OPINIÃO

O mundo a seus pés

A estes tapetes só lhes falta voar.

Carpe diem é um convite para aproveitar o momento sem pensar de mais no que o futuro reserva. Carmo Mexia e Nuno Benito apropriaram-se do termo, adequaram-no à sua forma ousada de trabalhar e criaram a Carpet Diem, a primeira marca com uma coleção exclusiva de tapetes em Portugal. As casas agradecem.

No fundo do seu coração, Carmo Mexia soube sempre que tomaria outros rumos mais tarde ou mais cedo, nada de ficar irrevogavelmente presa ao piano. Viria o momento de ela e Nuno Benito, amigo de longa data, se lançarem juntos no mundo empresarial. Talvez viverem a aventura da decoração, como tantas vezes tinham sonhado. «Foi tudo acontecendo por acaso», nota a empreendedora. «Os tapetes são o coração de uma casa, Portugal não tinha coleções como existem as de roupa e nós estávamos cheios de ideias para algo diferente.» Não se imaginava a dar o passo sem o sócio: há 20 anos que pouco lhes acontece na vida que não partilhem entre si, tão sintonizados que mal sabem dizer onde acabam as ideias de um e começam as do outro. «Fomos os primeiros a criar uma coleção de tapetes no país e a transformá-los numa marca, Carpet Diem. Primeiros e únicos.» A paixão com que os fazem é tão fulgurante que só lhes falta pô-los a voar.

«Quando trabalhávamos com decoradores e arquitetos, logo no início, sujeitávamo-nos muitas vezes a fazer os desenhos que eles propunham aos clientes para determinado projeto», conta Nuno, designer de moda de formação e, como tal, habituado a uma visão artística do mundo. Carmo, pianista, destilava arrebatamento e uma sensibilidade mal-empregados no que então lhes pediam. Num rasgo, perceberam que tinham de ser eles a desenhar as coleções que imaginavam a dois e criar a sua marca o quanto antes, como forma de se demarcarem do cinzentismo da oferta. «Só assim poderíamos educar o gosto das pessoas para os nossos modelos e mudar mentalidades, além de conseguir que o negócio tivesse muito mais gozo para nós.»

Começaram em 2003 a viver tempos de contínuas surpresas: ao mesmo tempo que trabalhavam na confeção nacional com outros designers, executando os desenhos deles à mistura com os seus, puderam notar a adesão entusiástica dos clientes – os tapetes que concebiam de moto-próprio tinham muito mais saída. «Este nosso formato só surgiu no final de 2011, desde que iniciámos um showroom na Rua do Salitre que acabou por se tornar loja física», precisa Carmo, orgulhosa do percurso. Um ano mais tarde mudaram-se para o Príncipe Real – zona ótima para quem vai comer torradas com as amigas, mas péssima para se vender tapetes – e em fins de 2013 ocuparam a loja atual na Rua das Amoreiras, em Lisboa, com aquilo que ambos consideram uma «belíssima montra».

A história da Carpet Diem coincide também com o momento em que se dá a crise. «Tentámos contornar a conjuntura para renascer a partir dela, porque percebemos nessa altura que o mercado já não é o mesmo», recorda o designer. Nem lhes passou pela cabeça largarem de repente o que estavam a fazer: não seria solução para nada. «Tínhamos era que arranjar forma de fazer mais barato, sem perder o encanto ou a qualidade dos nossos tapetes, e assim abrirmos uma porta para as casas das pessoas.» Foi mais uma viragem a que tiveram de se adaptar com o jogo de cintura de sempre, sem dramatismos. Acabaram a escolher lã da Nova Zelândia, a produzir numa empresa familiar no norte da Índia (não revelam onde, apenas que não existe exploração de mão-de-obra infantil) e a distribuir eles mesmos em Portugal, através da loja física na capital e do shop online (https://www.carpetdiem.pt).

«Por estarmos tão longe, nós desenhamos em conjunto e executamos depois os modelos de forma mais técnica, para a fábrica saber como confecionar», explica Nuno. Passam-lhes o desenho bem esquematizado via e-mail; os indianos fazem protótipos que eles aprovam no local (raramente têm problemas, mas o diálogo implica viagens); voltam à Índia para o controlo de qualidade final e a carga ruma então a Lisboa, quatro meses de viagem por barco. «Acima de tudo não temos medo do julgamento alheio», assevera Carmo, confiante no crescimento de 20 por cento face ao ano passado – mais de um tapete vendido por dia –, graças à procura em Espanha, França, Alemanha, Ucrânia, Inglaterra, Canadá e outros destinos rendidos à relação qualidade/preço. «Fazemos o que queremos, aquilo de que gostamos. E isso traduz-se tudo no produto final.»

É fácil à dupla idealizar. Ela mais orgânica, ele mais geométrico, falam a mesma linguagem até quando estão longe e descrevem ao outro a tatuagem que viram no braço de alguém, cheios de ideias já para um novo tapete. «Podíamos estar sempre a editar novas coleções, sempre a criar. Mas isto tem também a ver com o mercado e com o modo como os produtos vão saindo», revela Nuno, gráfico até ao tutano. Carmo adianta terem atualmente cerca de 50 modelos na loja, entre os que vão produzindo e retirando de tempos a tempos para evitar imitações (não é só a roupa que se copia). Inspiram-se tanto na música de Mozart para criar quanto nas geometrias de Emilio Pucci ou nos padrões coloridos da marca Missoni. Vale tudo menos serem monótonos.

«O Alicia foi talvez o tapete que mais gozo nos deu fazer: agarrámos em padrões que tínhamos na cabeça, partimo-los, fizemos um patchwork e o entusiasmo foi por ali afora», recorda a criativa, ainda capaz de se surpreender com a vida empresarial. «Os portugueses vão mais devagarinho, temem ser julgados pela escolha. Mas já tivemos um Kabir a ir parar a uma casa superconservadora, porque o cliente se apaixonou por aquele tigre enorme, e ficou mesmo bem.» Os tapetes variam entre os 590 euros (1,40 x 2,00 m) e os 2360 euros (3,00 x 4,00 m) e são solicitados por publicações especializadas como a Flair ou a Architectural Digest. Também já aconchegaram a Christian Dior, a Versace e a Printemps, quando as lojas lhes pedem para fazer as montras, e nem assim o par fica deslumbrado. Ser fiel a si mesmo é a alma do negócio.

Ana Pago
Fotografia: Gerardo Santos/Global Imagens