OPINIÃO

Os filhos não são propriedade nossa

Os pais devem dar às crianças margem para errar, avisa Shefali Tsabary.

Os pais educam – e mandam. Os filhos obedecem. Mas este modelo hierárquico não é a forma mais acertada de exercer a parentalidade, defende a terapeuta familiar Shefali Tsabary. A família tem de crescer em conjunto.

QUEM É SHEFALI TSABARY?
Doutorada em Psicologia Clínica pela Universidade de Columbia, Nova Iorque, é autora, terapeuta e conferencista de renome mundial na área da parentalidade consciente. Natural da Índia, integra no seu trabalho a filosofia oriental de mindfulness com os princípios da psicologia ocidental, o que lhe permite falar aos pais de todo o mundo. Pais Conscientes (ed. Pergaminho) é o seu livro mais recente.

Diz que disciplinar por reação é preguiçoso, assim como punir os filhos por nos desafiarem. Por outro lado, insta os pais a estabelecerem limites e a não permitirem que sejam quebrados. Como se consegue este equilíbrio?
_Disciplina não tem nada que ver com reatividade. Quando os pais reagem, estão eles próprios fora de controlo, guiados pela irracionalidade. Esta é a forma preguiçosa de se fazer as coisas, a disciplina convertida em puro castigo vingativo, que não ensina a ser uma pessoa autodisciplinada. Já um limite requer respeito, nada de explosões de fúria que desconsideram um filho. Temos de saber respeitar primeiro se queremos ser respeitados e isto é algo que uma criança aprende por osmose – ela vai escolhendo os seus limites pela forma como a família funciona em todas as suas conexões. Se nos faltar ao respeito, não vamos nós ser ainda piores e esmagar-lhe a autoestima. Simplesmente não reagimos, nalgumas situações talvez até possamos afastar-nos, mas sem nunca nos distanciarmos emocionalmente. A abordagem consciente à disciplina depende da nossa capacidade de exercermos uma presença real com os nossos filhos.

De que modo se cria uma criança para ser simultaneamente bem-educada e verdadeira consigo mesma?
_Sermos verdadeiros connosco é sermos bem-educados. As crianças portam-se mal se são inverdadeiras consigo – quando as forçamos a algo que queremos que sejam, projetando nelas os nossos desejos. Mau comportamento é sinal de que alguém não se sente valorizado, merecedor e profundamente ligado. Resulta de não nos sentirmos bem connosco, que é uma coisa que os pais estão sempre a infligir às crianças: fazem-nas sentir mal por pormenores sem importância, como entornar o leite, e elas interiorizam isso em coisas maiores, acabando por assumir um comportamento que as afasta de quem realmente são. Além de que uma criança ser fiel a si mesma é completamente diferente de ser narcisista. Promover a autenticidade não é cultivar o narcisismo.

Sintonizarmo-nos com um filho exige grande capacidade de autoconfronto. É isto o mais difícil na parentalidade consciente? Pelo que revela de mim no processo?
_O autoconfronto é a chave de uma parentalidade efetiva e pode ser incrivelmente doloroso. Faz-nos olhar para as nossas carências pessoais, responsáveis pelo desejo de controlar e moldar os filhos à nossa imagem em vez de os apoiarmos em serem autênticos. O nosso comportamento descontrolado não faz nada para acalmar e centrar uma criança, antes lhe reforça a reatividade: se formos firmes, pacientes, gentis e calmos a lidar com a petulância, o efeito é diferente de quando um pai fica ansioso face às situações, intimidado pelo filho, e reage a quente. É um caso de centramento vs. drama na cabeça. À medida que sentimos as emoções desenrolarem-se, precisamos de ter a coragem de parar para refletir antes de filtrar a resposta que nos vai permitir evoluir como pessoas e ajudar os nossos filhos a evoluírem também. É esta a melhor forma de ajudá-los a crescerem fiéis a si mesmos…

Apoiando-nos no facto de o crescimento deles espelhar a nossa (i)maturidade?
_Claro. Enfrentar os nossos pontos fracos sé meio caminho andado para lhes mostrarmos como se dá o desenvolvimento pessoal. As crianças não necessitam de ser postas na linha para estarem em conformidade com os pressupostos que temos de como as coisas devem ser. Apenas precisam que as apoiemos sem impor juízos nem interpretações ao seu comportamento, no sentido de desenvolverem o seu próprio potencial. Quanto mais aperfeiçoarmos esta aptidão de encarar a vida como ela é, sem rotularmos de bom ou mau o que sucede, mais os filhos podem fazer birras sem nos provocarem e mais nós podemos
corrigir-lhes o comportamento sem despejarmos neles ressentimentos, culpas, medos ou desconfianças residuais nossas.

O que é preciso para sermos pais totalmente presentes?
_Tem tudo que ver com estarmos conscientes de nós próprios, do nosso ambiente, das nossas crianças. Essa consciência permite-nos encarar as pessoas e as situações como são, não como gostaríamos que fossem, e então abandonar o controlo inerente a uma abordagem hierárquica entre pais e filhos. É importante separar quem somos da pessoa única que é cada filho: só assim saberemos criá-los respeitando as suas necessidades, em lugar de tentarmos acomodá-los às nossas. Na hora de disciplinar, tem de ser a consciência a mostrar-nos como devemos agir para incentivar o espírito dos miúdos, sem diminuí-los por querermos impor-lhes a visão que temos para eles. Os filhos pagam um preço muito alto quando julgamos serem propriedade nossa.

É uma viagem interminável, esta da parentalidade?
_Dado que nunca cheguei ao fim do caminho – se é que existe algum – não faço ideia. E não estou a ser facciosa, apenas a ir ao cerne da questão: a parentalidade tem a ver com este momento que vivemos agora, não com projeções futuras. Não sei o que a minha filha fará com a sua vida, no que se tornará. Os adultos gostam de perguntar: «O que queres ser quando fores grande?» E alguns miúdos até sabem cedo o que responder, mas a maioria muda de interesses enquanto cresce – hoje futebolista, amanhã modelo, depois de amanhã piloto de aviões. O meu objetivo é ajudar a minha filha a aproximar-se da vida com o coração, mantendo-se verdadeira à pessoa que vai descobrindo ser. O resto resolve-se por si, com presença e consciência, cada novo momento erguido sobre o anterior.

Como facilitar a aprendizagem das crianças – e a nossa como pais daí decorrente?
_Em primeiro lugar, os pais não devem correr a salvar uma criança – a menos que haja perigo, obviamente. Deixem-na aprender com as consequências, como fazemos em adultos. Se estiverem atrasadas e perderem a sessão de cinema ou o autocarro para a escola, aprenderão a não se atrasar da próxima vez. Deem-lhes alguma margem para errar. Acima de tudo, permitam-lhe aprender com a relação de causa e efeito, sem confundir consequência com castigo puro e duro. Trata-se aqui de permitir situações que a ensinem e de nos mantermos afastados, nada de «eu avisei-te» ou «bem te disse que isso ia acontecer». Os miúdos são espertos. Aprendem se não estivermos constantemente a pregar-lhes sermões.

A criança perfeita existe? Ou a família perfeita?
_Existe alguém perfeito no mundo? Se fizéssemos tudo perfeito seria um aborrecimento, lá se iam os desafios, a aprendizagem, a excitação… No Sermão da Montanha, quando Jesus diz «sê perfeito», a expressão refere-se a maturidade, não à perfeição. Tem tudo que ver com crescimento – a ênfase em sermos gentis, carinhosos, capazes de perdoar, e não em sermos críticos, juízes ou moralistas. O segredo é ligarmo-nos aos outros a partir do coração e apreciar essa união. É isso que a maturidade nos traz, em vez de reagirmos aos outros com dramatismo.

Por que razão «bons miúdos» se tornam adolescentes rebeldes?
_Crianças obedientes são consideradas bons miúdos, mas obediência não é o mesmo que ser-se autodisciplinado: quando na adolescência o sentido de liberdade e individualidade vem ao de cima, sublimado por hormonas furiosas, é provável que queiram impor-se, sobretudo se foram reprimidos durante anos. Se mais uma vez tentarmos esmagar a sua expressão mais autêntica, cuidado! Precisamos de redefinir a ideia de bom miúdo. A meu ver, são as crianças honestas consigo, que não abdicam da sua verdade para nos agradar a qualquer custo. Assumem os seus sonhos e esperanças, os seus interesses, os seus dons. Um filho entra na nossa vida para nos ajudar a ter noção do quanto ainda nos falta crescer. A nós cabe-nos a tarefa de ajudá-lo a encontrar dentro de si a força emocional para se tornar autónomo e resiliente.

Quais são os erros mais comuns que cometemos enquanto pais?
_Pedimos-lhes que sejam sempre excelentes porque isso nos faz sentir especiais. Se gostamos de basquetebol, eles devem não só adorar a modalidade, mas ser estrelas. Se somos médicos, então irão seguir as nossas pisadas. O filme Billy Elliot é o exemplo perfeito de um rapaz que adorava dançar – estava-lhe no sangue, nos genes – e tinha um pai empenhado em cortar-lhe as asas por não entender o dom do filho. Mais do que permitir, devemos encorajar as nossas crianças a lutar pela própria felicidade, não pela nossa. E dar-lhes tempo de florescerem ao seu ritmo, sem as pressionarmos. A ênfase que pomos em terem as notas máximas, em serem as melhores em tudo, faz que aprendam que quem elas são, tal como são, não chega. E é importante aliviá-las das nossas expetativas para que possam alcançar outras surgidas do seu próprio centro.

O que é que as crianças mais querem/apreciam que o dinheiro não pode comprar?
_Querem sentir-se ligadas a nós, saber que serão sempre aceites independentemente do que fizerem. Querem saber que as amamos exatamente como são, que as abraçamos sem querer mudar nada nelas. Querem sentir-se bem por dentro, bem com elas. Sentir-se autorizadas a seguir os seus próprios interesses e amizades, e ver-nos rejubilar com a sua singularidade. Querem saber que nunca terão necessidade de ser perdoadas porque no nosso coração as apoiamos sempre, mesmo quando entram em becos sem saída ou cometem erros graves. Elas sabem que somos uma equipa. Aconteça o que acontecer, estamos cá uns para os outros.

Ana Pago
Fotografia: Ana Elena