OPINIÃO

O que os números eleitorais dizem de nós

[…]

Houve eleições no passado domingo. E embora já tenha passado uma semana e estejamos todos outra vez mais preocupados com a politiquice, com quem vai para que cargo ou quem fica em que lugar, com as facas longas e as memórias curtas, quero recordar aqui um facto: nas eleições o povo é ouvido. Escolhe alguma coisa, decide, enfim. O povo que quer ser ouvido é ouvido. E era aqui que eu queria chegar, em primeiro lugar. Há quem não queira, parece, ser ouvido. Pelo menos não por quem quer ouvir. E estes serão cada vez mais, segundo os dados das eleições.

A maior abstenção de sempre, dizem os números, ao contrário do que disseram as sondagens que enganaram muitos incautos que se ficaram pelos discursos dos partidos sem lerem atentamente os números dos dias seguintes. Houve, portanto, 43,1 por cento dos votantes que preferiram não se fazer ouvir. Em 75 concelhos, a abstenção foi superior a 50 por cento. Em Melgaço, Viana do Castelo, 67 por cento não se dignaram ir às urnas.

Ah, isso é lá com eles, dir-me-ão. Para um cidadão anónimo como eu já é grave. É ter alguém que escolheu não decidir, a decidir sobre o meu futuro. É ter alguém que não se pronuncia a determinar quem se pronuncia. Não merece grande respeito, e já nem lanço mão de todos os argumentos históricos. Mas se eu fosse política, ou fizesse da política a minha vida e de um partido a minha ocupação profissional, ia por essas terras fora fazer um grande inquérito, uma espécie de focus group alargado. Porque não votaram os que não votaram? Esta devia ser a questão que mais devia preocupar-nos, os que nos preocupamos com política e não com partidocracia. Quarenta anos depois de termos reconquistado este direito básico, basilar numa democracia, eis-nos neste marasmo de termos metade do país a dormir. E a deixar-se governar.

E agora vou fazer aqui uma conta abusiva, e digo abusiva porque é mesmo, e peço desde já desculpa aos que muito legitimamente foram exercer o seu direito a votar contra. Mas é assim: se juntarmos a estes que não votaram os brancos e os nulos e ainda todos os outros que votaram em partidos que não fazem parte do chamado arco da governação, ou seja os partidos do contra, que não concorrem para governar mas para ser oposição, ou seja, a CDU e o Bloco de Esquerda, chegamos rapidamente a um conjunto de mais de 70 por cento.

Leituras abusivas dão sempre conclusões enviesadas? Nem por isso. O que estes números querem dizer é que há mais de dois terços dos portugueses que não se reveem no atual sistema. Quando os analistas se põem a analisar maiorias relativas, ou minorias, ou a perda de votos de quem governa e o crescimento de quem a eles se opõe, costumam fazer leituras também abusivas: tomam o todo pela parte. Dizem que os portugueses passaram um cartão amarelo ao governo. Isso será verdade, mas não no caso dos que votaram no PS, que o fizeram com o objetivo da vitória deste partido.

O verdadeiro cartão amarelo, na atual situação política, foi passado pelos outros, esses 70 por cento. Uns serão radicais, outros já nem querem saber. Mas todos, todos revelam a sua distância em relação ao sistema, aos políticos que nos governam, aos partidos que disputam eleições. Que simplesmente não acreditam no rumo que as coisas estão a tomar. Que se põem à margem. Se isto não é assustador, não sei o que é assustador.

[Publicado originalmente na edição de 11 de outubro de 2015]