OPINIÃO

Porquê a nós? Porquê a mim?

A vida, o desporto e a doença da mulher de Fernando Correia.

Lisboeta, 79 anos, cresceu entre o Alto de Santo Amaro, a Rua da Madalena, São Domingos de Benfica, Carcavelos e Loures. Sonhava ser médico ou guarda-redes, mas a vida deu-lhe a rádio, as reportagens em cenário de guerra, os relatos de futebol do aluno pródigo de Artur Agostinho. Traidor para uns, colaboracionista para outros, festejou o 25 de Abril em Londres. Quadro da Emissora Nacional, seria na altura suspenso. Mas não se ficou. Seis décadas de carreira, cinco filhos e a Vera, há onze anos doente – o mundo do sportinguista Fernando Correia.

Em Piso 3, Quarto 313 (ed. Guerra e Paz), livro sobre a Alzheimer publicado há um mês, conta a história de Vera, sua mulher, hoje com 71 anos, vítima da doença. Mas fala pouco de si. O que faz, com quem conversa depois das visitas à casa de saúde onde ela vive há dois anos?
_Vou ver a Vera todos os dias. Quando estou lá procuro tratá-la como se não estivesse doente. Sei que os doentes de Alzheimer têm memórias guardadas, antigas, e por vezes comunicam através de um sorriso ou de um olhar. A Vera não fala, não gesticula, mas por vezes sorri. Por vezes irrita-se. Eu converso com ela como se estivesse tudo normal. Tratar estes doentes como coitadinhos não ajuda. Quando saio de lá, triste, procuro trabalhar muito, ir para a televisão, para a rádio, escrever, pensar no dia seguinte. Pensar, também, nas três filhas que temos em conjunto. Mas houve dias de desespero terrível.

O que aconteceu nesses dias?
_O momento mais cruel foi quando me disseram que não haveria recuperação cognitiva. Restavam duas hipóteses: tirar a Vera dali ou vê-la passar para a ala do internamento prolongado, permanente. Não estava preparado para isso. Quando ela foi internada acreditei que conseguiria recuperar. Não esperava que pudesse fazer uma vida normal, mas que estivesse em casa, ainda que com um cuidador.

Como foi o resto desse dia?
_Fui ter com as minhas filhas, conversámos sobre o que significava o internamento permanente. Duas perceberam, a mais nova não, ficou muito revoltada. Procurei os amigos, alguém que me compreendesse. Conversei muito com a minha produtora e confidente. Percebo agora que há coisas para as quais não sou suficientemente forte.

É normal os familiares dos doentes de Alzheimer receberem acompanhamento.
_Enquanto puder resistir a isso, resisto. Fico pelos amigos.

A Vera está internada há dois anos. Mas os primeiros sinais surgiram quando ela tinha 60. Mais de uma década a cuidar da sua mulher.
_Falo disso num livro que será publicado brevemente. Um livro sobre esses 12 anos, sobre a angústia, a solidão, a raiva, um relato muito forte desses dias e, sobretudo, dessas noites. Nos últimos tempos dela em casa eu não dormia. Chamava por mim várias vezes por noite. Eu era o elo de ligação entre ela e a vida. Havia que resistir ao sono, à solidão, tentar responder às perguntas: «Porquê a nós? Porquê a mim?»

As filhas casadas e com filhos, nas suas casas. Estando sozinho, como era o dia-a-dia?
_Nos primeiros tempos tentei ter dois cuidadores, um para o dia, outro para a noite. Mas a Vera não aceitava, pensava que iriam fazer- lhe mal e batia-lhes. Então tentei cuidar dela sozinho. Passei a levá-la comigo para os eventos, mas ela comia com as mãos, punha as lojas em rebuliço, falava alto em situações que exigiam alguma formalidade. Só a levei para a Casa de Saúde da Idanha quando a permanência da Vera em casa passou a pôr em risco a segurança de todos. Dela e minha. Foi uma decisão muito difícil.

Porque gerou sentimento de culpa?
_Muitos. Quando a deixei, ela ficou aos gritos. E eu quase louco. Foi o pior dia da minha vida. Nunca tinha sofrido tanto, eu que deveria estar precavido: a minha segunda companheira morreu de forma trágica e inesperada de um derrame cerebral. Deixar a Vera na clínica foi um
horror. Todos os dias luto para me libertar destes fantasmas.

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Penaliza-se quando se diverte ou quando se esquece da Vera?
_Agora menos, estou a conseguir desfazer-me desse peso, dessa culpa. Este livro serviu também para exorcizar muitos fantasmas. E também para contar a história da Vera e dar a conhecer essa doença. É um livro que tem essa utilidade, sobretudo para os cuidadores.

O livro expõe a Vera. As filhas acharam bem?
_As nossas três filhas foram colocadas perante o desafio do editor, que queria o livro narrado na primeira pessoa. Não se opuseram, certas de que o livro podia ajudar outras pessoas na mesma situação, outros cuidadores, outros familiares. Não queremos que o livro seja (apenas) uma exposição de vida, mas também conselhos para a vida dos doentes de Alzheimer.

E Vera aprovaria este livro?
_Acredito que sim, embora não gostasse de se expor. Sendo por uma boa causa, certamente não poria grandes obstáculos.

Quanto tempo demorou para o escrever?
_Cerca de um ano. Primeiro fiz um esboço na terceira pessoa, contando uma história, mas depois fui «obrigado» a assumir o protagonismo que não desejava.

Quais foram os primeiros sintomas?
_Esquecimento de palavras e lugares. Troca de palavras. Dar respostas que nada tinham que ver com as perguntas feitas. Andar à minha procura, ir para a porta da rua à espera que eu regressasse dos meus trabalhos. Ser agressiva. Chamava-me nomes. Não se sentir bem no mesmo lugar. Ansiedade. Insónias.

Na fase inicial falaram os dois sobre a doença e como iria evoluir?
_Nunca teve capacidade para entender a doença. Ela sempre pensou que estava doente, mas não conseguia perceber que doença era.

Nessa altura contaram aos vossos amigos ou eles foram-se apercebendo?
_Foram-se apercebendo. Os dela perderam-se quase todos. Nenhum vai vê-la. Os meus amigos, sim, demonstram interesse mas hesitam. Entendo-os. Para eles é mórbido e muito complicado sob o ponto de vista humano. Para ela é indiferente.

E a si, visitam-no?
_Almoço todos os dias com os meus amigos. E vão algumas vezes jantar a minha casa. Come-se, bebe-se um copo. E os vizinhos criticam, é claro. «Uma pouca-vergonha, a mulher tão doente e eles na borga.» Mas também criticam se o jantar é com os meus netos e filhos. E se vai lá uma amiga, ou mais do que uma, então é pior.

Visita-a todos os dias. Por ela ou por si?
_Pelo sentimento de culpa. Por todas as vezes que me zanguei ou fui duro com ela, por não ter feito mais. Não precisava de ir vê-la todos os dias . Podia revezar-me com as filhas. Mas mesmo
que não almoce ou jante, quero ir todos os dias. Também porque quero vê-la e perceber a evolução da doença. Se não for lá sou menos feliz.

E, conta no livro, vive também de pequenos momentos gratificantes dessas visitas.
_Um deles é com a neta, a Maria. Reconheceu-a, sentou-a no colo, abraçou-a. Foi muito bom e todos sorrimos. Mas isso foi-se perdendo, como se perde a vontade de comer, o andar, a fala. Mas ainda recentemente saí de lá com um sorriso enorme na cara. Disse que teria de ir a Oliveira do Hospital apresentar o livro e que ela teria de vir comigo. «Hoje?», perguntou-me. Ganhei o dia, mesmo que no segundo seguinte tenha voltado a ficar indiferente.

A Vera ainda o reconhece?
_Às vezes julgo que sim, Quando ela sorri está a comunicar comigo. Não sorri para as filhas mas sorri para mim. Responde à minha voz. Ela gostava muito da minha voz.

Acha que vale a pena guardar memória de momentos que viveram juntos sabendo que ela não se lembra deles – e nem sempre de si?
_Não tenho prazer em recordar esses tempos. Rememoriar esses tempos é um martírio. Só se for para bem dela. Aí tudo bem. Mas a Vera já não está nessa fase. Só por lapsos de tempo.

Como era a Vera?
_Muito alegre, muito bonita, com muito charme. Lidava com políticos e intelectuais num bar que teve, o João Sebastião Bar. Por vezes ciumenta, capaz de me fazer esperas à porta da rádio.

Como se conheceram?
_Em Lisboa, quando ela veio acompanhar a tia [cantora e atriz, a brasileira de O Pátio das Cantigas]. Chamava-se Maria da Graça e vivia no Brasil. Fiquei enfeitiçado pela sobrinha, que tinha 18 anos. Tentei fazer-lhe a corte, mas recebi sempre oposição da tia, que sabia que eu era casado. Dez anos depois fui ao Brasil fazer uma reportagem e voltei a encontrar a Vera, ainda solteira. Aí perdemos – ou ganhámos – a cabeça e ela deixou tudo para vir ter comigo a Lisboa. Nunca mais nos separámos. Foi uma história de Hollywood.

«Pensei que era alguém e agora entendo que sou nada», disse recentemente. Passar por esta prova tirou sem acrescentar?
_Essa frase não é de facto real. A doença da Vera ensinou-me muito. Sou mais fraterno, mais solidário, mais amigo. Olho para as pessoas e para o universo de outra maneira. Esses foram ganhos importantes.

Passou a pensar a morte de outra maneira?
_Não. Olho para a Vera e esteja como estiver prefiro-a viva. Quanto a mim, posso dizer que a morte deixou de me assustar.

E profissionalmente, quanto perdeu nestes doze anos?
_Nada. Acho até que trabalho mais do que trabalharia se ela estivesse bem. Reformei-me mas pedi para continuar, e fiz bem porque apareceram novos projetos. No Rádio Clube Português, na Rádio Amália, a convite do Luís Montez, e na Sporting TV, com um grande entrevista semanal. E sou comentador desportivo na TVI como trabalho de fundo, que cumpro, quase diariamente, com muito agrado.

Em 1958 começa a carreira a sério, na Emissora Nacional. Como é que um futuro médico acaba na rádio?
_Pouco depois de ter feito o exame de admissão à faculdade, os meus pais divorciaram-se e eu arranjei um emprego que permitisse ajudar a minha mãe. Parei de estudar, empreguei-me no Ministério da Economia, mas frequentava à noite o Instituto Britânico e a Alliance Française. Uma bolsa do Instituto Britânico permitiu-me uma estada em Cambridge e, regressado, concorri ao Secretariado Nacional de Informação, uma coisa do Estado Novo mas que dava acesso à rádio. Para quem apresentava festas e gostava de palco desde o liceu, estava ali uma alternativa. Entrei, fiz umas palestras, uns noticiários e seis meses depois concorri à Emissora Nacional. Uma boa base em línguas, muita lata e voz razoável era meio caminho andado.

Ficou em primeiro lugar nesse concurso de locutores. Quem eram as vedetas da época?
_Jorge Alves, Pedro Moutinho, Artur Agostinho, D. João da Câmara, Maria Leonor, enfim, pesos pesados e vozes extraordinárias. Durante três meses, estagiei com o Artur Agostinho e com o D. João da Câmara. Ligeiro e clássico no mesmo estágio.

Na rádio, ter uma voz é imprescindível ou basta ter uma voz inconfundível?
_Eu acho que é preciso ter uma boa voz. No pós-25 de Abril, as pequenas rádios deram muita gente às grandes emissoras. Vozes fantásticas mas também muitas vozes fraquinhas.

Exemplos de vozes fantásticas?
_Jorge Gabriel, Paulo Garcia, David Borges, Emídio Rangel, José Fragoso, Carlos Andrade. Vozes fantásticas e cultas. Sempre se ouviram disparates na rádio e na televisão, e isso é muito mau.

Tinha 23, 24 anos. Como foi tratado pelas vedetas da época?
_Tinham por mim a consideração que não tinham por outros, é verdade. Eu tinha jeito para tudo, gostava de fazer tudo: programas da manhã, reportagens, noticiários. O Artur Agostinho deu-me a mão, achou que eu era o continuador dele. E eu ganhei muito com isso. Adquiri muito do estilo dele – pau para toda a obra.

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Fez muitas reportagens?
_Muitas. A inauguração da Ponte Salazar, o funeral dele, a visita da rainha de Inglaterra, as visitas dos papas. Fiz muitas em Angola e Moçambique durante a chamada Guerra Colonial, experiência que acabaria por me levar aos relatos de futebol.

Como?
_Vi muita coisa que não queria ter visto. Muitos trabalhos foram cortados pela censura. Em 1965, perguntei ao Artur Agostinho se não haveria outra coisa que eu pudesse fazer. «Só se for futebol», disse ele. Peguei numa máquina de gravar e fui para o campo do Sporting.

Tinha de ser com o Sporting. É sócio desde os 7 meses.
_O meu pai fez-me sócio e vestiu-me a primeira camisola do Sporting com essa idade.

Em miúdo, além de médico quis ser jogador de futebol, guarda-redes.
_Fui um miúdo pouco traquina com uma infância de certo modo complicada. Andei aos saltinhos de casa em casa, porque os meus pais tinham dificuldades. Mouraria, Alto de Santo Amaro, Rua da Madalena, São Domingos de Benfica, Carcavelos, Loures… No Liceu Camões fiz os meus primeiros estudos e era guarda-redes. Depois fui para o Instituto Lusitano [Benfica], voltei ao Camões e andei pelos institutos de línguas estrangeiras. Cheguei a treinar no Desportivo de Loures, como guarda-redes, mas desisti. O meu caminho era outro.

O que disse Artur Agostinho desse primeiro trabalho?
_Não sei se chegou a ouvir, mas marcou um trabalho. Um jogo no Seixal em que faria apenas uns breves minutos. Foi comigo, para comentar a partida, o Aurélio Márcio, jornalista d’A Bola. Com ele sentia-me mais protegido, mas quando o Artur Agostinho me passou a palavra estava uma pilha de nervos. Acho que correu muito mal.

Quem eram os grandes relatadores da altura?
_O maior deles era o Amadeu José de Freitas. Mas havia ainda o Fernando Garcia, o Nuno Brás, o próprio Artur Agostinho e o Carlos Cruz. Quando este começou a relatar mandaram-me para trás da baliza. A reportagem de campo começou aí.

Por que não há mulheres no relato desportivo?
_Havia uma rapariga que sim, gostava. Mas tinha uma voz esganiçada. Não sei como será o relato de um golo feito por uma mulher. Duvido que funcione. A voz feminina aplica-se melhor a outras modalidades.

Não é sobretudo uma questão de hábito?
_É uma questão de hábito e de latinidade. Mas já há grandes mulheres repórteres e comentadoras desportivas. Havemos de lá chegar.

Um relato obriga a um esforço da voz. Como é que a preparava?
_Tive sempre cuidados. Deixei de fumar há 35 anos, bebia, e bebo, pouco álcool e poucas bebidas geladas. E por cada relato bebo quase um litro de água natural. É uma forma de massajar as cordas vocais. Durmo bem e tenho cuidado com os esforços exagerados. Aqueço a voz antes de um esforço maior e tenho a voz colocada, graças ao teatro radiofónico e aos espetáculos em público.

Muitas vezes, o relato é enganador, transmite uma emoção que não existe em campo. Há jogos que provocam sono.
_Por vezes acontece e, nesses casos, convém não exagerar. Não se pode transformar um jogo chato numa partida emocionante. Nos anos 60, não havia, ou havia pouco, futebol na televisão. Era difícil dar conta da monotonia do jogo e do exagero do ralatador. Só quem estivesse no campo. Hoje é diferente.

O relato desportivo utiliza vários bordões. Os brasileiros são mestres, mas em Portugal também há vários exemplos. Não é o seu caso. Foi sempre muito discreto.
_Tenho uma vaidade: nunca copiei ninguém nem gosto de frases feitas. Para mim relatar foi sempre uma reportagem como qualquer outra. «Cortar a bola», «um tiro», «bombear a bola, «comer a relva» são expressões que me desagradam e que nunca usei. Não fazem sentido. A minha escola era mais tradicional, embora emotiva. Sou perfeccionista nunca roubando verdade ao espetáculo.

O relato é uma reportagem?
_Em certa medida, sim. Eu defino-me como repórter, e um repórter não inventa, diz o que está a ver.

Fez com o campeão da exuberância no relato, Jorge Perestrelo, relato a duas vozes. Como era a vossa relação?
_Muito boa, sempre nos entendemos nas nossas diferenças. Ele era um ótimo relatador, e eu, embora não dizendo nem «ó meu» nem «rapaqueca», tinha a mesma velocidade de relato. E por isso combinávamos bem.

O que o incomoda nos relatadores de hoje?
_A monotonia. Oiço na televisão relatos pavorosos, dão sono.

Não há em Portugal uma escola de relato desportivo.
_É pena. Recentemente fui convidado pelo jornalista Nuno Azinheira para dar um curso de Relato Desportivo. Pela primeira vez, fez-se um curso. Apareceram oito pessoas, não é mau. Temos de fazer mais cursos.

Recebeu queixas de jogadores, dirigentes ou adeptos, descontentes com os seus comentários a lances?
_Recordo um caso, nos anos 70. Foi no campo do Sporting, no primeiro jogo do Jordão, depois de lhe terem partido uma perna. Aconteceu que nesse dia partiram-lhe a outra, num lance que o comentador que estava comigo classificou de casual. Foi o fim do mundo. «Casual?!» Bem, os adeptos tentaram invadir a cabina, veio a polícia, foi bastante complicado. Perante a inevitabilidade do linchamento público, a meio da segunda parte mandei o comentador embora, de táxi. Mas no final do jogo viraram-se contra mim. Estava a ver coisa mal parada quando, de repente, um deles diz: «Não batam nesse, que é do Sporting.» E assim escapei.

Nunca se arrependeu de ter revelado a cor clubística? E o que pensa dos jornalistas que acham que não o devem fazer?
_Nunca me arrependi. Toda a gente tem o direito de não gostar de me ouvir relatar um jogo por me achar um mau relatador. Mas não é sério dizer que não gostam de me ouvir por eu ser do Sporting. Eu tenho o direito de ser o que eu quiser. E na política devia ser igual. Diz-se facilmente que se é do PSD ou do PS, mas admite-se com mais dificuldade se se for do PCP ou do Bloco de Esquerda. Eu faço questão de dizer que sou do Sporting porque foi uma coisa que o meu pai me deu. Tenho o cartão de sócio desde os 7 meses – não fazia nenhum sentido esconder ou negar.

Na sua carreira, há um relato mais difícil do que todos os outros?
_A final da Taça UEFA, em Alvalade, treinava a equipa o José Peseiro [2005]. Foi catastrófica.  Ficou-me marcado. Esse e um Sporting-Benfica em que o João Pinto marcou uma data de golos. O Benfica venceu por 6-3 [1993-94]. A minha filha Iara, na altura nadadora do Sporting, estava ao meu lado e de cada vez que eu gritava golo do Benfica a miúda chorava copiosamente.

No dia 26 jogam Benfica e FC Porto. Recorda algum em especial?
_Um jogo no Estádio das Antas, que o Benfica ganhou com golos do César Brito, um jogador que nem nas reservas jogava. Pois ali, naquela tarde, marcou três golos. Foi uma coisa trágica para os portistas. Esse jogo acabou mal, com muita confusão nos balneários. Deu muito que falar. É estranho, mas a animosidade entre FC Porto e Benfica é superior à que existe entre o Benfica e o Sporting. Não se percebe.

Previsões para o jogo de hoje [26 de abril de 2015]?
_É a última oportunidade para o FC Porto. Não tem nem mais uma.

Das duas, qual é melhor equipa?
_O Benfica tem a melhor equipa e o FC Porto os melhores jogadores. O Jorge Jesus conseguiu construir uma equipa forte e determinada. O Lopetegui tem bons jogadores mas ainda não conseguir construir uma equipa verdadeiramente forte. Ressalvo a grande exibição frente ao Bayern de Munique, no Estádio do Dragão, que deixou a eliminatória em aberto para Munique, quando pouca gente pensava que isso seria possível [a entrevista foi realizada antes do jogo da segunda mão, em Munique].

Quantos campeonatos do Mundo e da Europa fez?
_Entre 1974 e 2004 fiz todos.

Histórias desses tempos.
_A melhor é a do 25 de Abril. Em 74, o Sporting jogou a meia-final da Taça das Taças com uma equipa da RDA. O jogo foi exatamente a 24 de abril. O Sporting falhou um qualificação, fomos para o hotel tomar uns vodkas e daí diretamente para os autocarros, eram umas sete da manhã. Connosco estava o embaixador de Portugal na RDA e foi ele quem nos disse que tinha havido uma revolução. João Rocha, o presidente do Sporting, desvalorizou a informação, mas, é claro, criou-se ali um sururu. Já não foi possível regressar a Lisboa porque o aeroporto estava encerrado. Eu fui para Londres, onde a Vera me esperava. A comitiva foi para Madrid. Daí, em autocarro, para Badajoz, e a fronteira foi aberta para deixar passar o Sporting. Eu chegaria depois, a 1 de maio.

E gafes profissionais que iam saindo caras?
_Nos Jogos Olímpicos de Montreal tive uma. No estádio para fazer o relato da eliminatória dos dez mil metros, na qual participava o Carlos Lopes, percebo que não tenho credencial nem hipótese de entrar. Regressei ao hotel e comecei a relatar pela televisão. À frente, seguiam o Carlos Lopes e o finlandês Lasse Viren. Na última volta, a transmissão é interrompida para entrar publicidade. Não morri por acaso. Foram longos segundos a relatar sem ver nada e sem saber o que estava a dizer. No final acabou por correr bem, mas, claro, isto não se deve fazer. Gafes havia muitas.

E pode contar?
_Numa deslocação a Inglaterra, fomos visitar uma destilaria de whisky. Já se está a ver no que deu. Eu ainda consegui fazer o relato – tonto, mas fiz. O jornalista d’A Capital ficou deitado na banheira em estado próximo do coma alcoólico. Não conseguia abrir os olhos, quanto mais escrever. Escrevemos nós por ele. E a crónica lá saiu. Numa deslocação com o Benfica à Alemanha, a equipa seguiu num autocarro, nós noutro, mas o hotel era o mesmo. Acontece que o autocarro do Benfica perdeu-se e fomos os primeiros a chegar à unidade hoteleira, onde uma pequena multidão aguardava os jogadores, de fama internacional. Aberta a porta do autocarro, sai o Amadeu José de Freitas a arrastar a perna tesa. Desce depois o Romeu Correia, que tinha tido poliomielite, e em terceiro vai o Couto dos Santos, que era marreco. Imagine-se a cara dos adeptos ao ver a equipa de sonho estropiada. Foi um momento genial. «Vem tudo magoado?», perguntavam. E eu e o Neves de Sousa, no autocarro, a rir como uns perdidos.

E momentos menos divertidos da sua carreira?
_No 25 de Abril fui muito maltratado pela primeira Comissão de Trabalhadores da Emissora Nacional. Por causa de umas reportagens que fiz em Angola e em Moçambique, suspenderam-me por três meses. Fui considerado colaboracionista com o anterior regime. Fiquei triste. Fui diretamente à direção dizer-lhes que não seriam três meses, mas para sempre. No dia seguinte estava no Rádio Clube Português.

É por essa altura que se zanga com Artur Agostinho.
_Foi um tempo complicado. A Comissão de Trabalhadores do Record reuniu-se numa sessão tremenda para suspender o Artur Agostinho, que era o diretor. Até diziam que tinham descoberto armas no carro dele. Eu era amigo dele, da família, nunca acreditei e fiz questão que ficasse em ata a minha posição – que ele deveria retomar o cargo se nada se provasse contra ele. E nada se provou, mas ele considerando-se traído por alguns amigos no jornal, nunca mais quis regressar. Para lhe poder provar que não o traíra há a ata, mas, para meu espanto, as páginas tinham sido arrancadas. Foi um dos maiores dramas da minha vida: ficar sem prova da minha lealdade para com o Artur Agostinho.

Chegaram a falar sobre isso?
_Nunca mais quis falar comigo sobre o assunto. Ele escreveu um livro em que disse mal de mim. Eu não traí ninguém, era absolutamente incapaz de o fazer. E por isso fico tão triste, mas conformado, embora saiba que quando o ser humano quer ser mau nada o segura.

E sobre o futuro?
_Fico satisfeito em saber que continuo a merecer a confiança da TVI. Não é fácil uma pessoa de cabelos brancos manter-se na televisão e estou grato por não estar no rol dos que já não prestam. E fiquei feliz com a criação da Sporting TV, posto de trabalho para muita gente. Com quase 60 anos de carreira, estou tranquilo. Os últimos 40 foram partilhados entre o trabalho e a Vera. Mas a Vera deu-me três filhas.

Alexandra Tavares-Teles
Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens