OPINIÃO

Os bebés já nascem a pensar

Quem o diz é Eduardo Sá.

E diz mais: são acutilantes, participativos e fazedores de opinião. O Babylab, um projeto seu na Universidade de Coimbra, foi criado com o objetivo de promover a saúde mental desde a gestação e de levar os pais a perceberem melhor as criaturas que acabam de trazer ao mundo.

QUEM É EDUARDO SÁ?

Psicólogo, psicanalista, professor de Psicologia Clínica da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e do Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida (ISPA), é autor de livros sobre pais e filhos e um dos mais reconhecidos especialistas em bebés, crianças e adolescentes. Há um ano, criou o Babylab, Laboratório de Psicologia do Bebé da Universidade de Coimbra, que dirige.

É verdade que os bebés já nascem a falar e que pensam e comunicam ainda na barriga da mãe?
_É verdade. E não só já nascem a falar como já nascem a pensar, ao contrário do que se supunha quando se imaginava que eram uma espécie de tubo digestivo com um cérebro acoplado e que reagiam unicamente em função de necessidades básicas como a fome. Por outras palavras, os bebés, já no útero, reagem e comunicam, se bem que o façam por ritmos, movimentos ou comportamentos, ora mais atípicos ora mais padronizados. Isto é, quando se dá o nascimento obstétrico, o bebé e a mãe não são ilustres desconhecidos.

O bebé estabelece um elo emocional com a mãe durante o período de gestação?
_Sim. É claro que há uma diferença entre produzir pensamentos e ter, em função deles, movimentos intencionais e escolhas discriminativas, e discorrer acerca daquilo que se sente. É importante que se perceba que, apesar de não conseguir evocar episódios da sua vida uterina e neonatal, estes têm uma preponderância grande na determinação dos primeiros meses de vida de um bebé, quer no modo como reagem à mãe quer na forma como modulam e estabilizam as experiências que vivem, em função da experiência que acumularam até aí.

A forma como a mãe vive a gravidez é determinante para o desenvolvimento emocional do bebé?
_Poderemos chegar a algumas combinações inequívocas: melhores gravidezes, melhores bebés e melhores pais. Ou, se preferir, melhores bebés, crescimento mais saudável e, inevitavelmente, bebés mais felizes e mais inteligentes. Atualmente, ficamos horrorizados com os maus-tratos a que os bebés foram sobrevivendo com sequelas de comportamento, para toda a vida, quando eram enfaixados e não podiam movimentar-se ou quando sofriam da negligência própria de quem os desconhecia e, em consequência, os maltratava. Por isso, devemos orgulhar-nos dos avanços imensos que fomos fazendo nos cuidados precoces que eles merecem. Ainda assim, a saúde mental do bebé está longe de ter a atenção que devia nas maternidades.

Quanto à comunicação propriamente dita, os bebés colocam questões e esperam respostas ou querem apenas ser entendidos?
_Os bebés comunicam e quer seja quando olham, de forma atenta e perscrutante, ou quando respondem aos nossos desafios comunicativos, com um olhar, uma vocalização ou o modo como torcem o punho, por exemplo, tanto lançam a comunicação como esperam ser respondidos. Acontece que os pais e as mães são, muitas vezes, demasiado ansiosos. E, em vez de contarem até 10 depois de dizer: «Olá bebé!», dando-lhe tempo para descodificar a intenção e o conteúdo comunicativos e possa responder, lançam logo um: «Então? Não dizes nada?» Ora, os bebés são pequeninos mas também têm o seu brio. E isso esmorece-os.

Existe então um tempo e um ritmo que os pais e quem os rodeia devem ter em conta?
_Claro. O estímulo é importante, mas com regras. A verdade é que quanto mais conversadores são os bebés, mais se sentem escutados com o coração. Por isso, sentem-se mais amados, mais seguros de si e serão mais «dados», mais comunicativos, mais versáteis e mais inteligentes. Contudo, se não faz sentido que os pais os estimulem com o único intuito de os tornar superbebés, porque essa avidez os assusta e os inibe, também é absurda a ideia de que «tudo se cria» e há que ter em conta que realmente exigem muito tempo, muito trabalho e cabeças de mãe e de pai «arrumadinhas» e «arejadas».

Os pais sempre comunicaram com os bebés, quer antes quer depois de nascerem. Não estavam a fazê-lo de forma correta?
_Muitas vezes não. Mas a diferença está em como hoje podemos perceber o modo preciosíssimo como eles distinguem o bem do mal, como lidam com a cor ou com raciocínios mais complexos. De facto, os bebés só não se ajeitam mesmo é com as palavras… Por isso, seria exigível que os considerássemos cidadãos de pleno direito, quando se trata de colocarmos objeções à lei, por exemplo, sobre «barrigas de aluguer». Ou ainda aos maus-tratos que alguns sofrem, dentro e fora do útero, e, ainda assim, têm de esperar – muito além do que é saudável para que o seu desenvolvimento não se dê com danos – para que sejam adotados.

Está a dizer que, desde o útero da mãe, o bebé pode sofrer danos emocionais irreversíveis?
_Já reparou, por exemplo, como os bebés prematuros (mesmo os grandes prematuros) são sensíveis à estimulação da mãe e reagem a ela? Já viu que, em circunstâncias normais, estes bebés, que serão fetos fora do útero, são mais ou menos «vivos», mais ou menos comunicativos, mais ou menos deprimidos, consoante a qualidade, a coerência e a constância dessa comunicação? Já viu que há bebés, com um desenvolvimento neurológico ótimo, que recusam o seio da sua mãe e parecem inibir uma resposta reflexa enquanto a desbloqueiam com outra mulher sempre que sentem a mãe muito tensa ou muito deprimida, evitando uma relação que, circunstancialmente, os assusta?

Foi por tudo isto que nasceu a ideia de criar o Babylab – Laboratório de Psicologia do Bebé?
_A ideia do Babylab nasceu para fazer convergir toda a investigação clínica com mães, pais e bebés, que realizo desde há quase trinta anos, com as investigações mais experimentais que se fazem um pouco por todo o mundo. Mas tentando ir mais longe: este Babylab pretende ligar a investigação empírica que a psicanálise foi realizando ao longo de muitos anos com a investigação clínica de alguma pediatria e com a investigação experimental mais recente.

E consiste exatamente em quê?
_Ligar a investigação com a formação dos pais e dos técnicos e tentar fazer que a saúde mental do bebé seja muito mais cuidada. Ao cruzar neurociências e psicologia estamos, no Babylab, na confluência de inúmeras investigações de áreas científicas adjacentes, a recolher as mais-valias que isso pode trazer para os técnicos, nos procedimentos de rotina que têm com os bebés, e para os pais, que podem encontrar aqui o «livro de instruções» com que os bebés não vêm equipados.

Como são selecionados os bebés e as famílias para serem estudados?
_Os pais podem ir diretamente com os seus bebés ao Babylab, para que sejam avaliados, ou os bebés chegam-nos através das parcerias com centros de saúde, maternidades e outras escolas universitárias.

Recorrendo ao Babylab, os pais ficam habilitados com algum tipo de ferramentas que lhes permitem identificar a linguagem dos seus bebés e como comunicar com eles?
_Claro que sim. Podendo ter uma avaliação muito precoce dos seus bebés, poderão não só ter uma ideia precisa das suas competências, nesse momento de avaliação, e das áreas que poderão estimular, como dos estados emocionais que prevalecem neles, com tudo o que esse conhecimento lhes permitirá poupar em «dores de cabeça», se forem ajudados a lidar com eles de forma ponderada e adequada.

De que forma tudo isso contribui para a boa saúde mental do bebé?
_Pais esclarecidos acerca daquilo que se passa com o seu bebé são, seguramente, melhores pais. Em primeiro lugar, porque não se sentem a confabular sobre receios e dúvidas que, na maioria das vezes, os assustam e lhes limitam o «sexto sentido». Em segundo lugar, porque devidamente educados para o modo como falam com o bebé, ou acerca de como devem adequar o seu amor aos ritmos, necessidades, mudanças e rotinas dos bebés, lidam com eles de forma mais serena, firme e esclarecida. Em terceiro lugar, porque pais e mães sintonizados dão um mínimo denominador comum às funções da mãe e do pai que trazem contraditório e pluralidade ao desenvolvimento do bebé, tornando-o mais versátil e mais acutilante. Finalmente, podendo perceber como ele está a desenvolver-se ou a sentir serão, seguramente, mais adequados e mais tranquilos no  modo como promovem as transformações com as quais ele cresce mais, melhor e de forma mais feliz.

Acredita que passará a olhar-se para a maternidade de outra forma, sobretudo na altura da gestação?
_Não tenho dúvidas de que sim. Não no sentido de retirarmos a magia à gravidez, mas no de perceber, com urgência, que não há gravidezes «normais», minuciosamente planeadas, sem sobressaltos emocionais, sem questões amorosas, sem preocupações com a saúde do bebé ou sem medos e fantasias resultantes de histórias gravídicas ou episódios ginecológicos anteriores. Todas as gravidezes têm uma mãe e um pai que não engravidam ao mesmo tempo, que, muitas vezes, estão mais grávidos por fora do que por dentro, ao contrário do que desejariam, que não estão sempre tão apaixonados um pelo outro ou pelo próprio bebé como teriam querido e toda essa complexidade de estados passa, regra geral, à margem de uma história obstétrica ou de uma ecografia e manifesta-se, grande parte das vezes, por queixas físicas tão encriptadas que quase ninguém as entende, com tudo o que isso tem de penoso para a saúde mental do feto e dos pais.

Estarão os novos pais preparados para lidar com mais este desafio?
_Estão, seguramente, muito mais preparados que alguns técnicos de saúde que, quase sem darem por isso, foram valorizando muito mais os aspetos técnicos da sua profissão do que as suas qualificações clínicas.

Como poderão os pais contactar com o Babybab?
_Podem escrever para o e-mail babylab.uc@gmail.com. Podem partilhar as dúvidas que têm por mais (aparentemente) «ridículas» que lhes possam parecer e encontrar, para elas, as «legendas» que talvez não imaginassem ter.

Licínia Girão
Fotografia: Reinaldo Rodrigues/Global Imagens