OPINIÃO

Noites tranquilas

Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer.

Isso já sabemos. Mas sabe quão determinante uma boa noite de sono pode ser para o desenvolvimento e a aprendizagem dos seus filhos? Descubra como ajudá-los a ter noites tranquilas – e, com isso, a entrar da melhor forma no novo ano letivo.

Dormimos menos do que devíamos e as crianças não são exceção. Essa é uma das conclusões a que chegaram Olinda Oliveira e Zélia Anastácio. Depois de entrevistarem mais de 500 jovens entre os 9 e os 17 anos, as investigadoras do Instituto de Educação e do Centro de Investigação em Estudos da Criança (CIEC) da Universidade do Minho, respetivamente, concluíram que a maior parte dormia, em média, sete a nove horas diárias, durante a semana. O que é pouco.

«A maioria dos alunos possui aparelho multimédia no quarto, o que parece retardar o horário de deitar. Os sintomas que mais admitem são mudanças de humor, ansiedade, bocejar constantemente, agitação e falta de motivação.» Esta é uma das conclusões a que chegaram as autoras do estudo Influência da qualidade do sono na saúde, no comportamento e na aprendizagem de adolescentes de 2.º e 3.º ciclos do ensino básico português, divulgado pelo CIEC no repositório institucional online da Universidade do Minho. Mas além das consequências facilmente detetáveis, há outras, ainda mais graves, que também podem surgir por causa da privação de sono: problemas de saúde, como a obesidade e a menor resistência a doenças, e problemas de comportamento, como hiperatividade, impulsividade e desatenção.

E como fica a escola e o rendimento escolar no meio de tudo isto? «Vários estudos indicam que um sono de qualidade (reparador e contínuo) tem um papel muito importante na memória e na aprendizagem», diz Filipa Sommerfeldt Fernandes, especialista em sono de bebés e crianças. «A falta de sono afeta o nosso humor, a nossa motivação e a nossa tolerância. Uma criança pequena é afetada ainda mais do que um adulto quando não descansa de forma adequada. Isto porque estão sujeitas diariamente a novas aprendizagens e estímulos. Imagine ter de aprender continuamente, mas estar sempre cansado. Por isso é tão importante ajudar os mais pequenos a dormir bem.»

A neurologista Teresa Paiva, uma das maiores especialistas de sono em Portugal, é clara no que toca à importância de uma noite bem dormida. «O sono é uma coisa quase sagrada, mais natural do que a sua sede», disse em entrevista à Notícias Magazine para a reportagem A Guerra dos Sonos, publicada a 10 de maio deste ano. O que não significa, porém, que pais e filhos durmam bem. «Em Portugal deitamo-nos cada vez mais tarde e levantamo-nos mais cedo. Os idosos continuam a descansar razoavelmente bem, mas as gerações mais novas sofreram mudanças substanciais no estilo de vida nas últimas décadas que favorecem o cansaço», alerta a neurologista, sublinhando o facto de setenta por cento dos portugueses continuarem a ir para a cama depois da meia-noite – crianças e adolescentes incluídos.

Essencial para garantir um bom sono reparador é o ambiente em que este irá ocorrer. Por isso os quartos das crianças devem ter tons suaves, evitando estímulos. O mesmo é aplicável aos brinquedos: se um peluche pode ajudar a dormir, ter demasiados brinquedos perto da cama pode ser uma distração. Procure manter o quarto das crianças organizado, uma vez que o caos e a confusão são prejudiciais ao descanso. Se o seu filho tem medo do escuro, uma luz de presença, móbil ou projetor podem ajudá-lo a vencer os receios e dormir mais tranquilo.

Tenha também atenção à temperatura do quarto e escolha sempre a roupa de cama tendo em conta a estação do ano. Finalmente, evite aparelhos eletrónicos no quarto e tente acabar com a televisão antes da hora de dormir. Um estudo da Universidade de Auckland, Nova Zelândia, publicado em 2013, concluiu que quanto mais tempo as crianças passam em frente à televisão antes de dormir, menos horas dormem. Assim, substitua este (mau) hábito por uma história ao deitar que, além de ajudar as crianças a acalmarem-se, é também uma forma ideal para pais e filhos partilharem tempo juntos depois de um dia passado na escola e no trabalho. Uma boa sugestão poderá ser o mais recente fenómeno de vendas da Amazon, O Coelho Que Queria Muito Dormir, do psicólogo sueco Carl-Johan Forssén Ehrlin.

QUATRO SUGESTÕES

Especialista em ritmos do sono em bebés e crianças, com formação específica na área, autora do livro 10 Dias para Ensinar o Seu Filho a Dormir [ed. A Esfera dos Livros] e responsável pela página de Facebook Sleepy Time, FILIPA SOMMERFELDT FERNANDES dá consultas de terapia do sono em Lisboa e no Porto. E sugere algumas dicas para ajudar os mais novos a dormir melhor neste regresso às aulas.

1. MANTENHA AS ROTINAS
«As rotinas são pontos de segurança que ajudam as crianças a prever o que vai acontecer a seguir e, por isso, a ficarem mais tranquilas. O dia delas tem tantas novidades que é bom saber que a determinada hora o pai chega, que depois janta, a seguir à história recebe mimos e vai dormir. As rotinas devem ser agradáveis, não demasiado longas (30/40 minutos) e incluir sempre momentos de brincadeira, mimo e relaxamento. Uma boa rotina para uma criança pequena pode incluir o jantar, brincadeira com os pais no quarto, banho, história, mimo e cama. E, ao contrário do que por vezes se pinta, deve haver exceções.»

2. FAÇA-OS SENTIR SEGUROS
«Com a entrada na escola ou na creche, muitas crianças ficam mais “carentes” e ansiosas (e os pais também). É natural que isso se reflita no momento de deitar, que pressupõe separação. Nos primeiros tempos, chegar a casa e deixar as tarefas de lado para que possa estar mais tempo com os filhos no mimo e na brincadeira pode fazer a diferença.»

3. DEITE-OS CEDO
«Recomenda-se que as crianças em idade escolar e pré-escolar durmam entre dez e doze horas. Tendo em consideração que a maioria desperta entre as sete e as oito da manhã, deveriam ir para a cama entre as 20h00 e as 21h00. O nosso corpo liberta melatonina, a hormona indutora do sono, com a redução da luz solar. Por isso, quando começa a ficar escuro (pelas 20h00 no inverno e pelas 20h30 no verão) devemos aproveitar o empurrão que o corpo nos dá para deitar os mais pequenos. Se os deitarmos na hora a que o corpo está preparado para tal, eles irão para a cama mais tranquilos e relaxados. Se os deitarmos tarde, teremos crianças progressivamente mais elétricas e excitadas em casa.»

4. SUGIRA UM OBJETO DE TRANSIÇÃO
Se o seu filho tiver um boneco especial, uma mantinha ou uma fralda que use sempre para dormir em casa, pode ser útil levar uma igual para a escola. Será um ponto de referência para ele e que o irá ajudar a dormir a sesta, se ainda for o caso disso.»

O COELHO QUE PODE AJUDAR

É o livro-sensação do momento e a versão inglesa (The Rabbit Who Wants to Fall Asleep) chegou a número um de vendas na Amazon no Reino Unido. Segundo o autor, o psicólogo e linguista sueco Carl-Johan Forssén Ehrlin, é «o equivalente verbal a embalar uma criança» e foi desenvolvido integrando estratégias que promovem o sono dos mais novos em poucos minutos. Para que funcione, os pais devem adotar técnicas como bocejar várias vezes, ler lentamente e em voz suave as passagens em itálico, dar ênfase às palavras a negrito e inserir o nome da criança em vários pontos da história. Depois da publicação do original, em sueco, numa edição de autor em 2011, está traduzido em várias línguas, incluindo uma versão em português do Brasil. Está à venda na Amazon por 20 dólares (17,6 euros).

Laura Patrício
Fotografia: Corbis