OPINIÃO

Treinadores de vida saudável

A saúde também traz felicidade.

Comer bem, escolher a comida certa no supermercado, gerir o stress, organizar a agenda pessoal – há quem o ajude a fazer isto tudo. Um health coach. O nome é pomposo, mas o objetivo é claro: ajudar-nos a mudar de vida. Para melhor.

Vamos aprender um exercício que pode ser feito quando estão a trabalhar. Mantenham-se sentadas, coloquem o braço esquerdo atrás das costas da cadeira e a mão direita no joelho esquerdo. Torçam todo o corpo, desta vez, para o lado esquerdo. Este exercício é bom para aliviar tensões nas costas. Ficam mais descontraídos. Quando fizerem isto no trabalho podem fingir que estão a ver o que o colega de trás está a fazer. Não vá alguém achar que vocês são pessoas exóticas!» Bruno Reis, professor de yoga há dez anos, não está a conduzir uma aula qualquer. Tem diante de si, desta vez, uma plateia especial: onze mulheres a cumprir um programa de group coaching sobre nutrição, saúde e beleza. Bruno veio ensinar-lhes exercícios simples de yoga para aplicar no dia-a-dia.

O convite partiu de Teresa Alves Barata, health coach, especialista em reeducação alimentar e hábitos de vida. «Aquilo que faço é tentar perceber qual é a alimentação da pessoa que me procura e, posteriormente, ajudo-a a encontrar alternativas para o seu dia-a-dia. Por exemplo: ajudo o cliente a criar refeições saudáveis ou snacks que possam ser levados para o emprego. Mas não só. Também ajudo a pessoa a organizar-se melhor e a criar uma nova rotina de desporto.» Teresa tem 50 anos e há dois que trabalha a tempo inteiro como health coach («treinadora de saúde», numa tradução literal). Fez formação no Institute for Integrative Nutrition, sediado em Nova Iorque, EUA, país onde o health coaching tem maior popularidade. «O curso dura um ano e é sempre feito online quer para alunos americanos quer para estrangeiros», diz a especialista, que antes trabalhava na área de saúde numa multinacional americana de dispositivos médicos.

Tudo começa com uma primeira sessão gratuita de esclarecimento. «Esse primeiro momento serve para o cliente perceber o que é que eu faço exatamente. Para eu poder ajudar, a pessoa tem de estar pronta a mudar.» Optar (e saber comprar) por uma alimentação mais nutritiva, combater o stress e a ansiedade, gerir o tempo livre, encontrar o equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal e reintroduzir o exercício físico no dia-a-dia são alguns objetivos que um health coach ajuda a interiorizar. A saúde e bem-estar físico e emocional são a prioridade, sempre respeitando a individualidade de cada um. Mas o health coaching não funciona à base de consultas. Assenta, sim, em sessões regulares que podem realizar-se em grupo ou individualmente. Os encontros podem ser presenciais ou à distância (por skype, telefone ou e-mail). Três meses é o tempo mínimo de duração. «Isto não é um programa para fazer uma dieta. Aquilo que trabalhamos são mudanças de hábitos alimentares e de vida e, por isso, é preciso fazê-lo com tempo. A ideia é que, pouco a pouco, se criem novos hábitos que vão ficar para a vida.»

Clara Assunção é uma das onze participantes do programa de seis módulos dirigido por Teresa Barata. A administrativa de 42 anos encontrou no health coaching «uma nova esperança» para fazer frente ao excesso de peso. «Já fiz dietas antes. Mas quero saber quais são os erros que possa estar a fazer, e quais os benefícios de comer uns alimentos em detrimento de outros. Somos bombardeados por péssimas escolhas e acabamos por ir atrás. O meu objetivo máximo é o conhecimento. No fundo, quero ganhar saúde. Isto é uma nova esperança para mim porque traz-me informação.»

Leonor Pinheiro, 20 anos, estudante de Economia na Universidade Nova de Lisboa, é a prova de que esta é uma ferramenta útil para pessoas de diferentes idades. «Comecei a ver muitas evoluções desde a primeira sessão. Agora, bebo sempre sumos naturais em vez de refrigerantes. E quando peço um sumo natural, pergunto sempre: “Não tem açúcar, pois não?” Também me preocupo em comer mais fruta e vegetais, e o exercício físico voltou à minha vida.» Teresa Alves sabe que um health coach ajuda os clientes a alimentarem- se melhor, mas frisa que não é nutricionista. «Se alguém tem problemas hormonais ou sofre de diabetes e não consegue emagrecer por causa disso, deve procurar um nutricionista e nunca uma health coach. O nutricionista dá uma consulta e analisa problemas de saúde, enquanto um health coach insere novos hábitos de vida com um acompanhamento constante. Eu estou lá para ajudar.»

Sílvia Ferreira, farmacêutica, tem 26 anos e queria aprender a fazer compras saudáveis. Por isso recorreu à ajuda de Inês Vitorino. A enfermeira e health coach a tempo parcial ajudou-a e preparou uma ida a uma mercearia. «Podemos começar pelos legumes, Inês? Gosto de espargos. São bons, não são? Posso comê-los?»

Inês pede a Sílvia para ler o rótulo da embalagem e aproveita o momento para a primeira advertência. «Tenta sempre optar por produtos portugueses. É importante saber-se a origem dos alimentos. Às vezes vemos alimentos em promoção mas esses, regra geral, têm mais químicos do que os outros porque chegam de outros países. É sempre preferível comprar produtos da época.» «E a melancia? É bom comer?», interroga Sílvia. «É boa, sim. Hidrata bastante, mas deve-se comer a melancia sozinha e antes da refeição porque assim é absorvida rapidamente. Naqueles dias em que estamos com muita fome, é bom começar por comer primeiro a fruta. Isso ajuda a que já não haja aquela vontade de atacar o almoço. Não temos este hábito mas faz a diferença.»

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Sílvia Ferreira vai às compras com a coach Inês Vitorino.

Sílvia está a cumprir um programa de health coaching desde novembro. Queria controlar a ansiedade e o apetite. «Duas coisas que, no meu caso, estão interligadas. » Antes não resistia a folhados ou batatas fritas, mas com a ajuda de Inês conquistou mudanças que não imaginava vir a ser capaz. «Sou muito mais organizada. Todas as semanas planeio a minha agenda e antes nunca fazia isso. Tinha a mania de fazer cinquenta coisas ao mesmo tempo. Por outro lado, aprendi a gerir a ansiedade, a dizer não. E, claro, melhorei toda a alimentação.» As melhorias gerais em vários planos – e não apenas no que motivou primeiro os clientes – acabam por ser evidentes a médio prazo. «Antes eu tinha insónias e agora estou muito melhor. Há alturas mais agitadas, mas agora procuro relaxar antes de ir para a cama. O yoga também me ajudou muito.»

Tal como Teresa Barata, Inês também se formou no Institute for Integrative Nutrition. «Eu também era um caos. Todas as semanas, comia hambúrgueres. Sou, acima de tudo, enfermeira e gosto de ajudar a educar as pessoas, para se sentirem bem. Para isso, uso ferramentas de coaching. São formas de aprender facilitadoras e motivadoras. Eu ajudo a pessoa a desenrolar o nó para ajudar a atingir o que ela quer.» Além de organizar idas ao supermercados, workshops de refeições, bebidas e doces, Inês faz domicílios para ensinar a cozinhar ou organizar a despensa. Em média, o acompanhamento individual de três meses (quer de Inês quer de Teresa) está acessível a partir de cem euros mensais, ao passo que os programas de grupo começam nos 150 euros.

Inês tem 22 clientes, mas reconhece que em Portugal o health coaching ainda é visto com desconfiança. «Nos Estados Unidos há health coaches a trabalhar em hospitais e todas as seguradoras têm um. Eles apostam fortemente na prevenção e na promoção da saúde.» Por cá, a tendência ainda tem muito espaço – e potenciais clientes – para crescer. «Acima de tudo, as pessoas devem olhar para elas próprias e procurar sentir-se bem», diz Inês. «Isso significa aliar saúde e felicidade.»

Isabel Jesus