OPINIÃO

O pianista internacional

Filipe Pinto Ribeiro teve as primeiras aulas de piano aos 4 anos e não gostou.

Aos 10 tentou novamente. Aos 12 decidiu que seria músico profissional e aos 20 foi estudar piano para Moscovo. Hoje gere uma carreira internacional a partir de Lisboa e é um dos pianistas portugueses mais conhecidos internacionalmente. Nesta semana lança o quinto álbum.

Teve as primeiras aulas de piano aos 4 anos e não gostou. Ao mesmo tempo, iniciou-se na natação e no futebol. Tornou-se federado aos 10 anos, mas a paixão pela música falou mais alto. E voltou a tentar. Aos 12 anos, Filipe Pinto Ribeiro decidiu que seria pianista profissional e aos 20 partiu para a Rússia, onde se doutorou com nota máxima no Conservatório Tchaikovsky de Moscovo. Aos 40 anos é, provavelmente, o pianista português mais conhecido internacionalmente depois de Maria João Pires.

A música sempre foi uma constante em casa de Filipe Pinto Ribeiro. O pai toca guitarra e a avó tocava piano. O fascínio pelas teclas revelou- se cedo e os pais inscreveram-no em aulas particulares. Mas a experiência não foi boa. «O método de ensino era muito rígido para uma criança de 4 anos. A professora punha pioneses na base do piano, junto das teclas, para que não se pudesse baixar a mão. Eu achava aquilo tudo assustador, via o piano negro encostado a uma parede, tudo escuro… A música e o som do instrumento continuavam a atrair-me mas alguns meses depois pedi à minha mãe para sair.» Só mais tarde, na academia Encontro com a Arte, em Gaia, com um ensino mais transversal que ia da música clássica ao rock e ao jazz, a paixão pela música se revelou em pleno.

Aos 12 anos, já no conservatório – entretanto ganhou alguns prémios de interpretação –, decidiu que queria ser músico profissional. Tem a memória clara desse dia. «Dei uma entrevista para O Independente. Não tinha dito nada no conservatório mas, quando cheguei, tinha o professor João Carrapa, à espera, com o jornal na mão. E ele disse-me: “Com que então, a música é só um hobby para ti, como o futebol? Eu não concordo.” Tive uma espécie de clique… Apercebi-me de que de facto não era um hobby… Foi quase uma decisão interior.»

O percurso brilhante na escola e no conservatório – terminou os oito graus de piano antes de concluir o 11.º ano – não o impediam de ter as atividades normais de um adolescente dos anos 1980. Do piano saíam as obras dos grandes compositores e temas de Rui Veloso ou Xutos & Pontapés. Entrou para a Escola Superior de Música, no Porto, ainda sem o ensino secundário concluído. Tinha vencido o concurso nacional da Juventude Musical Portuguesa e começava a ganhar notoriedade. «A professora e musicóloga Teresa Macedo, então diretora da escola, veio a Lisboa falar com o ministro da Educação, para encontrar uma exceção para o meu caso. Tive de acumular as duas coisas. Foi cansativo: aulas durante o dia na Escola Superior de Música e à noite na Escola Secundária António Sérgio com os trabalhadores estudantes.» Ao mesmo tempo, começaram os convites para estudar nos Estados Unidos. Mas acabaria por ir parar à Rússia.

A admiração por intérpretes como Sviatoslav Richter e por compositores como Tchaikovsky, Shostakovich ou Prokofiev aguçaram- lhe a curiosidade e o desafio da pianista Elisso Virsaladze fez o resto. «Primeiro convidou- me a ir para Munique, depois sondou-me sobre Moscovo, onde me poria em contacto com a chefe da cátedra de Piano do conservatório, Lyudmila Roschina.» Chegou à capital russa com 20 anos e uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian. Era o único aluno estrangeiro de Roschina.

«Lembro-me do dia em que que cheguei ao conservatório, com os cartazes todos em cirílico e as aulas em russo… sentia-me noutro planeta.» Na escola, havia um professor para cada dez alunos e depois havia o clima, as distâncias, a multidão de pessoas no metro. «Moscovo tem 12 milhões de habitantes…» Tudo marcava a diferença de uma forma abissal. Sobretudo culturalmente. «Literatura, bailado, espetáculos, a dimensão da cidade…» Terminado o doutoramento, com classificação máxima, e já depois de conhecer a atual mulher, a pianista peruana Rosa Maria Barrantes, partiu para Berlim onde ficou dois anos, fez as primeiras gravações e surgiram os primeiros grandes espectáculos.

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Filipe Pinto Ribeiro já tocou sob a batuta de maestros como Emilio Pomàrico ou Dimitri Liss e estreou obras de compositores como Sofia Gubaidulina ou Marcelo Nisiman. Vive em Lisboa desde 2001 – apesar de ter nascido no Porto e crescido em Gaia –, sem abdicar da carreira internacional. «Tinha mais para dar aqui. E sei que construí bases importantes que me permitiam continuar com uma carreira internacional.» De então para cá lançou projetos como o Shostakovich Ensemble, dedicado à música de câmara. «Queria formar um grupo de excelentes músicos de câmara, de composição variável (podem ser três e acabar em 15), em que pudessem rodar pessoas de várias nacionalidades, convivendo num espaço comum.» E, com o intuito de promover a música de câmara, no ano passado criou, com a Academia Internacional de Música, o projeto Verão Clássico, de que é diretor artístico, que trouxe a Portugal mestres da música de câmara para várias masterclasses.

QUATRO ESTAÇÕES EM VINTE ANOS

Piano Sessions, que será apresentado na quarta-feira, no Teatro São Luiz, em Lisboa, é um projeto que começou há quase vinte anos, em Moscovo, quando Filipe Pinto Ribeiro descobriu o ciclo para piano das Estações, de Tchaikovsky. Mais tarde, num festival em França,tocou com o bandoneonista Marcelo Nisiman, discípulo de Piazzola, a quem desafiou para fazer uma versão para piano das Quatro Estações de Buenos Aires. Nisiman aceitou e em 2013 surpreendeu-o com uma versão que lhe é dedicada. «É o novo tango. Já a toquei em Roma e em Oxford e vai ter a estreia em Portugal.» Ao romantismo russo de Tchaikovsky e ao tango de Piazolla e Nisiman, Filipe juntou a portugalidade de Lisboa e convidou Eurico Carrapatoso a compor uma obra sobre as quatro estações.

Susana Torrão
Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens