OPINIÃO

Perfeitamente imperfeitos

A inclusão de manequins que não obedecem aos cânones está a revolucionar a moda internacional.

Um grupo de modelos com corpos que desafiam os padrões de beleza convencionais está apostado em revolucionar a forma como definimos o que é belo. Não apenas nas passerelles, mas também na vida. Estes são alguns dos nomes que estão a mudar a indústria mais «perfeita» do mundo.

«Zebra.» «Vaca.» Chantelle Brown- Young, hoje conhecida como Winnie Harlow, passou grande parte da infância a ouvir estas palavras. De vítima de bullying, não tardou a ocupar o papel de agressora, como já admitiu. «Achei que mais valia estar do outro lado», assume, com um à-vontade raro numa jovem de 21 anos. Chantelle está habituada a ser o centro das atenções: é uma das modelos mais em voga do momento, escolhida por marcas como Diesel ou Desigual para protagonizar as suas campanhas, apontada como a nova namorada de Nick Cannon, ex-marido de Mariah Carey, adorada pelos seus seguidores online, quase um milhão, só no Instagram.

Muito antes de chegar à fama, Chantelle já conhecia a sensação de atrair todos os olhares: sofre de vitiligo desde os 4 anos. Na prática, isso significa que tem a pele negra coberta por manchas brancas, um pouco por todo o corpo. É uma doença rodeada ainda de muitas dúvidas e nem mesmo a comunidade científica é unânime quanto às suas causas. Na vida de Chantelle, esse desconhecimento foi (e é), muitas vezes, sinónimo de preconceito.

Como é que a miúda sem amigos, que entre os 16 e os 17 anos, deprimida, optou por deixar o liceu, se transformou na poderosa, popular e aparentemente superconfiante Winnie Harlow? «A dada altura, pensei: “Vou continuar a dizer a mim mesma que sou bonita até me sentir bonita.” E aconteceu.» Esta é uma forma simples de contar a história. Pelo caminho, Chantelle foi descoberta por uma fotógrafa – até lá, a ideia de ser modelo nunca lhe passara pela cabeça – e, mais tarde, por Tyra Banks, modelo e apresentadora do popular concurso America’s Next Top Model, que, em 2014, a convenceu a competir por um lugar no pódio depois de ver as suas imagens no Instagram. Chantelle não venceu, mas os contactos dispararam desde então. Marcas como a Desigual, designers como o londrino Ashish, fotógrafos como Nick Knight e revistas como a Ebony são alguns dos nomes a que já se associou, sob o título artístico de Winnie Harlow. Não é que o bullying tenha acabado. «Ainda recebo comentários que dizem que sou uma leprosa, que controlo as alterações da minha pele, que a descoloro, que está queimada», disse ao The Guardian, em fevereiro. Mas Winnie, ao contrário de Chantelle, já não liga muito aos que a comparam a uma vaca ou uma zebra. Winnie Harlow é, dizem, «uma chita». E tem orgulho nisso.

Depois de um começo tímido, marcado pela chegada, nos últimos anos, das curvas generosas das chamadas modelos plus size, é cada vez mais difícil ignorar a mudança na forma como definimos o conceito de beleza. E Winnie Harlow é apenas um dos vários nomes com que se conta esta história.

NM1221_Comportamento05

A australiana Madeline Stuart, de 18 anos, tornou-se em setembro a primeira modelo e a segunda mulher com síndrome de Down a desfilar na New York Fashion Week (a primeira fora a atriz Jamie Brewer). Para chegar até aqui, Madeline perdeu vinte quilos, graças a uma dieta cuidada e muito exercício físico, e teve a ajuda da mãe, que é também sua manager. Pelo caminho, foi assinando contratos com marcas como a Glossgirl, uma empresa californiana de cosméticos, e a Manifesta, uma marca de roupa de desporto norte-americana conhecida por promover campanhas a favor de uma imagem positiva do corpo e por desenhar roupa para mulheres que vestem tamanhos plus size. «Durante anos, a Madeline lutou contra as dificuldades, internas e externas, que acompanham a síndrome de Down», revelou a marca no seu site, celebrando a parceria. «Através de dança, natação e cheerleading, trabalhou para fortalecer o seu coração e o seu corpo. E através da sua carreira de modelo forçou muitos a reconsiderarem os padrões convencionais de beleza.»

NM1221_Comportamento03

O conceito de beleza pode depender da época e do lugar, mas numa sociedade cada vez mais global, os ideais têm tendência a tornar-se perigosamente semelhantes. E, ainda assim, ou talvez por isso, a diferença sobressai como fascinante. Shaun Ross é um bom exemplo. Com 24 anos, o modelo norte-americano combina os traços africanos com cabelos loiros e olhos verdes próprios do albinismo. A condição congénita, caraterizada pela ausência de pigmentação na pele, nos olhos e no cabelo devido a uma deficiência na produção de melanina, é rara, o que a torna também objeto de curiosidade e fonte de mitos. Depois de desfilar para nomes como Alexander McQueen e Givenchy, protagonizar editoriais na GQ britânica, na Vogue italiana e na Paper e figurar nos vídeos de Katy Perry, Beyoncé e Lana Del Rey, Shaun, que também entrou no concurso America’s Next Top Model, tornou-se um ícone de estilo respeitado. E está a aproveitar a fama para ajudar a mudar o mundo. «Não quero erguer-me apenas por eles [albinos vítimas de ataques e assassinados na Tanzânia, por superstição], mas por todos os que se sentem “diferentes” no mundo. Quero mudar a forma como a beleza é vista», escreveu o jovem modelo, na revista People. Em paralelo, criou o movimento In My Skin I Win, que incentiva as pessoas a utilizarem a hashtag nas redes sociais, baseando-se na ideia de que «a beleza és tu e o que fazes com a confiança que tens no teu corpo perfeitamente imperfeito. Juntos, encorajamos outros a amar o que veem quando olham para si mesmos».

É nisto que acredita Rebekah Marine, conhecida como a «modelo biónica». Tem 28 anos e nasceu sem o antebraço direito, o que levou a que passasse a juventude a ser recusada em todas as agências de modelos, o que a afetou profundamente. Foi apenas em 2011, quando começou a usar uma prótese de tecnologia avançada, que recuperou a confiança necessária para voltar aos castings. Desde então, entre outros trabalhos, apareceu em revistas como a People, a US Weekly, a Cosmopolitan e a Teen Vogue, no catálogo de 2015 da Nordstrom, nas passerelles da Mercedes-Benz Fashion Week outono 2015 e New York Fashion Week primavera-verão 2016. «É muitíssimo importante incluir mais modelos diferentes porque, afinal, quase uma em cinco pessoas na América têm uma incapacidade. Devíamos estar a celebrar a diversidade em vez de nos conformarmos com o que os media pensam que é belo», disse a modelo à Mashable.

NM1221_Comportamento02

A diversidade nem sempre surge na forma de uma incapacidade ou condição física. Por vezes, isso implica tão simplesmente aceitar a beleza sem religião ou idade. Como Mirah Idrissi, a londrina de 23 anos com raízes paquistanesas e marroquinas que se tornou a primeiro modelo a usar uma hijab numa campanha da H&M, lançada no final do mês passado. Ou Carmen Dell’Orefice, que, aos 84 anos, ostenta o título de «supermodelo mais velha do mundo». Carmen pode orgulhar-se de uma carreira de sete décadas, inaugurada com uma capa para a Vogue aos 15 anos. À New You, revista de que fez capa, em fevereiro deste ano, a norte-americana confessou que tem trabalhado mais nos últimos 25 anos do que em toda a vida, associando-se a marcas como Rolex, Missione, Jean-Paul Gaultier e Thierry Mugler, desfilando nos grandes eventos de moda internacionais. Também ela acredita que a moda deve abrir-se à diversidade: «Existe apenas uma flor? Por favor! Vendem às pessoas uma certa ideia de beleza e elas menorizam-se porque não têm essa aparência ou porque não podem vestir-se de certa forma», disse ao The Straits Times, quando da sua participação nas passerelles da Digital Fashion Week, no ano passado, em Singapura. Modelos como estes podem estar a ajudar a mudar a história da moda – e do mundo –, mas quão profunda é, afinal, esta mudança? Daniel Mergulhão, diretor de fotografia da GO Models Lisboa, é um dos que acreditam que, mais do que moda passageira, estamos perante uma nova tendência. «É uma forma de a moda apontar para novos caminhos, o que é sempre bom. No entanto, ainda não vinga em Portugal porque o nosso mercado é mais pequeno.» A exceção, continua o fotógrafo, são as modelos XL, «que já têm alguma visibilidade no mercado nacional porque já existe massa crítica». Também na Face Models a diversidade não é novidade: tem um departamento que agencia pessoas «independentemente da idade ou da forma física, quer seja para publicidade, moda ou representação», explica Pedro Alves, booker e diretor da agência. Já Elsa Gervásio, diretora da L’Agence, tem outra opinião: «Não acho que esta seja uma tendência, apenas uma mensagem ao mercado de determinada marca.»
Enquanto a indústria ainda observa com dúvidas os novos modelos, as redes sociais converteram-se na maior passerelle do mundo, onde o público aplaude a diversidade e redefine conceitos de beleza. Sem idade, sexo, cor, tamanho ou religião.

Laura Patrício
Fotografia de Corbis