OPINIÃO

O herdeiro português da Pop Art

Esta é a extraordinária vida de António Homem.

Privou com Andy Warhol, trabalhou com Roy Lichtenstein, conheceu Jasper Johns. Esta é a extraordinária vida de António Homem, que nasceu em Lisboa, viveu em Zurique, Paris e Nova Iorque e, aos 48 anos, foi adotado pelo casal Sonnabend, herdando uma das maiores coleções de pop art do mundo. Alguns desses quadros podem ser vistos, a partir desta semana, em Lisboa.

Foi num jantar em Zurique que António Homem conheceu os Sonnabend. Era final de 1964 e Roy Liechtenstein tinha vindo à Suíça fazer uma exposição na galeria de Bruno Bischofberger, um negociante de arte com grande interesse pelas tendências que estavam a chegar do outro lado do Atlântico. Dois anos antes, Michael e Ileana Sonnabend tinham aberto uma galeria em Paris e começado a mostrar aos europeus a pop art. Tinham, aliás, provocado um escândalo. António Homem era estudante de Engenharia e assistia com curiosidade à discussão que se desenrolava à sua frente sobre os limites da pintura. Mal sabia ele que passados quatro anos abandonaria tudo para se mudar para Paris e trabalhar com os Sonnabend, que acabariam por adotá-lo e torná-lo herdeiro de uma das mais importantes coleções de arte moderna do mundo.

 

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Uma boa parte desse espólio vai estar em exposição no Museu Arpad-Szenes-Vieira da Silva, em Lisboa, entre 5 de fevereiro e 3 de maio. «São 49 obras de 15 artistas, os principais nomes que marcaram os cinco primeiros anos da Galeria Sonnabend em Paris», diz António Homem num português claro, mas com sotaque yankee. Há trabalhos de Andy Warhol e Jasper Johns, Jim Dine e Roy Liechtenstein, Tom Wesselmann e Robert Rauschenberg. Este último venceu o Grande Prémio de Pintura da Bienal de Veneza de 1964 e provocou uma reação forte dos artistas franceses, que organizam uma exposição contra a pop art e a favor da abstração. «Os trabalhos que Michael e Ileana trouxeram para o Velho Continente foram um terramoto.» O mesmo aconteceria nos anos setenta, em sentido contrário. A mão do casal de galeristas, e o dedo do português levariam uma nova geração de artistas europeus para os Estados Unidos.

«A Galeria Sonnabend revelou-se frequentemente um palco para a arte difícil, que não precisa de procurar a aprovação de ninguém», lê-se num perfil de Ileana publicado pela revista The New Yorker em 2000. «E às vezes essa arte é tão ostensivamente não-comercial que se torna impossível de vender. A coleção que Michael e Ileana angariaram ao longo destes anos é bem capaz de se tornar o seu maior legado.» Para se perceber então tudo o que o galerista português António Homem herdou é preciso compreender primeiro quem era o casal que trouxe a pop art para a Europa.

 

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Ileana nasceu em Bucareste em 1912, filha de um judeu romeno e de uma intelectual austríaca – que se casaria em segundas núpcias com um pintor americano, John D. Graham. Aos 20 anos, a rapariga conheceu Leo Castelli, provavelmente o maior galerista do século xx, com quem acabaria por casar e fugir para os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Juntos, descobriram as novas tendências artísticas que tomavam conta do país e abriram uma galeria para os promover, em Nova Iorque. Tiveram uma filha e, apesar de se divorciarem em 1959, manter-se-iam amigos para a vida. Nesse mesmo ano Ileana casou com Michael Sonnabend, especialista no trabalho de Miguel Ângelo que havia conhecido uma década antes, na Universidade de Columbia. Foi ela que o pediu em casamento. Em 1962, o casal abriu a galeria em Paris.

Na última entrevista que concedeu antes de morrer, ao jornal britânico The Independent, Andy Warhol definiu Ileana Sonnabend como «a mãe da pop». «O que a tornava extraordinária é que ela tinha um entusiasmo genuíno pelo que ainda estava para vir», lê-se no obituário que o The New York Times lhe escreveu em 2007. «Em vez de descansar à sombra do seu triunfo parental sobre a pop art, ela tinha um olhar apaixonado para descobrir os novos movimentos da cena artística.» Foi assim em França nos anos sessenta e foi assim nos Estados Unidos, até à sua morte.

No dia em que conheceu os Sonnabend, António Homem era já um apaixonado por arte, ainda que não fizesse ideia de que seria ela a determinar a sua vida. «O meu pai queria que eu estudasse engenharia, e por isso tinha-me mandado para Zurique. Mas o meu interesse foi crescendo e, quando conheci os Sonnabend, pensei que era isto que queria fazer da minha vida, era isto que eu queria ser.» A partir desse dia, houve qualquer coisa que mudou nele. Nos quatro anos seguintes foi maturando a ideia até que, em 1968, partiu para Paris.

 

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EIS O HOMEM

Em outubro de 1939 Lisboa era infinitamente mais pobre. António Homem passou décadas sem visitar a cidade onde nasceu e, aos 75 anos, tem dificuldade em reconhecê-la. «Desde 1968 só voltei a Portugal duas vezes», diz agora na sede do museu que acolherá a sua exposição, frente ao Jardim das Amoreiras. «A primeira em 1981, para visitar o meu pai, que estava muito doente. E a outra foi em 1999, para a inauguração do Museu de Serralves, no Porto.» Essa viagem, contudo, aconteceu ao lado de Ileana, e António sentia-se estrangeiro no seu país. «Agora é uma experiência nova, um verdadeiro regresso», e emociona-se, «como se todas as partes da minha vida convergissem para aqui».

Filho de um advogado «ríspido e teimoso» e de uma mãe «carinhosa e curiosa», António cresceu na Rua Rodrigo da Fonseca, a meio caminho entre o Marquês de Pombal e as Amoreiras. «Brincava neste jardim», e aponta com um gesto de cabeça para o exterior do museu, «e no Parque Eduardo VII, na altura tão diferente do que é hoje.» Tinha uma predileção especial pela Estufa Fria e, há uns anos, quando visitou a Guatemala, reconheceu na paisagem latino-americana a mesma flora que havia visto na capital portuguesa.

 

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Estudava na Queen Elizabeth School, ao cimo de São Bento, e aos fins de semana rumava invariavelmente a uma quinta da família em Santo Amaro de Oeiras, há muito substituída por uma urbanização com vista para a barra do Tejo. «Era filho único e a biblioteca do meu pai foi a minha fonte de formação artística.» Além de os Homem assinarem publicações como a Paris Match, o Le Nouvel Observateur, o L’Express e a Arts & Spectacles, a biblioteca dispunha de uma notável coleção de livros de arte, onde o rapaz perdia horas a admirar gravuras e catálogos, a ler biografias de pintores. «A minha mãe tinha um espírito muito aberto e um dia apanharam-me a ler o Eça, que era muito ousado para os padrões da altura.» A memória puxa-lhe as lágrimas, são histórias que não contava há décadas. «Mas deixaram-me ler Os Maias e O Crime do Padre Amaro. Tive uma infância muito feliz.»

Prosseguiu os estudos no Liceu Pedro Nunes, onde fez três amigos muito próximos, a quem perdeu o rasto e anuncia o nome, na esperança de que estejam vivos e, quem sabe, o possam procurar depois de ler este artigo – Armando Tavares da Silva, Alfredo Martins Barato, Carlos Bigote de Figueiredo. Passava férias na Madeira, de onde eram originários o pai e os avós maternos. «Nesses anos descobri o ballet, o São Carlos tinha uma agenda bastante boa.» Mas o prato forte dos seus dias era o cinema, onde ia quase todos os dias com a mãe, sua companheira na descoberta intelectual.

Quando o pai insistiu em que fosse estudar engenharia para Zurique, exasperou. «Eu tinha 16 anos e deixei para trás toda a minha vida para viver uma vida que não era a minha», diz. Chegou em 1955 e instalou-se num quarto alugado. Todos os dias jantava em casa do cônsul português na cidade, amigo de longa data do pai. «Mas em Lisboa só existia a Gulbenkian e a Academia das Belas-Artes e agora eu podia explorar coisas novas.» As galerias de arte moderna estavam em grande voga, o museu da cidade tinha acabado de abrir uma ala dedicada às novas tendências da pintura. Fez amigos com interesses próximos dos seus e acabou por conhecer Bruno Bischofberger, que tinha uma importante galeria na sua rua.

Em 1963 casou com uma rapariga grega que se interessava pelos mesmos temas e, um ano depois, tiveram um filho, chamado Phokion Potamianos-Homem. «Eu era por esses dias um tipo muito responsável, preocupado em satisfazer os meus pais, a minha família. Vivia uma vida convencional, mas essa era a vida dos outros.» Separou-se em 1966 e a mulher foi viver para Paris. Um ano mais tarde, quando a foi visitar, encontrou–se com Ileana e Michael, já decidido a mudar de vida, «disse-lhes que queria estagiar com eles e depois abrir uma galeria em Paris. Eles não responderam».

Corria 1968 quando terminou os estudos. «Os meus pais vieram a Zurique tentar convencer-me a trabalhar como engenheiro e, quando os fui buscar ao aeroporto, vi Ileana na rua, estava de visita à Galeria Bischofberger.» Cumprimentaram-se e ela acedeu ao seu pedido de trabalhar em Paris. Em setembro de 1968 partiu para a capital francesa. E nesse mês a sua vida mudou para sempre.

 

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COM TODA A NATURALIDADE

À chegada a Paris, António decidiu cortar com o passado. Não voltaria a Portugal, desligar-se-ia da mulher, que entretanto se tinha mudado para Londres, e até do filho, pela tensão que cada reencontro acarretava. Haveria de reencontrá-lo trinta anos depois, em Nova Iorque, e tornar-se-iam bons amigos. Mas aqueles anos de Paris significavam começar do zero. Começou por viver sozinho num apartamento em Saint-Germain–des-Prés, mas a relação com a Sonnabend não demorou muito a estreitar-se.

A galeria parisiense fechou portas nesse ano, mas os Sonnabend, sobretudo Ileana, continuavam na Europa à descoberta de novos talentos. António, nesta altura, conquistou-os com as suas ideias perspicazes, trazendo para cima da mesa grandes nomes europeus da arte moderna, como Gilbert & George ou o casal Bencher. «Inclinávamo–nos naturalmente para as mesmas escolhas e eles acabaram por me convidar para viver com eles.» Michael foi-se isolando, mas Ileana começou a confiar cada vez mais em António.

Viajavam por toda a Europa, à procura de novos talentos. «Nessa altura o dinheiro não era o mais importante, era a excitação de encontrar algo de novo que fazia o galerista. Oh, como as coisas mudaram.» Homem, Ileana e Andy Warhol descobriram um interesse novo a três, e andavam pelas feiras da ladra de Paris à procura de mobiliário art déco. «Anos mais tarde organizámos juntos o primeiro concerto dos Velvet Underground em Paris.» Warhol haveria de pintar em 1973 um díptico de Ileana Sonnabend, que em troca lhe ofereceu um móvel de Émile-Jacques Ruhlmann, avaliado em cem mil dólares.

No início da década de 1970 mudam-se os três para Nova Iorque e, no ano seguinte, abrem as portas de uma nova galeria, numa antiga fábrica de papel. «E foi isso que transformou o Soho no centro artístico do mundo», disse em 2007 o crítico de arte britânico Charles Darwent. «Ao início havia a ideia de que eu poderia dirigir a galeria e Ileana e Michael continuarem a viajar, procurando talento pelo mundo. Depois percebemos que o diálogo que estabelecíamos era natural e orgânico e, por isso, essencial a que as coisas funcionassem.» Michael Sonnabend, verdade seja dita, foi-se afastando dos destinos da galeria. No diálogo entre António e Ileana criou-se uma das mais emblemáticas coleções de arte do mundo.

Na mesma medida em que a romena naturalizada americana tinha espantado a Europa com a apresentação das novas tendências americanas, também os Estados Unidos puderam conhecer os novos fenómenos artísticos europeus – a arte minimal, a arte povera – pela Galeria Sonnabend. A coleção ia crescendo a um ritmo impressionante, e foi assim até à morte de Ileana, em 2007. São centenas e centenas de obras que compõem uma das mais importantes coleções de arte da segunda metade do século xx. Especialmente de pop art.

 

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A adoção de António pelos Sonnabend aconteceu em 1987, por iniciativa de Ileana e com o apoio de Michael, que disse já o considerar um filho. «Andávamos sempre a correr mundo e eu estava a começar a ter problemas de visto, por não ter nacionalidade americana. Todos concordámos com a ideia, com toda a naturalidade. Mesmo a filha biológica de Ileana concordou.» A divisão dos bens, aquando da morte da matriarca, também não apresentaria problemas: metade do espólio seria conservado numa fundação e caberia um quarto do valor das obras a cada herdeiro.

Depois da morte de Ileana Sonnabend, António Homem decidiu pôr fim à atividade expositiva da galeria. «Havia problemas de impostos e tivemos de vender dez por cento dos quadros, mas que representavam 25 por cento do valor da coleção. Alguns Warhols, Liechtensteins e Jaspers, claro.» Ainda assim, o património continua a constituir uma das mais relevantes coleções do mundo.

Tentou, ainda assim, preservar o espírito aventureiro dos Sonnabend. Está sempre disponível para fazer exposições em qualquer parte do mundo, e é isso que tem feito. Em 2016, aliás, haverá novas montras da coleção Sonnabend em Serralves e no Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva.

António Homem continua a viver em Nova Iorque, mas este regresso a Lisboa, aos 75 anos, não pode deixar de ser um retorno a si próprio. Durante anos recusou o homem que foi para abraçar uma nova identidade, a sua vida em vez da vida dos outros. Agora parece estar a reconciliar-se com toda a história, com tudo o que viveu. No dia em que o entrevistámos, António foi interrompido por uma visita. Uma tia de 92 anos, Maria Helena Homem da Costa, com quem havia perdido o contacto em Zurique e recuperado depois da morte de Ileana. Ela leu um artigo sobre ele, contactou-o. Ele ofereceu–lhe um computador, para que pudessem falar por Skype. E hoje têm um almoço tardio em casa dela, em Campo de Ourique. Acabará por durar até às onze da noite.

 

Ricardo J. Rodrigues
Fotografia de Gonçalo Villaverde / Global Imagens