a sua versatilidade e a forma como poderá conjugá-la com o seu guarda-roupa.

MATERIAL
Bolsas de aspeto pesado caem melhor no inverno. Nas estações quentes, opte por algo leve e com cor. Malas de tecido devem andar sempre limpas, nada de coisas encardidas ao ombro. E camurça ensebada ainda menos.

QUALIDADE
Escolher uma mala de pele é um bom investimento e o ideal é que o modelo corresponda o mais possível ao estilo de vida da mulher: se anda muito de transportes públicos, por exemplo, deverá optar por uma que feche fácil e totalmente.

VISUAL
A ordem é descombinar: sapatos estampados devem jogar com roupa e mala mais lisas; bolsas com textura devem ser usadas com sapatos neutros. Pode e deve misturar cores fortes e alegres.

SELEÇÃO
Se não quiser um modelo para cada ocasião, tenha em conta que cores neutras funcionarão melhor com os looks de trabalho e lazer. Aposte numa boa bolsa nude ou preta e alterne com uma de cor diferente e de valor mais baixo.

A EVITAR
Repetir cores. Se já tem uma boa mala bege, então é preferível comprar uma preta, que também combina com tudo sem a deixar cair na mesmice. São pequenos truques que ajudam na hora de escolher o modelo perfeito.

CHAMAR AS MALAS PELOS NOMES

Clutch
Pensa-se que o nome deriva do inglês to clutch, agarrar algo firmemente, e descreve uma pequena bolsa de mão que as mulheres têm de segurar o tempo todo. Essenciais no guarda-roupa de mulheres assíduas em festas e eventos noturnos.

Satchel
É uma mala de ombro caracterizada pelo formato retangular e as alças duplas, ideal para levar para o trabalho – embora combine igualmente bem com looks de passeio. Os modelos são bem estruturados, quase sempre em pele, verniz ou camurça.

Tote
Também conhecida como shopping bag, é uma bolsa grande, de linhas direitas, estrutura reforçada e duas asas fixas na parte central. Versátil, cai bem em visuais descontraídos e reuniões de trabalho, além de ser ótima para guardar o tablet.

A tiracolo
Um modelo muito prático para as mulheres que não gostam de ficar a segurar em coisas que lhes ocupem as mãos. Maiores ou mais pequenas, têm em comum a alça longa concebida para passar sobre um ombro e apoiar no peito.

Barrel bag
Com a forma de um pequeno barril, mas incomparavelmente mais elegante, vem equipada com duas asas pequenas para transportar no braço e por vezes uma correia que lhe permite ser carregada ao ombro.

Mochila
Os tamanhos variam, os materiais também, só não muda o conforto e a correta distribuição do peso graças às duas alsas que assentam em ambos os ombros. Costuma acompanhar looks mais desembaraçados e é essencial em caminhadas.

Messenger bag
O modelo original era usado por carteiros, mensageiros e carregadores de produtos diversos que se deslocavam a pé ou de bicicleta, daí o desenho com uma só alça transversal resistente. Muito casuais.

Minaudière
Significa “dengosa” em francês e é uma bolsa ainda mais pequena que a clutch (já de si com espaço para os mínimos). De metal e em forma de caixa, derivou das cigarreiras das mulheres na década de 30 e dá à justa para maquilhagem e cigarros.

Doctor bag
Parece-se com as maletas que os médicos usavam antigamente e veio para ficar, glamorosa no seu formato médio, bem estruturado, com fecho de metal e alças curtas. Poderosa, combina bem com visuais mais elegantes no dia-a-dia.

Ana Pago
Ilustrações de CORBIS