OPINIÃO

O triunfo dos patos

Miguel Montenegro foi o primeiro português a trabalhar para a Marvel, mas apaixonou-se pela psicologia.

Entretanto, lançou um livro de cartoons que junta as suas duas paixões. Os protagonistas, os psicopatos, têm um olhar mordaz sobre psicólogos, psiquiatras e algumas patologias mentais. Rir é mesmo o melhor remédio para tudo?

Com onze anos, Miguel Montenegro decidiu que, quando crescesse, seria ilustrador profissional e trabalharia para a Marvel. «Lia muita banda desenhada de super-heróis e orientei a minha vida nesse sentido. A minha adolescência foi passada a desenhar.» Em 2003, realizou o sonho, tornando-se no primeiro português a trabalhar para a gigante norte-americana de banda desenhada. Entre outros trabalhos, «MIG», como costuma assinar na BD, fez a capa de X-Men, n.º 51, e colaborou como desenhador oficial na série Red Prophet, também da Marvel Comics.

Já adulto, descobriu outras paixões: a psicologia clínica e a filosofia. «De repente os interesses começaram a ser outros e decidi tirar o curso de Psicologia. Queria uma coisa com uma vertente mais prática.»

À procura de estímulo intelectual que complementasse os interesses artísticos, juntou ilustração e psicologia e começou a desenhar umas tiras de banda desenhada a que deu o nome de «psicopatos». «Durante o meu primeiro ano do mestrado em Psicologia Clínica no ISPA [Instituto Superior de Psicologia Aplicada] comecei a ficar um pouco frustrado com algumas coisas que os professores diziam nas aulas e das quais eu discordava. Optei por patos por gerar um bom trocadilho com a palavra “psicopata”.»

Não lhe parecendo adequado apresentar as discordâncias nas aulas, encontrou nos cartoons a forma de manifestar as suas críticas. Os colegas gostaram da ideia e, em 2013, começou a publicar semanalmente as tiras de banda desenhada numa página do Facebook.

Questionando o que considera ser alguns dogmas das ciências psicológicas, como o conceito de inconsciente, o uso excessivo de medicação e a própria existência de doenças mentais (o que poderá levar muitos autores a não concordar, de todo, com o que satiriza), Miguel utiliza estes cartoons para desconstruir e satirizar a psicanálise, conseguindo assim partilhar com os leitores pensamentos e conhecimentos de forma divertida e informal (e por vezes polémica, até). «Rapidamente, ao fim de três ou quatro tiras, os “psicopatos” chegaram aos ouvidos do reitor do ISPA, que me convidou a elaborar um livro. Essa foi a motivação para que continuasse a produzi-los de forma regular.» Ainda em 2013, por ocasião dos cinquenta anos da instituição, foi lançado o livro Psicopatos: 50 Tiras sobre as Ciências Psicológicas, uma edição limitada, a que chamou volume zero.

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Miguel acredita que tanto a psiquiatria como a psicanálise têm uma componente comercial – «é um serviço que está a ser prestado a um cliente, ainda que chamemos paciente a qualquer pessoa que vá ter com um terapeuta» – e é esse o fio condutor da sua sátira aguçada. Nestas tiras humorísticas, o protagonista, «Patareco», é um pato estudante de Psicologia, sempre com respostas sarcásticas que evidenciam as contradições do que o autor considera ser algumas verdades absolutas no mundo da psicologia. Todos os personagens, sem exceção, são representados por animais. O porco, psiquiatra, é inspirado no livro O Triunfo dos Porcos, de George Orwell, em que estes animais chegam ao poder numa quinta e ditam as regras, decidindo o que é ou não verdade. Neste caso, a comparação com a psiquiatria é feita com base nos mesmos princípios, dado que, defende o ilustrador, «é o psiquiatra que tem o poder e que decide o que é, ou não, uma doença mental». Já o gavião-vampiro, que Miguel liga aos psicanalistas, acaba por representar o facto de estes «sugarem» tudo o que as pessoas têm na mente, além do tempo que levam em terapia.

Fobias, depressões, neuroses, psicoses e outras perturbações são temas abordados por Miguel, num mundo em que são prometidas curas rápidas e eficazes por parte de psicólogos e psiquiatras – e nem sequer Sigmund Freud escapa à sátira… A crítica vem do tempo em que estava a tirar o curso e ninguém sabia que ele era ilustrador. Tanto que várias vezes lhe perguntaram o que fazia em Psicologia e se não se teria enganado na escolha, tais eram as questões que colocava nas aulas, como: «a psicologia e a psicanálise são ciências?» Ou «qual a diferença entre estas e uma religião»? A resposta a colegas e professores, assim como uma série de outras perguntas, chegaram em forma de cartoon, pela voz destes patos e de outros animais, que verbalizam as dúvidas do autor, para quem a doença mental é uma metáfora, a mente humana um mistério, a psicologia, psiquiatria e psicanálise não são ciências exatas e têm demasiados métodos em comum com a religião.

Opiniões controversas? No mínimo. Mas Miguel Montenegro pretende chocar propositadamente. E, sobretudo, fazer pensar. Haverá quem não se reveja nesta linha de sátira, mas também quem defenda que é possível rir de tudo isto – e, assim, refletir. «Psicopatos traz consigo (…) uma forma simultaneamente comprometida mas desafiante, que coloca a psicologia, os psicólogos e aqueles com quem eles mais se relacionam sob um escrutínio que nos devia merecer reflexão», escreve o psicóloge e psicanalista Eduardo Sá no prefácio.

Dois anos depois do lançamento do volume zero, o ilustrador lançou este ano o primeiro livro oficial, Psicopatos: Entre Loucos, Quem Tem Juízo É Pato (ed. Arcádia). Estes personagens são, neste momento, a grande prioridade de Miguel Montenegro, apesar de continuar a trabalhar como ilustrador freelancer e na área da psicologia clínica. «Estou a finalizar o segundo livro, que deverá sair na época do Natal. Além disso, estão também a ter grande aceitação no estrangeiro e será lançada em breve uma edição francesa. E já existem projetos para o Brasil e os Estados Unidos.» O site www. psychoducks.com contém todas as tiras traduzidas em cinco línguas diferentes.

José Ramalho
Fotografia: Reinaldo Rodrigues/Global Imagens