OPINIÃO

Só consegue inovar quem não tem medo de falhar

Maria Pereira, uma das pessoas mais inovadoras do planeta segundo a Forbes, criou um adesivo para reparar corações.

Nasceu em Leiria, tem 29 anos e desenvolveu um adesivo para reparar malformações cardíacas em recém-nascidos. A nova tecnologia pode revolucionar os procedimentos cirúrgicos e contribuir para a qualidade de vida dos pacientes. Formada na escola pública portuguesa, a investigadora Maria Pereira está lado a lado com inovadores saídos das mais reconhecidas universidades nas listas 30 Under 30 da Forbes, divulgadas este mês.

MARIA PEREIRA é licenciada em Ciências Farmacêuticas pela Universidade de Coimbra e doutorada em Sistemas de Bioengenharia ao abrigo do MIT-Portugal, Maria Pereira vive em Paris, onde investiga ao serviço da Gecko Biomedical, uma empresa privada de dispositivos médicos dedicada ao desenvolvimento e comercialização de adesivos biodegradáveis no campo da cirurgia, sobretudo na minimamente invasiva.

Depois de em agosto do ano passado ter sido distinguida pela MIT Technology Re­view, do Massachusetts Institute of Techno­logy, como uma das pessoas mais inovado­ras numa lista de apenas 35 nomes, esta re­cente nomeação da Forbes era previsível?
_ Julgo que esta nomeação foi de facto uma consequência do prémio do MIT, o que não quer dizer que fosse esperada. Eu não espe­rava.
Quando e como ficou a saber da notícia?
_ Um pouco antes de as listas serem publi­cadas, por telefone. A revista contactou-me.
Qual foi a primeira pessoa a quem contou a novidade?
_ Ao meu namorado. Logo depois, aos meus mentores – os orientadores da minha tese – e às pessoas que colaboraram no projeto.
Quantas pessoas acompanharam o projeto?
_ O núcleo restrito é formado por quatro: o meu orientador de tese, dois professores e eu.
Em que medida este prémio tem importância na sua carreira?
_Ajuda sobretudo a abrir portas. Por exem­plo, a Forbes organiza anualmente uma conferência em que participam todos os eleitos. Tenciono aproveitar esse encontro para conhecer pessoas e fazer contactos. Na minha área é essencial criar uma boa re­de de contactos.
Em que consiste exatamente o seu projeto?
_ Trata-se de biomaterial que pode ser ati­vado para aderir a tecidos biológicos, mes­mo depois de estar exposto ao sangue, tor­nando-se um dispositivo mais eficaz na re­paração de defeitos cardíacos em bébes. Falo de buraquinhos que têm de ser fechados pa­ra que se reestabeleça a circulação. Até aqui o procedimento podia ser feito apenas atra­vés de uma técnica invasiva, como a sutura, ou usando dispositivos metálicos, não bio­degradáveis e suscetíveis de causar erosão.
Em Portugal estimam-se oito casos em cada mil nascimentos, 50 por cento com interven­ção cirúrgica. O que é que o seu adesivo traz a esses bébes?
_ Ao fazermos a revisão dos adesivos médi­cos existentes no mercado, concluímos que todos reagem com o meio, não sendo efica­zes, e alguns estão associados a alguma to­xidade. No caso deste adesivo estamos a fa­lar de um material elástico, viscoso e hidro­fóbico (não é solúvel em água), ativado por um estímulo de luz e com capacidade para aderir ao tecido em ambientes cirúrgicos altamente desafiadores com procedimen­tos minimamente invasivos.
Como surgiu a ideia?
_ É preciso tapar um buraco, logo faz-se um adesivo. Este foi o primeiro raciocínio. As complicações vieram depois. Foram muitos altos e baixos. Durante um ano ex­perimentámos vários materiais. Falhou–se algumas vezes e nessas alturas há sem­pre alguém que diz «isto é impossível». Mas só consegue inovar quem gosta de de­saf‍ios e não tem medo de falhar.
Quanto tempo levou este trabalho?
_ A investigação começou em 2009, em Bos­ton, quando estava na fase inicial do douto­ramento, ao abrigo do programa MIT Por­tugal. A certa altura, o laboratório onde tra­balhava, em Boston, foi contactado por um grupo de médicos interessados em resolver de forma mais eficaz este problema. Come­çámos por avaliar os nossos materiais num dos ambientes mais desafiantes, os proble­mas cardíacos. Essa parte da investigação, demonstração em animais e estudo de segu­rança do material, demorou três anos. Em 2013 apareceu então o interesse de investi­dores e assim nasceu a Gecko, a empresa que licenciou as patentes. Eu fui convidada a jun­tar-me ao grupo.
O passo seguinte é transformar uma inova­ção, ainda não testada em humanos, num produto?
_ É isso mesmo, mas estes processos são lon­gos. Estamos agora a proceder a todos os es­tudos pré-clínicos pedidos pelas autorida­des e no final do ano esperamos chegar aos ensaios clínicos. Queremos atingir a clínica no espaço de dois ou três anos e o nosso ob­jectivo é, para já, o mercado europeu. O pas­so seguinte será alargar esta inovação a pro­cedimentos para lá dos cardíacos.
Será um produto mais caro do que os já exis­tentes no mercado?
_ Não.
Na lista de que faz parte (Cuidados de Saúde), Harvard é alma mater de uma grande par­te dos escolhidos. MIT, Stanford, NYU, Yale, entre outras, estão também representadas.
_ Vir de Harvard ajuda, claro, abre bastan­tes portas, mas não é essencial, e eu, que me formei em Portugal, sou o exemplo disso.
Era boa aluna?
_ Sim, posso dizer que sim. Sempre tive gosto em estudar e sempre fui um pouco perfecionista.
A Forbes também refere custos de formação. Quanto gastou a formar-se?
_ Muito pouco comparado com o que se gasta, por exemplo, nos Estados Unidos. Estudei sempre em escolas públicas. Fiz o secundário em Leiria, na Escola Francisco Rodrigues Lobo, depois fui para a Univer­sidade de Coimbra. Tinha apenas as propi­nas. O doutoramento no MIT Portugal, re­partido entre Boston e Cantanhede – on­de está o laboratório do meu orientador português, o Prof. Lino Ferreira –, foi fei­to com bolsa. Não foram grandes custos.
Desmente aquela ideia feita de que «ir estu­dar para fora» abre todas as portas e é uma mais-valia.
_Fazer a formação no estrangeiro é impor­tante para alargar horizontes, conhecer novas realidades e estabelecer contactos. Julgo essencial para crescimento pessoal e profissional, mas não essencial para adqui­rir formação básica de qualidade. Há muitos portugueses a trabalhar na França ou nos EUA, quadros qualificados, pessoas que se formaram em Portugal e que são muito re­conhecidos. O nosso ensino é muito bem-visto lá fora. Temos uma boa formação de base. Isso não quer dizer que não seja neces­sário estar em contacto com o que se faz nou­tros países, falar com outros investigadores, cruzar informação. E ter vontade de arris­car. Temos muito boa formação, mas falta-nos essa vontade de arriscar. Noto essa di­ferença quando vejo os alunos do MIT. Eles não têm por objetivo entrar numa multina­cional ou numa grande empresa. Não, eles querem criar a sua empresa, nem que isso signifique passar uns meses largos sem or­denado.
E a investigação em Portugal?
_Não está fácil, mas temos excelentes gru­pos de investigação de renome mundial. Em França, trabalho numa empresa pri­vada.
E vem a Portugal com que regularidade?
_Uma vez por mês. Tenho cá a família e o meu namorado. Mas não é difícil estar fora. Desde miúda que me habituei a ver o meu pai [engenheiro de telecomunicações] trabalhar no estrangeiro.
Qual é o projeto que se segue?
_ Um dos meus objetivos é que boas ideias, grandes ideias, se tornem produtos.
O que queria ser em miúda?
_Sempre gostei muito de ciências. A fa­mília e os professores sempre incentiva­ram essa tendência. E, dentro da ciência, a área da saúde foi e é a minha paixão. Cla­ro que também tive outros interesses des­de pequena na área científica. Por exem­plo, quis ser astronauta e uma das minhas prendas de anos mais memoráveis de in­fância foi um telescópio que os meus pais me ofereceram.

Alexandra Tavares Teles
Fotografia de Fernando Fontes/Global Imagens