OPINIÃO

Sérgio, o humanista

Sérgio Guedes Silva queria ser cientista, mas mais ainda resolver problemas, ser útil.

Formou-se em engenharia, mas a paixão pela área social levou-o à ajuda humanitária. Graças ao trabalho que desenvolve no Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas, o seu contributo chega a noventa milhões de pessoas.

Sérgio Guedes Silva é formado em Engenharia Mecânica, tem um mestrado em Gestão de Empresas, mas decidiu que a sua vida seria dedicada à ajuda humanitária. É presidente da G.A.S. Porto, uma instituição que desenvolve atividade de voluntariado em Portugal, Timor e Moçambique, e consultor das Nações Unidas no Programa Alimentar Mundial, que chega a noventa milhões de pessoas.

O humanista acredita que «a vida é interação com os outros e é isso que nos transforma». Fez 34 anos no dia em que nos abriu a porta de casa – com um sorriso de miúdo e o filho de 1 mês ao colo – e nos contou como chegou aqui. Por volta dos 13/14 anos «andava um pouco perdido». Até que o professor Rui Canelas, de Física/Química, fez a diferença. «Sabia incutir a paixão pelo conhecimento.» Decidiu, assim, que queria aprender «tanto quanto possível». E, sobretudo, «queria vir a ser útil».

Entrou em Física, no Técnico, em Lisboa, mas um ano depois estava de regresso ao Porto, onde fez Engenharia Mecânica. «Não ia sempre às aulas, não era propriamente brilhante», mas quem o conhecia sabia que ele tinha paixão pela ação social. Saber que iniciativas nesta área poderia levar a cabo dentro da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) foi, aliás, uma das primeiras coisas que indagou.

Mas foi fora da FEUP que o conseguiu fazer, através de um grupo de amigos. Com eles conheceu o mentor da G.A.S. Nova, que realizava estas ações em Lisboa. Nuno Frazão convidou-os para conhecerem o seu trabalho e para fazerem o caminho de Santiago. Nesse percurso, Sérgio percebeu que «queria mesmo, mesmo, ser útil». Ser útil é o que motiva este homem, que sorri como um catraio, segura num bebé como um especialista e fala com a abrangência de um sábio. «Eu sou um sonhador realista. Não são incompatíveis, sabe?» Entretanto, mudou a fralda do Francisco.

Começou assim a G.A.S. Porto, em novembro de 2002. Ligados a instituições particulares de solidariedade social (IPSS), a organizações não governamentais e a outros parceiros, a G.A.S. tem atualmente nove projetos em Portugal e missões internacionais em Timor e Moçambique. «Trabalhamos com crianças de bairros sociais, jovens institucionalizados, sem-abrigo, idosos, portadores de deficiência. Em noventa por cento dos casos, o público alvo é identificado pelas IPSS.

A G.A.S. continua a todo o gás, mas este homem não se ficaria por aqui. Na altura da tese, outros dois professores foram marcantes para lhe traçar o destino. O primeiro, Falcão e Cunha, perguntou-lhe: «E porque não uma tese de mestrado na área da ação social? E porque não as Nações Unidas?» O segundo, Barbedo Magalhães, enviou um e-mail a António Guterres, alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados, a comunicar o interesse do seu aluno em ajuda humanitária e a perguntar onde é que aquele poderia integrar-se para fazer o trabalho. Foi parar ao Programa Alimentar Mundial, observar a unidade experimental de otimização de linha de abastecimento. Fez a tese e nunca mais saiu.

«O meu papel é olhar para as operações no terreno, avaliá-las semanalmente e falar com os diretores para lhes dizer de que forma podemos otimizar a ajuda.» Há missões na Síria, no Sudão do Sul, no Iraque ou no Iémen, tudo regiões com grandes conflitos. O engenheiro, que acredita em Deus e que queria ser cientista mas andava perdido, encontrou finalmente o rumo.

Leonor Paiva Watson
Fotografia: Diana Quintela/Global Imagens