OPINIÃO

Regras para iPhone são lições de vida

O seu filho quer um iPhone? Leia isto antes.

Satisfazendo um desejo do filho ao oferecer-lhe um iPhone no Natal, Janell decidiu ensiná-lo a mover-se no ciberespaço. Por isso redigiu um contrato, que o adolescente de 13 anos assinou, com alguns mandamentos importantes. Nasceu daí o livro iRegras, um manifesto sobre parentalidade na era digital.

QUEM É JANELL BURLEY HOFMANN?

É conferencista, coach e jornalista especializada em temas de tecnologia e parenting. Colaboradora do jornal Huffington Post, da produtora American Public Media e da National Public Radio, é mãe de três meninas e dois rapazes, dos quais só um tinha smartphone por altura da edição do iRegras – Como educar o seu filho na era digital (ed. Pergaminho).

O que aprendeu ao dar ao seu filho um contrato para utilização do iPhone? Que coisas sabe hoje, dois anos e pouco após o acordo, que não sabia antes?
À medida que as minhas crianças vão crescendo e a tecnologia integra mais as suas vidas, aprendi a abraçar os aspetos positivos com que não estava tão familiarizada. Sinto-me excitada com a quantidade de dispositivos divertidos, educativos, convenientes e interessantes que contribuem para um lifestyle harmonioso. E, claro, ao escrever o livro e viajar pelo mundo falando de tecnologia e vida equilibrada às crianças, adolescentes, professores, pais, comunidades e empresários, aprendi mais do que julgava ser possível acerca das várias perspetivas do diálogo e do compromisso. Os jovens entre os 8 e os 18 anos estão expostos a conteúdos multimédia quase 11 horas por dia, é natural que os pais precisem de orientação para definir que comportamentos são aceitáveis em relação à tecnologia. Quando os filhos se sentem valorizados por os respeitarem e lhes facultarem barreiras seguras, cria-se um vínculo de confiança.

Foi esse o impacto que as 18 regras tiveram na vossa relação como mãe e filho?
O contrato original que escrevi para o Gregory era uma reflexão sobre quem somos. Mudou muito a minha vida profissional, mas a relação com o meu filho manteve-se tão forte e saudável quanto podia desejar, em parte graças ao ensino do respeito por si próprio subjacente a tudo desde o início. É isto que aconselho aos pais que me pedem ajuda para fomentarem ligações humanas e moldarem o uso de dispositivos eletrónicos com integridade: que identifiquem os valores inerentes aos pilares da sua parentalidade e depois os apliquem também à tecnologia. Não creio que o meu contrato original tenha mudado alguma coisa porque é consistente com o que sempre fomos. Cheguei a perguntar isto ao Greg e ele respondeu-me o mesmo.

Como podem os pais participar no debate para a educação de uma geração tecnológica?
Existem imensos recursos fabulosos, nomeadamente artigos gratuitos e ferramentas práticas de apendizagem na internet, disponíveis para que os pais possam compreender melhor a tecnologia. Também as nossas crianças são ótimos professores. Faça-lhes perguntas sobre tecnologia. Peça-lhes para lhe falarem de apps e de interesses online. E converse com outras famílias, pais e professores, dentro da sua comunidade, para ficar ligado e compreender o que acontece à nossa volta. Quanto mais conectados estivermos,  mais questões levantarmos e melhor aprendermos a usar as novas tecnologias, mais fortes seremos a definir limites em parceria com os nossos filhos.

É difícil, isso? Foi difícil para si?
Sermos pais pode ser desafiante – sobretudo desta geração tecnológica –, mas a comunicação é decisiva. Sempre que posso, falo com os meus filhos sobre vários temas e isso torna mais fácil a educação para a tecnologia, por estarmos habituados a debater ideias, partilhar opiniões e falar das nossas expetativas. Às vezes é difícil para mim: à medida que eles crescem e eu vejo a tecnologia tornar-se mais popular, tenho que ser flexível sem deixar de seguir os meus instintos. A minha filha Ella tem 10 anos e quer uma conta no Instagram porque alguns amigos já aderiram. Disse-lhe que teremos essa conversa quando ela tiver 12 ou 13 anos e ficou desapontada, mas eu sinto-me confortável com a decisão, ainda que não seja fácil. O meu filho Brendan começou agora a usar o Instagram e também lhe criei regras. Há muita coisa a pensar e a considerar, mas acredito que o trabalho duro da parentalidade é recompensado.

Quais são os maiores perigos que as famílias enfrentam na parentalidade – ou na ausência dela – face às novas tecnologias?
Quando quase todos os adolescentes têm hoje vida no ciberespaço, os pais precisam de estar tão ativamente presentes diante dos ecrãs como estão longe deles. Cabe a cada família definir o contrato que melhor orienta os mais novos nos meandros tecnológicos, criando regras próprias que reflitam a sua filosofia parental e a idade dos filhos. Se não souber usar a tecnologia com que eles querem brincar, aprenda o básico e conheça os sites em que andam a navegar. Ao estabelecer-se um bom nível de compromisso, compreensão e comunicação, grande parte do medo desaparece. É fundamental que as nossas crianças saibam que podem vir sempre ter connosco, nos perguntem coisas, nos digam se viveram alguma experiência online em que possamos ajudá-las.

É um assunto que diz respeito a todos os membros do agregado, o tempo todo? Esse é o truque para se criar miúdos atentos na era digital?
Para que as regras tenham êxito é essencial os pais estarem de acordo quanto à filosofia parental, de modo a que os filhos possam usufruir dos dispositivos dentro desses limites. O mundo deles já não se limita à escola ou ao parque infantil; muita da sua vida social e académica acontece online. E tal como sabemos quem são os amigos da escola ou do futebol, é importante sabermos com quem falam nos chats, como usam a tecnologia, do que mais gostam nela. Não precisamos de fazer parte de todas as conversas, como é óbvio. Também é natural que pais que só conseguem ir buscar os filhos à escola pelas 19h00 optem por dar-lhes mais horas tecnológicas noturnas do que eu dou ao Greg. Mas convém conhecermos os nossos filhos individualmente, as suas tendências, o seu estilo enquanto utilizadores. As suas necessidades individuais.

Porque é que a tecnologia substitui com frequência um bom livro, um passeio na praia, um café com amigos?
Por ser fácil. E divertida e excitante e imediata, o que me parece muito bem. Enquanto interagirmos um pouco online, sem perdermos a capacidade de nos relacionarmos com outro ser humano pessoalmente, julgo que ambas as coisas podem ser valiosas. Adoro estar ligada à família dispersa pelos EUA, descobrir velhos amigos e manter relações profissionais na web. Tal como adoro ir bebé café com as minhas irmãs ou meter-me por trilhos na natureza com os meus miúdos. Não creio que a vida online deva substituir essas interações. Defendo, sim, que podemos ter tudo isto de forma saudável.

Por que razão é tão difícil aos pais dizerem «desliga já isso!» a um filho?
Educar não é pera doce. Exige atenção, intenção e acontece muitas vezes sentirmo-nos sobrecarregados e inseguros no que toca à tecnologia, com vontade de fazer vista grossa quando tudo nos parece esmagador. Ainda assim, temos que defender a nossa família. Reconhecer os nossos valores, o que é importante para nós proteger ou fomentar, e aceitar que a tecnologia pode fazer parte disso. Ou não. Também está certo querermos afastar-nos um pouco dela para cultivarmos o pensamento, a criatividade, o aborrecimento, a imaginação, a interação ou o que quer que seja longe dos ecrãs.

Como pode a vida ser “tecnopositiva” sem nos esmagar com dispositivos eletrónicos, como habitualmente acontece?
A chave é o equilíbrio. Usar a tecnologia por tudo o que nos traz de bom à vida moderna, ao mesmo tempo que lhe traçamos fronteiras. E é aqui que as tecnoconversas e as iRegras podem ajudar, ao identificarem o que funciona para cada família e construírem um acordo estruturado em torno disso. Se quiser saborear uma refeição sem telemóveis à mesa, estabeleça uma iRegra para isso. Enquanto continuarmos a servir-nos da tecnologia com consciência, seremos bafejados por ela, não engolidos.

Onde fica o equilíbrio, no meio de tanta acessibilidade?
É diferente para cada família. No meu caso, pergunto-me se o trabalho da escola está a ser feito, se estamos todos a dormir bem, se fazemos exercício e atividades ao ar livre. Estamos a comunicar pessoalmente, a passar tempo juntos, a interagir com qualidade? Estamos a lutar ou a discutir por causa do uso de dispositivos? Estamos a ter problemas online? As respostas a estas questões ajudam-me a definir o equilíbrio para nós.

O contrato podia servir para a vida em geral?
Sem dúvida. Uma das coisas que escrevi foi precisamente que as regras ali enumeradas não se aplicam só ao iPhone: são lições de vida. O meu marido leu-as e confirmou serem justas, diretas e simples de seguir pelo Greg, que se rege pelos nossos valores de responsabilidade, confiança, amor, fronteiras/expetativas, respeitar o próximo e viver plenamente. A única alteração que fizemos foi à alínea de nunca levar o telemóvel para a escola: combinámos que podia fazê-lo se tiver visitas de estudo e desporto depois das aulas. E falamos sempre que é necessário fazer revisões: a tecnologia e o modo de a usar estão em constante mutação, tal como o desenvolvimento dos nossos filhos.

Também inclui regras não negociáveis como «Eu saberei sempre a palavra-passe» e «Não envies nem recebas fotos das tuas partes íntimas ou das partes íntimas de outra pessoa». Os pais precisam de ser assim controladores?
Enquanto eles estão a iniciar-se como utilizadores, é importante orientá-los com guias mais restritivas. Somos pais, temos o direito de entrar no mundo que os nossos filhos têm na internet. À medida que forem crescendo e mostrando competências tecnológicas a todos os níveis, então podem ter a liberdade inerente a serem mais independentes.

Ana Pago