OPINIÃO

O Menino da Avó veio a Lisboa

O novo Jamie Oliver chama-se Donal Skehan.

Donal Skehan, que além de apresentador de TV é um «jovem e brilhante cozinheiro», nas palavras de Jamie Oliver, gravou um episódio na capital portuguesa para o programa Follow Donal to Europe, a estrear em 2016, no Food Network. Para já, os portugueses podem vê-lo no 24 Kitchen no programa O Menino da Avó.

Não é através de um convencional mapa que Donal Skehan conhece as cidades para onde viaja. Os sentidos daquele que é já conhecido como o novo Jamie Oliver despertam através da cor de legumes frescos, do perfume das ervas aromáticas, do som de um peixe a ser assado na brasa, da textura de um bolo acabado de sair do forno ou do sabor de uma iguaria nunca antes provada. E é precisamente o desconhecido que fascina este cozinheiro irlandês, natural de Dublin, que, aos 29 anos, é uma estrela de televisão.

Lisboa «foi uma escolha óbvia» para integrar o lote de dez cidades europeias que o programa Follow Donal to Europe – que será exibido no próximo ano no Food Network– percorreu. O apresentador justifica: «Em criança fui várias vezes a Portugal, costumava ir ao Algarve nas férias de verão. Sabia que Portugal era um país muito bonito, mas nunca tinha estado em Lisboa, e era um destino que estava na minha lista. Não sei nada sobre a cidade, por isso estou muito entusiasmado.» É essa a essência do programa, visitar sítios desconhecidos e aprender a sua gastronomia. «Sei que Portugal tem uma cultura gastronómica muito forte. Vir cá era óbvio.» Chouriço assado, sardinhas na brasa e o famoso leitão de Negrais fazem parte da ementa. Mas comecemos pela sobremesa…

Os pastéis de Belém foram uma das paragens obrigatórias para Donal Skehan, que enfrentou um fogão pela primeira vez quando tinha apenas quatro anos, para fazer uma panqueca. «A cozinha sempre foi uma paixão para mim. Mas só há alguns anos é que percebi que queria fazer disto a minha vida», diz. Foi com o blogue Good Mood Food, criado há oito anos, que o jovem irlandês se tornou conhecido no mundo da culinária. Através deste espaço, que ainda existe, começou a partilhar receitas das suas experiências gastronómicas, acompanhadas de fotografias, tiradas por si, apelativas ao ponto de despertar o apetite… até aos menos gulosos.

Donal Skehan adianta que nesta sua visita a Portugal «vai comer uma espécie de barbecue com carne de porco», referindo-se ao leitão de Negrais, e vai a «um festival onde há peixe», ou seja, as festas de Lisboa. Já tinha experimentado fazer o célebre pastel de Belém, cuja receita está guardada a sete chaves daí o entusiasmo na visita à fábrica onde se produz esta especialidade da doçaria portuguesa. «Já tentei fazer estes pastéis em casa, mas não correu lá muito bem», ri.

«Uau, que cheiro delicioso», diz assim que entra na fábrica. O estilo informal do chef irlandês (camisa, calções e ténis All Star) traduz-se também na forma como lida com as pessoas que vai encontrando pelo caminho. Cumprimenta quem passa com um sorriso rasgado e não larga a sua Canon 5D nem o seu iPhone, com os quais vai registando momentos para partilhar no seu canal no YouTube, com 2,5 milhões de seguidores.

NM1213_ChefIrlandes02
Alfama, entre sardinhas na brasa e ginjinha em copo de chocolate, foi um dos cenários da filmagem em Lisboa de Follow Donal to Europe. (Foto: Gonçalo Villaverde/Global Imagens)

Donal Skehan aproxima-se de uma das funcionárias que divide a massa com uma agilidade que não deixa margem para dúvidas relativamente à antiguidade na casa. Dona Fernanda já perdeu a conta aos anos que passou a moldar a massa dos pastéis de Belém. Sentada numa cadeira e rodeada de três colegas, a expressão muda assim que se apercebe da presença de uma câmara de filmar. «Continuem a trabalhar, como se não estivéssemos aqui», diz Claudia, a produtora. Quem traduz as suas palavras é o foodie Diogo Correia, autor das Lisbon Foodie Walks, que foi contratado pelo Food Network para ajudar a equipa no que fosse preciso.

«Estou muito entusiasmado por estar aqui a absorver a vossa experiência», diz Donal a Fernanda, enquanto se atreve a imitar a técnica. «Esta massa é incrivelmente suave.» Os dedos do chef irlandês percorrem o tabuleiro de forma delicada, acabando por obter a aprovação da experiente senhora.

O entusiasmo do apresentador, que já tem publicados cinco livros de culinária, preparando-se para lançar o sexto em outubro, aumenta à medida que se aproxima a altura de experimentar a iguaria. Duas panelas são transportadas por um dos funcionários do estabelecimento. No seu interior está o famoso creme que delicia portugueses e turistas de todo o mundo. «Se alguma vez se perguntaram como é que estes pastéis são recheados, aqui está a resposta», diz Donal para a câmara. O apresentador não resiste e faz um pedido: «Posso experimentar?» Pega numa pequena colher e retira um pouco do creme. «É muito bom. Tem baunilha, não tem?», arrisca. Palpite falhado. «Não tem? O meu paladar não está lá muito bom hoje.»

O paladar até pode ter atraiçoado o apresentador, mas não existem dúvidas quanto ao seu talento. Donal Skehan é descrito pelo famoso chef britânico Jamie Oliver como um «jovem e brilhante cozinheiro». E não se ficou pelos elogios, já que adicionou o canal do YouTube de Donal Skehan ao seu FoodTube assim que começou a conhecer melhor o trabalho deste irlandês.

Um blogue, um canal no YouTube e um livro foram os degraus que o cozinheiro subiu até chegar à televisão. Pelo meio ficou uma entrevista na rádio, que deu os seus frutos. «No dia a seguir recebi um telefonema com o convite para gravar um piloto. Apesar de as pessoas considerarem que foi rápido, na verdade a minha passagem para a televisão foi um processo lento», diz. O Menino da Avó, exibido no canal 24 Kitchen, foi a sua primeira experiência no pequeno ecrã, seguindo-se a edição britânica do MasterChef Junior, no qual foi coapresentador e jurado.

O seu sucesso como comunicador fez que fosse convidado para Follow Donal to Vietnam – que se estreia dia 28 em Portugal no canal Food Network – onde comeu carne de ratazana. E não se ficou por aqui, já que gravou uma segunda série, Follow Donal to Europe, que além de Portugal percorreu outros países como Espanha, Grécia, Holanda, Hungria, Croácia, Itália, Polónia, Suécia e Turquia.

Depois de saborear o pastel de Belém, que afirma ter sido «uma das melhores coisas» que já experimentou, Donal Skehan tem uma nova aventura gastronómica. Em vésperas da festa mais famosa de Lisboa, o Santo António, não havia como fugir à passagem pelos arraiais, que já funcionavam a todo o gás. Alfama foi a zona escolhida. O fumo proveniente das brasas percorria as ruas do bairro lisboeta e despertava o apetite dos transeuntes. Não havia mãos a medir para quem ali trabalhava, entre travessas, jarros de sangria e cestos de pão, que iam saindo das cozinhas para as mesas. Antes de se sentar, Donal aproximou-se de um fogareiro onde estavam a ser assadas sardinhas, bifanas e chouriço. «Estas pessoas vivem aqui e fazem a comida mesmo no meio da rua. É fantástico», diz, olhando diretamente para a objetiva da câmara.

A música típica das festas de Lisboa recordou um outro passado deste cozinheiro irlandês. Aquele em que fez parte de uma boysband chamada Industry. «A cozinha é mais fascinante do que a música porque é um mundo que podemos explorar, onde temos total controlo», admite Skehan, que sonha vir a abrir o seu próprio café, quando a sua vida for mais tranquila.

Dois pratos, duas fatias de pão e duas sardinhas assadas, acabadinhas de sair da brasa. Diogo Correia explica ao chef como é que se come uma sardinha no pão. «Parece ser muito simples, mas requer a sua técnica», diz.

De estômago reconfortado, Donal mostrou-se bastante agradado com o jantar e mesmo tendo devorado um pastel de Belém à tarde, o apresentador manteve o apetite por algo doce. Ginjinha de Óbidos em copo de chocolate. Uma vez mais, o anfitrião Diogo Correia exemplificou o processo: primeiro bebe-se a ginjinha e, em seguida, come-se o copo. Sai outra ginjinha para toda a equipa do Follow Donal to Europe! E um brinde. A Lisboa.

Márcia Gurgel
Fotografia: Gustavo Bom/Global Imagens