OPINIÃO

O Verão Quente foi há quarenta anos

Muitos portugueses viajaram, pela primeira vez, para o Algarve...

O que faziam os portugueses nos intervalos das manifestações, comícios, greves, conspirações, reuniões partidárias, pinturas de murais, ocupações de terras, casas e empresas que marcaram aqueles meses em pleno período revolucionário em curso (PREC)?

O verão de 1975 foi escaldante. Durante dias a fio, sobretudo em julho e agosto, os termómetros subiram acima dos 35 graus, as florestas (incluindo a serra de Sintra, a sul, e a serra da Agrela, a norte) foram pasto de chamas e os portugueses debandaram em massa para as praias. Só no segundo fim de semana de julho, cerca de meio milhão de pessoas, vindas de Lisboa e arredores, invadiram os areais da Costa de Caparica, provocando engarrafamentos de mais de duas horas nos acessos à Ponte 25 de Abril e filas intermináveis nas paragens de autocarros da Praça de Espanha e de Alcântara, com zaragatas e desmaios. A água faltava com frequência e, nas cidades, a população procurava abrigo e algum conforto nas sombras dos jardins.

A 13 de agosto, o Diário de Notícias noticiava «145 casos de cólera na região do Porto» e no dia seguinte «Rigorosas medidas da Direção-Geral de Saúde para controlar o surto de cólera». Nos jornais, televisão e rádio, alertava-se: «Atenção à cólera. Cuidado com as moscas! Resguarde os alimentos.» E ensinava- se a deitar duas gotas de lixívia num litro de água para lavar a fruta e os legumes.

Mas não foi por isso que esses meses de há quarenta anos passaram à história como o «Verão Quente». O clima político que então se vivia tinha mortos e feridos, títulos incendiários nos jornais e… em país à beira da guerra civil. Apesar de tudo, Portugal sobreviveu ao PREC (processo revolucionário em curso). Mas atravessar o Verão Quente sem esbarrar na política, isso era missão (quase) impossível.

Que o diga a noiva da Bobadela que, com casamento marcado para Moscavide, esteve em risco de ficar solteira porque a boda calhou num dia de barricadas e piquetes. Valeu-lhe a compreensão dos militares, que se prontificaram a abrir caminho com um blindado. A história vem no Diário de Notícias de 21 de julho: «A noiva foi escoltada por um Chaimite».

NA TELEVISÃO
Programação do horário nobre do primeiro canal da RTP do dia 6 de agosto de 1975: 20h30 Telejornal. 21h05 História da TV Cubana. 21h30 Temas e Problemas: «América Latina, as condições próprias para o ser humano». 22h00 Departamento de Programas Recreativos e Musicais: Folclore búlgaro. 23h00 Telejornal.

Também havia séries de ação, como Os Quatro do Blindado e o Seu Cão, uma série polaca passada na Segunda Guerra Mundial. E o Cinema de Animação, de Vasco Granja, com o qual toda uma geração de crianças aprendeu o significado de koniec («fim» em polaco), a palavra mais aguardada porque antecedia o Porky Pig ou o Buggs Bunny. Os desenhos animados norte-americanos só passavam depois de uma dose de produções oriundas dos então países socialistas.

Apesar da monotonia do preto e branco, o detetive Columbo (Peter Falk) ou os Monthy Python, com Os Malucos do Circo, eram lufadas de ar fresco. Como o era também o programa de entretenimento Nicolau no País das Maravilhas, que revelou Herman José no dueto «Senhor Feliz e Senhor Contente», ao lado de Nicolau Breyner. Mas o programa acabou em pleno PREC: a linha geral da programação queria à força educar o telespetador, que tinha como única alternativa ao 1.º programa da RTP… o 2.º programa da RTP. Solução? Escapar à lavagem ao cérebro saindo à noite.

NO GRANDE ECRÃ
Desde o ano anterior que os cinemas exploravam sem complexos o filão dos «filmes proibidos». Mas se as salas enchiam para ver O Herói do Ano 2000, de Woody Allen, Artigo 22, de Mike Nichols, os irreverentes Woodstock e Jesus Cristo Superstar ou a «versão integral» de Papillon, os grandes êxitos de bilheteira eram, de longe, os filmes eróticos. A começar em Emmanuelle (meses a fio «em continuação de estreia» no Pathé, em Lisboa, e no Trindade, no Porto), passando por títulos sugestivos como O Cow-Boy Virgem, Você Interessa-Se pela Coisa?, Técnica de Engate, Colchão em Delírio ou Seios da Morte («as dimensões que chocaram o mundo»), para acabar na pornografia pura e dura de Garganta Funda. O «Aviso ao Público: Este Filme Contém Cenas Eventualmente Chocantes» era um íman irresistível.

Outro género muito em voga eram os filmes de artes marciais, com Bruce Lee à cabeça (O Dragão Ataca), seguido por uma longa comitiva de subprodutos, como Heróis do Kung Fu ou O Maneta de Ferro. Houve até uma moda que deu forte mas passou depressa: os filmes indianos. Bobby teve sessões esgotadas durante meses em Lisboa – o maior êxito de Bollywood fora da Ásia e das comunidades oriundas do subcontinente nas ilhas britânicas.

Noutro registo, assinale-se o anúncio para breve da estreia de Benilde ou a Virgem Mãe, de Manoel de Oliveira, com Maria Jesus Barroso

OS LIVROS QUE SE LIAM
Um ano depois do fim da censura, a leitura era outro indicador da esquizofrenia que tomara conta da sociedade: os best sellers dividiam- se entre a política e o sexo. Era frequente encontrar, lado a lado, disputando os primeiros lugares nas listas dos mais vendidos (DN, 5 de junho), A Nossa Luta na Sierra Maestra, de Che Guevara, e Filosofia de Alcova, do Marquês de Sade, ou Conceitos Elementares do Materialismo Histórico, de Marta Harnecker, e as anónimas Memórias Eróticas de Um Burguês. Na página de livros da revista Flama no mesmo mês, Maria Teresa Horta assinava as recensões críticas a O Jardim das Delícias, um Kama Sutra em versão soft; Retalhos da Vida de Um Médico, de Fernando Namora e O Socialismo e o Homem em Cuba: Origens da Estratégia Frentista, de Dimitrov, Estaline e outros.

Na secção «Artes e Letras» do DN, a crítica literária e futura professora catedrática Maria Alzira Seixo dissertava sobre «Os discursos de Vasco Gonçalves. Um capítulo (de ruptura) na história da oratória política em Portugal», enquanto o músico e musicólogo Jorge Lima Barreto assinava «Para uma semiologia pop: Beatles e Rolling Stones».

NOS PALCOS DO TEATRO
Multiplicavam-se grupos independentes, com direito a transmissão das peças pela RTP, caso de Terror e Miséria no III Reich, de Brecht, pela Cornucópia. O público esgotava as revistas do Parque Mayer, como P’ra Trás Mija a Burra, no Teatro ABC, com Ivone Silva, Ribeirinho, Anabela, Joel Branco e Simone de Oliveira, estreada com a presença do presidente da República, Costa Gomes. No Maria Vitória, Florbela Queirós, Henrique Santana, Vítor Mendes e Júlio César apresentavam Até Parece Mentira. E depois de meses em cena na capital, Nicolau Breyner enchia o Sá da Bandeira, no Porto, à frente do elenco de A Gaiola das Loucas. Mas o maior sucesso teatral do Verão Quente foi uma peça que prometia «duas horas a rir» e que se autoproclamava «mais que sexy»: Mostra-me a Tua… Piscina, no Capitólio, com Maria Dulce, Vítor Espadinha e um trio de esculturais inglesas «a atuar na piscina». O Parque Mayer continuava a ser a catedral do teatro popular e a concorrência da «esquerda revisteira» estava no Teatro Adóque (ao Martim Moniz), onde, depois do êxito Pides na Grelha, Francisco Nicholson, Henrique Viana e Ermelinda Duarte apresentavam A Cia. dos Cardeais.

A MÚSICA QUE SE OUVIA
Ermelinda Duarte fora a criadora do maior sucesso musical dos últimos meses. Logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, a atriz participara no elenco de Lisboa 72-74, peça em que cantava Somos Livres. Mais conhecida pelo verso inicial «Uma gaivota voava, voava…», a canção bateu recordes de vendas e foi um fenómeno de popularidade. Mas a insistência com que passava na rádio transformou-se em overdose e deu origem a uma versão que parodiava a letra, concluindo o verso mais célebre com um irreproduzível por extenso «… f.d.p. nunca mais se cansava.» Tocada em doses maciças no Verão Quente foi também Força, Força Companheiro Vasco, de Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo, canção de propaganda ao cada vez mais isolado general pró-comunista que chefiava o efémero V Governo Provisório.

As listas dos discos mais vendidos refletiam a separação entre os consumidores de singles (vinil de 45 rotações, com uma canção de cada lado) e de álbuns (de 33 rotações, também chamados LP, muito mais caros). O elitista top 10 dos álbuns mais vendidos chegou a ser encabeçado por The Lamb Lies Down on Broadway, dos Genesis, que tinha sido apresentado ao vivo em Cascais em dois concertos memoráveis, a 5 e 6 de março daquele ano. «Nunca em Portugal se vira rock de tanta qualidade», segundo o crítico (e músico) Mário Contumélias, no Século Ilustrado. Ou sessões de «tortura voluntária», para o repórter do Diário de Notícias. A lista incluía ainda os Supertramp, Rick Wakeman, José Afonso ou Sérgio Godinho.

No mercado dos singles, esse sim representativo do gosto das «massas populares», as preferências ao longo dos meses de verão começaram por dividir-se entre Camilo Sesto, com Quieres Ser Mi Amante?, Jacky James, Take My Heart; Paulo de Carvalho, O Facho, e Zeca Afonso, Grândola Vila Morena.

Com o passar das semanas, a música nacional foi sendo varrida do hit parade. O público
consagrava Demis Roussos (Perdoname), Juan Pardo (Recuerdos) e Camilo Sesto. O crítico musical da revista Tele Semana, José Niza – autor de canções vencedoras de festivais da RTP e deputado à Assembleia Constituinte pelo PS –, atribuiu o facto à «rejeição provocada pelo autêntico massacre sonoro a que a rádio e a TV submeteram os ouvidos dos portugueses no pós-25 de Abril».

EVENTOS
Um concerto de jazz no Teatro de São Carlos foi um acontecimento. O pianista Bill Evans e o contrabaixista Eddie Gomez encheram o teatro lírico lisboeta, numa organização de Duarte Mendonça e Luís Villas-Boas, o «núcleo duro» do Cascais Jazz que, lá mais para o fim do ano, traria a Portugal uma lenda viva: Charlie Mingus. «Jeans, camisas de manga curta e vestidos ligeiros eram a nota dominante», escreveu o repórter do DN na edição de 18 de julho. «Em contaste flagrante com os smokings e vestidos compridos que se usavam para as noites de ópera, “antigamente”.»

Outro evento marcante foi a visita da cosmonauta soviética Valentina Terechkova. A primeira mulher no espaço foi acompanhada pelos jornais e televisão portugueses desde a chegada ao aeroporto da Portela, a 1 de junho, passando pelas deslocações a Baleizão, no Alentejo, fábricas, cooperativas, sede do PCP e do Movimento Democrático das Mulheres, homenagem pela Força Aérea, receção pelo primeiro-ministro e pelo Presidente da República, até à partida para Moscovo, com o ministro sem pasta Álvaro Cunhal a apresentar cumprimentos de despedida. Ainda no aeroporto, a aterragem do supersónico franco-britânico Concorde, ainda em voos experimentais, foi centro das atenções no dia 16 de junho.

nm1209_verao02
Muitos portugueses viajaram, pela primeira vez, para o Algarve.

FÉRIAS, SOL E PRAIA
Para os lisboetas, a solução mais barata para fugir do calor eram as praias da linha de Cascais e da Costa de Caparica, que rebentaram pelas costuras nos fins de semana de julho. Para tentar reduzir o tempo de espera, as autoridades ordenaram alterações à circulação na Ponte 25 de Abril aos domingos e feriados, facilitando o fluxo do trânsito.

Com exceção dos habitués das praias tradicionais do Norte (Moledo) e do Centro (São Martinho do Porto ou São Pedro de Moel), os mais abonados, de norte a sul, rumaram ao Algarve. Para muitos, foi uma estreia: nunca antes o paraíso de areia branca e água morna, poiso de estrelas internacionais do cinema e da música pop (reza a lenda que foi em Albufeira, em maio de 1965, que o «beatle» Paul McCartney escreveu a versão final de Yesterday), estivera ao seu alcance. No verão de 1975, a instabilidade revolucionária e a desvalorização das moedas europeias, por causa da crise do petróleo, afugentaram os clientes habituais. E os estrangeiros que vieram deixaram de gastar sem olhar aos preços: «Todos reduzem os gastos, à exceção dos alemães, os que, aqui, abrem, com mais entusiasmo, os cordões à bolsa.» (DN, 23 de julho).

Os hotéis não tiveram alternativa senão baixar os preços, tornando-se acessíveis aos turistas nacionais, recebidos de braços abertos como último recurso para enfrentar a crise. O Hotel Baltum, em Albufeira, por exemplo, tomou uma medida drástica: reduziu a diária das suites para 380 escudos (no ano anterior custavam 490).  O Hotel D. João II, propriedade da Torralta (com gestão intervencionada pelo Estado) facilitou o gozo de atividades como passeios a cavalo, e no Hotel Júpiter o acesso à boîte tornou-se mais aberto.

CELEBRIDADES: ELES E ELAS
Uma coisa não mudou nos últimos quarenta anos: famoso é quem aparece na televisão. As celebridades do Verão Quente eram caras conhecidas do grande público que, além da presença frequente no pequeno ecrã, levantavam uma ponta do véu das suas vidas em revistas como a Tele Semana, Crónica Feminina ou Gente. Era o caso da jovem atriz Helena Isabel (ex-finalista do concurso Miss Portugal, fundadora do grupo de teatro Adóque e estrela de Os Bonecreiros), as apresentadoras de TV Ana Zanatti e Maria Elisa, a ex-Miss Portugal Ana Maria Lucas ou, na pujança da maturidade, as atrizes Maria Dulce, protagonista da peça de teatro Mostra-me a tua… piscina, Io Apolloni, Magda Cardoso, Aida Baptista, além das cantoras Simone de Oliveira ou Tonicha.

Carlos Cruz, Fialho Gouveia, Luís Filipe Costa, Joaquim Letria, Fernando Balsinha ou o poeta Ary dos Santos eram os rostos masculinos conhecidos. Na música, Fernando Tordo, Carlos Mendes, Fernando Girão (dono do vozeirão do anúncio à Regisconta, «Aquela máquinaaaa!») e Paulo de Carvalho (que além dos êxitos musicais era a celebérrima voz do anúncio ao vermute Martini) eram rostos inconfundíveis. Além dos politicamente muito marcados José Afonso, Sérgio Godinho, José Mário Branco, Adriano Correia de Oliveira, Luís Cília ou José Jorge Letria.

Espaço ainda para atores como Nicolau Breyner, Vítor Espadinha, Camilo de Oliveira, Júlio César, a revelação Herman José e o já consagrado Raul Solnado, que não teve papas na língua ao dizer à Tele Semana (3 de outubro): «A nossa televisão é chata!»

VIAGENS PARA (QUASE) TODOS
Melhor do que férias algarvias, só uma viagem ao estrangeiro. Para muitos, o sonho realizou- se naquele verão. O aumento dos ordenados e a aposta das agências de viagens nos que gozavam pela primeira vez as delícias da mobilidade social ascendente permitiram ofertas de voos a Londres por 3750 escudos (quase vinte euros), a Torremolinos (Espanha) por 1990 escudos (cerca de dez euros) ou a Tânger (Marrocos) por 2490 escudos (12 euros). A Agência Abreu oferecia «Japão, Tailândia, Hong-Kong e Macau, em avião a jato e hotéis de luxo», segundo o anúncio publicado no Jornal de Notícias de 14 de junho. Os jovens até aos 21 anos tinham à disposição uma alternativa ainda mais apetecível: o Inter Rail, um mês de viagem de comboio pela Europa.

Ter carro era outro sonho mais próximo. Enquanto os Mercedes e os BMW ficavam prudentemente guardados nas garagens, as páginas dos jornais enchiam-se de anúncios a carros mais modestos, como o Renault 4 ou o Daihatsu Max L38, «um carro popular, compacto, funcional e seguro, de consumo ultrarreduzido».

NOITE
Quem ficasse por Lisboa ou estivesse de regresso de férias podia aproveitar as promoções de restaurantes de renome, como os do Hotel Sheraton, do Casino Estoril ou o Aviz, que tentavam substituir a clientela que deixara de frequentá-los anunciando almoços e jantares a preços muito mais baixos do que era habitual. Outros foram imediatamente adotados pelas novas elites, como o Tavares, o Gambrinus ou o Grémio Literário. Depois do jantar, um copo num bar da moda, como o Procópio ou o Botequim (da poetisa Natália Correia) – os mais procurados por quem queria ver e ser visto, e também os principais centros de conspiração política. Os mais endinheirados e que não se importavam de passar por «reacionários» davam um pé de dança no Stone’s, no Ad Lib, no Charlie Brown, as «mães» das discotecas de Lisboa, ou no 2001, no Autódromo do Estoril.

O QUE VESTIR
Entrar nas boîtes de Lisboa não era tarefa fácil para quem não pertencesse à clientela habitual. Uma maneira de tentar ser aceite no círculo íntimo dos frequentadores era aderir à vanguarda da moda – e não se deixar confundir com as modas revolucionárias, a começar pelo cabelo em desalinho (deles e delas) e a barba e bigode descuidado (deles). Um primeiro passo podia ser a atualização do guarda roupa na Maçã, de Ana Salazar, na Avenida de Roma, ou nos Porfírios, na Baixa. Atenção às águas-de-colónia: Paco Rabane, Aramis ou Eau Sauvage eram meio caminho andado para passar pelo porteiro. A cheirar a Patchouli não tinham hipótese…

OS CRIMES DE QUE SE FALAVA
Os jornais publicavam listas de matrículas de carros roubados (e recuperados) e sucediam-se os assaltos a casas, supermercados e dependências bancárias. A 22 de julho, o DN relatava «Cenas de tiros na zona do Areeiro entre caboverdianos e ciganos». Eram frequentes os anúncios a pistolas de alarme «que não precisam de licença». No Porto, um homem foi assaltado na rua e atirado ao mar «por três malandrins, um deles com uma catana», relatava o JN a 7 de junho. Um caso que se tornou num folhetim foi o do «camarada Zé Diogo», o tratorista alentejano que matou o patrão latifundiário, e cujo julgamento foi adiado e mudado de local devido às perturbações causadas por elementos da extrema-esquerda. Em Tomar, depois de invadirem o Palácio da Justiça, os ativistas formaram um autoproclamado «tribunal popular», que deliberou absolver o acusado e condenar a vítima a título póstumo, pelo crime de «exploração do povo trabalhador».

No verão de 1975, as ações das autoridades na rua eram, em grande parte, viradas para o combate ao tráfico de droga – havia muita, sobretudo liamba, vinda em grandes quantidades através da ponte aérea com Angola e Moçambique, nos caixotes dos desalojados. Antes do «politicamente correto», o DN de 8 de agosto noticiava: «Em busca de drogados e pessoas dedicadas à prática de atos sexuais considerados atentatórios da moral pública, a PSP e a GNR têm efetuado rusgas noturnas nas praias da Costa de Caparica até à Fonte da Telha.»

DESPORTO
O Verão Quente assistiu ao último jogo de Eusébio pelo Benfica, que ganhou o campeonato nacional – o Boavista ficou com a Taça de Portugal. Joaquim Agostinho não foi feliz na Volta à França: ficou em 15.º, longe do sexto lugar do ano anterior. Mas o melhor estava para vir: em 1979 terminou em terceiro da geral, tendo ganho uma etapa. No Campo Pequeno, em junho, tinha ocorrido uma estreia absoluta: luta livre entre mulheres. Carlos Lopes bateu o recorde nacional dos 5000 metros no meeting de Zurique, conseguindo os mínimos para as olimpíadas de Montreal, no ano seguinte (onde ganharia a medalha de prata dos dez mil metros). Oito anos depois, em Los Angeles, conquistaria o ouro na maratona.

A CAMINHO DA RENTRÉE
Ainda em pleno verão, os estudantes que queriam entrar na universidade souberam que os tradicionais exames de aptidão tinham sido substituídos por um «ano de orientação pedagógica». Tratava-se do serviço cívico que pôs estudantes a trabalhar em atividades que, na maior parte dos casos, nada tinham que ver com os cursos que pretendiam seguir, como os que foram mandados dar serventia a pedreiros na construção de um jardim infantil, em Sassoeiros.

nm1209_verao04

Duas novidades a cheirar a rentrée: o Metro de Lisboa passava a ter máquinas automáticas de venda de bilhetes e a Carris anunciava que ia receber duzentos novos autocarros Volvo.

A 23 de agosto, começaram os saldos. Mas até aí a política era inescapável: os Armazéns do Socorro publicitavam «saldos revolucionários». Já os portuenses Grandes Armazéns do Povo, dois meses antes tinham dado o mote, anunciando no JN de 20 de junho os seus «revolucionários preços».

João Ferreira
Fotografia: arquivos do DN e JN