OPINIÃO

«O medo é uma ferramenta muito importante»

A entrevista a João Garcia.

O filme Evereste, baseado na tragédia de 1996 em que morreram oito alpinistas, chega nesta semana aos cinemas.

Três anos depois, ao descer dos 8848 metros do pico mais alto do mundo, João Garcia foi apanhado pela noite. Perdeu as pontas dos dedos e do nariz – e um amigo, que morreu. Mas continuou a escalar. Hoje é uma das dez pessoas no mundo que já subiram às 14 montanhas com mais de oito mil metros.

O filme que se estreia na quinta-feira é a história, real, de duas expedições que em maio de 1996 foram surpreendidas por uma tempestade. Oito dos doze alpinistas morreram. Em 1999, o João esteve no Evereste, subiu ao cume, por pouco não conseguiria sobreviver à descida. O que sentiu ao ver o filme de uma tragédia que conhece bem?
_Orgulho na minha profissão, do que fiz, não só no Evereste mas em todas as montanhas que já escalei. Saudades do Nepal, das chegadas a Katmandu e ao vale de Khumbu, onde fica o acampamento-base do Evereste. Estive 34 vezes no Nepal, 18 naquele vale. Mas senti também aflição. A tragédia reavivou-me más memórias. Conheço o fim do filme mas dou por mim a esperar uma reviravolta. Mas houve demasiados erros.

Quais?
_A escolha do dia de tentativa de cume. O chefe de expedição escolheu o dia 10 por ser o seu dia de sorte. Não se pode forçar uma data. Depois, não seguir as informações meteorológicas, preferindo acreditar na acalmia que se estava a sentir. Por último, ter aceitado regressar ao cume, a pedido desesperado de um dos clientes que queria cumprir o objetivo que o levou ali.

O líder do grupo é diretor de uma empresa de expedições que ajudou a popularizar a escalada do monte Evereste no início de 1990. Os clientes chegam a pagar 50 mil euros. Nessa cena ambos sabem que é a última oportunidade para aquele homem.
_Eu obrigava-o a dar meia volta. Nem que estivesse a trinta metros do cume. Já passava das duas da tarde, a hora de segurança-limite para a descida. É uma regra de ouro: uma, duas da tarde, com cume ou sem cume, há que dar meia volta.

Já teve de dar meia volta perto do cume?
_Em quatro montanhas não consegui atingir à primeira. No Evereste, no ano anterior, dei meia volta aos 8500 metros porque estava demasiado vento.

Fez sempre assim?
_Não. Já cometi o erro. Várias vezes.

No filme, um jornalista que acompanha a expedição pergunta aos participantes: «Porque fazem isto?» Ninguém dá uma resposta clara. No seu caso, porquê?
_Pelo desafio, para me superar. E porque na adolescência engracei com o alpinismo. Numa das primeiras experiências nos Alpes, ao regressar do cume do monte Branco senti que tinha deixado de ser um miúdo. O alpinismo é um desporto justo – só chega ao topo quem se esforça, não o mais velho ou o mais bonito. No dia em que sentir que já não faz sentido dedico-me ao golfe ou à pesca. Até agora tem feito sentido.

E para a sua família, faz sentido?
_Gosto de citar uma frase: «Se precisas de perguntar porque se escalam montanhas não vais compreender a resposta.» A minha mulher já me conheceu assim. Como alpinista patrocinado, como guia de trekking. Sabe que eu sou feliz assim.

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João Garcia chegou ao topo do Evereste em 1999.

No Evereste, sete por cento dos alpinistas que chegam ao cume morrem na descida. No K2, o segundo mais alto, a percentagem sobe para 25 por cento. A energia que se imagina, o êxtase de se estar no topo do mundo, mais perto de Deus para alguns, nada disso se sente, até porque não conseguem respirar. É verdade?
_No cume das mais altas montanhas do mundo é tirar a foto e sair dali depressa. O resto é romantismo. Subir é opcional, descer é obrigatório. A maioria das mortes – e falo de cerca de 90 por cento – dá-se na descida.

A mulher de um dos alpinistas, depois de falar com o marido pelo telefone ainda antes do início da expedição, diz ter-lhe sentido medo na voz. Que significa para si medo?
_O medo é uma ferramenta muito importante, obriga-nos a calibrar o bom senso e a tomar decisões sensatas.

O filme retrata os primórdios da comercialização do Evereste. Como é atualmente?
_Há cada vez mais negócio e eu não posso ser hipócrita porque também vivo da montanha. Comercializo trekking um pouco por todo o mundo. Também levo pessoas para aquele vale e isso já é muita responsabilidade. No entanto, vejo no Evereste, com tristeza, que se utiliza cada vez mais o oxigénio artificial. Em 1999, quando subi, as ascensões com êxito sem oxigénio eram sete por cento do total. Agora somos dois por cento. É uma aldrabice. É o mesmo que a Rosa Mota correr a segunda metade de uma maratona de lambreta.

Já atingiu os 14 picos acima dos oito mil metros, sem oxigénio – só dez pessoas no mundo o fizeram. Qual é o significado de limite?
_É uma linha variável que convém definir para a não ultrapassarmos. No Evereste cometi vários erros, por isso foi a pior expedição da minha vida. Fiquei com lesões graves, o meu companheiro [o belga Pascal Debrouwer] morreu. Mas nunca mais cometi os mesmos erros.

Nunca mais mesmo?
_Bem, uma vez mais. Foi no Lhotse, uma montanha que até ao campo 3 partilha com o Evereste a mesma via. Psicologicamente, estava ainda marcado pelo que me acontecera no Evereste. Jurara que nunca mais poria ali os pés. Mas fiz 15/20 horas de esforço ininterrupto, o equivalente a seis maratonas seguidas. Escalei sozinho, já na zona da morte, a três respirações por passada. Depois derrapei. Consegui fazer autodetenção por milagre. Na descida, começaram as alucinações. Por duas vezes vi o Pascal vivo. A desidratação era extrema. Fazer meio litro de água demora muito tempo. Por uma vez esqueci o que me ensinou o Evereste: margens de segurança e um horário de segurança.

Poucos alpinistas resistiram a uma noite no Evereste a 8600 metros nas condições em que a viveu. O que correu mal?
_Um pouco mais e teria morrido. Ter estado duas horas no cume à espera do Pascal, que ficara para trás, foi um erro colossal. Estava em hipoxia, percebi e tentei descer, mas ele chegou e levou-me de novo para cima. O batimento cardíaco diminui à medida que subimos. A parte torácica vai sempre ao limite. Quando somos obrigados a um esforço extra os próximos segundos são de asfixia. Chegámos ao topo por volta das quatro da tarde, começámos a descida uma hora depois. Fomos apanhados pela noite, não conseguimos chegar à mochila onde tínhamos deixado as lanternas de cabeça. Ali anda-se em câmara lenta. Transferir o peso de um pé para outro implica muito esforço. Três a quatro respirações por passo.

Quanto pesa cada bota?
_Cerca de dois quilos.

Estavam na escuridão.
_Não fomos suficientemente rápidos, estávamos muito desidratados e não respeitámos os horários de segurança. No acampamento-base havia alguma histeria. Pelo rádio, mandavam-nos regressar. Mas estávamos ainda a 8600 metros. Sobreviver a 8600 metros uma noite é um milagre. Não há muitas pessoas que tenham passado por isso e sobrevivido para contar.

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Alpinista há mais de trinta anos, escalar fá-lo feliz.

Perdeu as falanges das duas mãos e a do dedo grande do pé direito. A ponta do nariz congelou. Recorda o que ia sentindo fisicamente?
_Curiosamente as mãos aguentaram-se bem. Foram horas de frio e cansaço. E de cansaço e frio. Tive medo de me perder e por isso parei. Avançava uns metros, sentava-me, esperava pelo Pascal. Já não conseguíamos falar. Ele chegava, tocava-me no ombro e eu tentava fazer mais uns metros. E, de novo, esperava por ele. Até que ele não veio. Não tive energia para procurá-lo.

Pensou na morte?
_Estávamos para lá disso. Só tinha uma ideia: sobreviver à noite e, com o sol, tentar descer. Ninguém podia ajudar-nos em tempo útil. Estávamos a mais de vinte horas de distância do acampamento-base e na China (a subida foi feita pelo lado chinês) não há helicópteros de resgate.

Ainda acreditava que Pascal estivesse vivo?
_Sim.

Quanto tempo demorou até chegar ao acampamento-base?
_Mais de 48 horas. No dia seguinte, desci ao acampamento 4, a 8200 metros, onde consegui recuperar a circulação de sangue nas mãos e preparei mais uns líquidos. Nesse dia, desci sozinho ao acampamento 1, a 7100metros, passei mais uma noite e foi nesse trajeto que devo ter voltado a congelar as mãos, por ter descido em boa parte do caminho agarrado a uma corda fria.

Teve noção da gravidade das lesões?
_Só no hospital, em Katmandu, uma semana depois. Percebi que teria de amputar as pontas dos dedos. Em Saragoça determinou-se os níveis definitivos de amputação.

Pensou em nunca mais voltar às montanhas?
_Depois de 92 dias hospitalizado em Saragoça numa unidade de congelados, passou-me muita coisa pela cabeça. Nomeadamente desistir. E acho que tive o bom senso de compartimentar os assuntos. Pensei: «OK, fiz asneira, há que não voltar a repetir estes erros. Tenho sorte de estar vivo e de continuar a gostar da montanha.» Depois de seis meses de reabilitação, voltei outra vez à serra da Estrela, onde comecei. Voltei a América do Sul, ao Nepal e dois anos depois tinha conseguido subir outra montanha de mais de oito mil metros. Queria provar a mim próprio que podia continuar a ser feliz na montanha.

A falta de falanges aumenta o risco.
_Sim, não tenho a mão tão útil como antes e corro mais risco de voltar a congelar.

Tem cuidados especiais?
_Protejo-as mais. Uso os aquecedores nas luvas de cume e não deixo que fiquem dormentes.

Hoje ouve menos falar em si.
_Escalei os 14 picos mais altos do mundo, seis deles por minha conta, os últimos oito com patrocínio, de forma profissional. O contrato terminou em 2010 mas continuo a escalar e com grandes projetos. Só que agora, sem patrocínios que envolvam dinheiro, não passo nas televisões.

Os patrocinados sentem pressão acrescida que os podem levar a arriscar de mais?
_Um pouco. Seja o profissional de patrocínio ou o guia com clientes, como se nota no filme. Para aquela agência era importante levar clientes ao cume nesse ano para manter uma boa reputação.

Num dos seus primeiros livros fala em doze corpos sem vida com os quais se cruzou. Há algum ritual quando se passa por um desses corpos?
_Sentamo-nos um pouco e colocamos mais uma pedra. Infelizmente há cada vez menos respeito por quem ali morreu e sobretudo pelas famílias. Vejo muitas pessoas a fotografar e a publicar imagens de corpos, o que não é bonito.

Com mais ou menos erros e precauções, a montanha tem sempre a última palavra?
_Escalar estas montanhas com mais de oito mil metros pressupõe sempre risco de vida pois não controlamos todos os fatores e todas as variáveis.

Alexandra Tavares-Teles
Fotografia: Gustavo Bom/Global Imagens