OPINIÃO

Um casual muito chic

Da praia para uma reunião? Sim, é possível!

Há quem ande com mudas de roupa no carro e quem prefira um outfit que lhe permita ir direto da praia para um jantar citadino sem hipotecar a elegância. A +351 de Ana Penha e Costa é assim: desportiva e chique que se farta.

Ana Penha e Costa passou a maior parte da sua existência a cavalgar ondas, surfista dos pés à cabeça em terra e no mar, mas não se imaginava a usar nada da sua lavra, menos ainda a vestir desconhecidos. «Tirei design gráfico e trabalhei dois anos na agência de publicidade MSTF Partners. A certa altura vi que não era bem isso que me fazia feliz e fui à procura», conta, tão desprendida como se só a viagem lhe importasse, não o destino. Partiu em 2012 para um estágio na Billabong em Soorts-Hossegor, França, ajudada por contactos do surf. A desenhar roupa de mulher com os melhores, peças direitas e soltas no corpo, perfeitas, descobriu que o que mais queria era fazer moda ela mesma, nada de ser designer gráfica ou publicitária. Estava finalmente pronta para a paixão que hoje a move com uma energia maior que a das marés: criar a sua +351, marca desportiva chique que cai tão bem na praia como na cidade.

«Depois da experiência de três meses na Billabong decidi tirar o mestrado em moda. Entrei na Faculdade de Arquitetura em Lisboa, fiz cá o primeiro ano, e no segundo fui para o Rio de Janeiro terminar os estudos», adianta a jovem, os 27 anos bem divididos entre as solicitações empresariais e aquela febre do surf que a faz sair com a prancha à hora do almoço, para desanuviar a mente ao mesmo tempo que se enche de ideias para novas criações. «Quando escolhi o Brasil, já ia com a fantasia de trabalhar também na Osklen, uma marca desportiva de referência e das minhas preferidas.» Soube entretanto que não aceitam estagiários na parte criativa, mas nem assim deixou de lhes ir bater à porta: queria muito conhecer os ateliers em São Cristóvão, nos arredores do Rio. Dizer-lhes na cara que era superfã e adorava crescer com eles.

«Fiquei seis meses a estagiar na secção de luxo após o doutoramento», orgulha-se Ana. A primeira e única a entrar na Osklen, apesar de lhe terem dito que era impossível. A primeira a chegar todos os dias e a última a sair, fascinada com aquele mundo encantado de vestidos, calções, tops, saias, macacões, calçado e acessórios, aliando natureza e glamour num estilo casual chic. O sonho concretizado mostrou-lhe que a teimosia, tanto quanto o saber-fazer, é parte integrante do negócio. «Não é nada fácil viver de uma marca própria. Há que batalhar muito e ser esforçada a tentar parcerias, porque nem todas as fábricas nos abrem as portas», explica a empreendedora, satisfeita com as de Guimarães e Barcelos que lhe fazem atualmente os algodões, os fatos de banho, o corte e costura de cada uma das peças de homem e mulher que concebe. «A nossa indústria têxtil é das melhores. Vale a pena a procura.»

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Sem esta insistência de querer furar, conhecer, buscar o âmago das coisas que a fez pôr-se a caminho à partida, nunca teria tido sequer a ideia do nome da sua própria marca. «Pensei em +351 porque na altura estava no Rio, cheia de saudades da vida em Portugal, e tinha a certeza de que que queria voltar e viver no meu país», diz. E também por ser o indicativo de Portugal e as peças serem todas de confeção nacional, inspiradas no estilo de vida desembaraçado e sempre na moda da autora: camisolas vaporosas a deixarem muita pele morena à vista; jumpsuits que dão para sair da praia e ir a correr para uma reunião de negócios sem perder o garbo (é uma questão de se acertar nos acessórios); calções tingidos como se fossem jeans que ficam pretos quando molhados; vestidos e kimonos de linhas direitas, sexy, com estampas naturais para que o público queira voltar às origens – não é por acaso que esta segunda coleção se chama Reconnect With Your Nature, mais completa que a Emerging por já ter fatos de banho de senhora.

«São uma novidade que ainda não me tinha sido possível criar, mas a verdade é que há um ano eu estava a fazer tudo sozinha, não deu para mais», justifica Ana Penha e Costa. Só agora a marca começa realmente a ganhar contornos de peso, com a amiga Carolina Albarran a assumir a vertente de estratégia e marketing a partir de São Paulo, onde vive, e uma pessoa à experiência a tratar da parte financeira e comercial. A ela cabe-lhe continuar a desenhar, a surfar e a pôr a +351 a mexer (não necessariamente por esta ordem), sonhando com o salto que darão em breve rumo à internacionalização. «Vamos primeiro tentar Londres ou Paris, começar pela Europa a ver o que acontece, e mais tarde procurar fornecedores no Brasil e arriscar lá também. Já temos os fatos de banho à venda numa loja em Ipanema, a Q.Guai, e toda a gente adora os calções de rapaz.»

Além da Q.Guai, a +351 dispõe de loja online (www.mais351.pt) e tem artigos à venda na Lavanda (Comporta e Algarve), no The Oitavos Hotel (Cascais), na Loja das Meias, Paez e Espaço B (em Lisboa) e no By S (Porto). Se sente a necessidade de perceber melhor os materiais, pega no carro e vai passar temporadas ao Norte, atenta a tudo. «Na Osklen havia uma pessoa que desenhava a coleção toda e nós apenas desenvolvíamos algumas peças a partir daí, o processo era muito diferente», recorda. Dava ideias relativamente aos materiais, mas serem outros a escolhê-los não lhe permitia conhecê-los como agora, que anda nas fábricas a mexer-lhes e a ver como funcionam.

Nas ondas do Guincho, onde a família tem casa de fim de semana, a jovem floresceu como se o lugar existisse para lhe servir de marco. «Surfo desde os 14 anos, fiz competição entre os 16 e os 21 e era ótimo. Pagavam-me para viajar e para surfar, mas às tantas cresci e vi que queria mais da vida, até porque o nível lá fora não se compara.» O mar está sempre presente, tem a ver com o seu modo de estar no mundo. Ainda assim, avisa Ana, a +351 não é uma marca de roupa de surf. «Sempre gostei do estilo desportivo chique e é isso que faço agora.» Traz para a cidade o que se usa na praia, combinando peças confortáveis e sensuais para uma pessoa estar bem em qualquer ocasião. «A minha mãe usa a minha roupa e faz imenso sucesso!»

Ana Pago
Fotografia: Gerardo Santos/Global Imagens