OPINIÃO

Nascer outra vez

Histórias de gente que enterrou o passado e renasceu.

João deixou de ser banqueiro para se dedicar a projetos de solidariedade. Basílio viajou da direita para a esquerda. Teresa perdeu um pé e passou a ganhar medalhas na natação. Ala mudou de nacionalidade para perceber o mundo. Arnaldo está a transformar-se em Sarah. No dia em que os cristãos celebram a ressureição de Jesus, contamos a história de cinco pessoas que enterraram o passado e começaram a viver de novo.

TERESA NEVES, 17 ANOS
Aprender a ter pé

«SE EU NÃO TIVESSE DE AMPUTAR O PÉ SE CALHAR NÃO SERIA TÃO FELIZ. Porque dificilmente poderia representar Portugal, e não há nada que me dei­xe mais contente do que isso.» Teresa Neves é nadadora paralímpica, tem 17 anos e é recordista nacional de 50, 100 e 400 metros livres, 100 metros costas e a mesma distância em mariposa, além de 50 e 200 metros estilos, em nata­ção adaptada. Aos 9, a vida trocou-lhe as voltas.

Tinha 6 meses quando começou a fazer piscina para bebés, muito por cul­pa do pai, José Neves, antigo nadador do FC Porto. «A miúda dava-se bem com a água, tinha um jeito natural», diz ele. Aos 2 anos já insistia em tirar as braçadeiras e aos 5 já imitava os golfinhos, um dia feliz era passado em mer­gulho. Até que, aos 6 anos, começaram as queixas.

Vitória Lamego lembra-se da aflição da filha, tantas dores no pé. Era sacri­fício intermitente, mas havia dias que nem conseguia levantar-se. Teve de abandonar a natação. «Levei-a a uma catrefada de médicos, faziam raios-X, não descobriam nada. Chegaram a sugerir que fosse uma crise de ciúmes por causa do nascimento do irmão mais novo. Mas não era, claro que não era.» Um ortopedista do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, prometeu-lhe que não desistiria e encomendou uma ressonância magnética. Detetou um enor­me tumor no pé de Teresa. Ninguém sabia se era ou não maligno.

A 4 de agosto de 2004, o tumor é removido integralmente. Segue para análise, mas demora 23 dias a determinar que é uma espécie rara de cancro. «Nessa altu­ra decidimos levá-la a um instituto em Paris e fazem-lhe uma raspagem dos teci­dos, que não apresentam metástases.» Teresa começa a recuperar, regressa à es­cola, inscreve-se no ballet. Sonho de menina, queria ser bailarina.

Três anos depois, as dores. Apesar de ser vigiada regularmente, o tumor tinha encontrado maneira de voltar a crescer e metastizar-se por todo o pé. «Em Paris disseram-nos para nos prepararmos para uma amputação. Tentei explicar à minha filha o que ia acontecer, ela ficou calada e no fim disse que queria ir andar de bicicleta», diz Vitória. Inconscientemente, a miúda esta­va a despedir-se do que sempre tinha podido fazer.

A 27 de julho de 2007, com 9 anos, Teresa acordou sem um pé. «Foi aí que me apercebi do que tinha acontecido.» Os meses seguintes foram uma luta – quimioterapia, a perda de cabelo, habituar–se às muletas e depois à prótese. Tinha acabado de entrar na 4.ª classe, frequentava um colégio com farda obrigatória – meninas de saia e sapatos de verniz. «Foi muito difícil, por­que ela não podia usar essas roupas. Depois ficava frus­trada por não fazer as aulas de desporto», lembra a mãe. Os pais acharam que era boa ideia ela fazer natação de re­abilitação. E então, um ano depois de perder o pé, a miú­da voltou a sorrir.

Na piscina do Sporting Clube de Portugal não tardou a dar nas vistas, mesmo sem pé era velocista e corredora de fundo. O terapeuta falou com os técnicos do clube, Teresa rumou a uma equipa regular. Aí tinha colegas da escola que lhe aplau­diam a competência, que grande nadadora que ela era. «Nadar salvou-me a vida, fez-me sentir normal», diz ela agora. «E então, se eu não morri, achei que tinha de dar o máximo à vida. É isso que eu faço todos os dias: dar o máximo que tenho à vida.»

nm1193_conversao04

SARAH SPATZ, 38 ANOS
A importância de ter sido Arnaldo

SARAH ESTÁ A MEIO DO PROCESSO DE TRANSIÇÃO. COMPLETOU A PRIMEIRA avaliação médica que lhe vai permitir fazer a cirurgia de mudança de sexo, ain­da espera por um segundo exame interdisciplinar e pela autorização legal da Or­dem dos Médicos. É transexual, por enquanto, mas daqui a pouco mais de um ano conta ser uma mulher plena. Não tem dúvidas de que é isso que o corpo lhe pede. Que sempre lhe pediu.

Nasceu no Brasil, em São Paulo, com sexo masculino e nome Arnaldo. O ape­lido, Spatz, vem dos avós judeus – ele alemão, ela de Belmonte – que fugiram da Segunda Guerra Mundial rumo à América do Sul. «A minha história é a de toda a gente que tem disfunção de género. Brincava com bonecas, vestia roupa de meni­na, tudo isso. Aos 9 anos a minha mãe apanhou-me com as roupas dela e foi uma calamidade em minha casa.» A família, tradicional e ríspida, nunca lhe daria es­paço para se assumir. Arnaldo aprendeu cedo a esconder Sarah.

Estudou Sociologia Política no Brasil, mas nunca exerceu. Cumpriu dois anos de serviço militar em Israel. Quando regressou a casa, começou a conduzir um tá­xi, fazia bom dinheiro na ronda. Sentia o apelo de se tornar mulher, mas reprimia o impulso – a culpa era demasiado grande. «Todos os dias eu ia fazer jogging para o parque e metia conversa com a moça do quiosque. Acabámos por nos envolver sexualmente e ela engravidou. Casámo-nos.»

Ao longo de uma relação que durou seis anos não tiveram sexo mais de quatro ou cinco vezes, mas tiveram dois filhos. Tinham casa cheia, ele tentava descoor­denar os horários com a mulher para evitar qualquer forma de intimidade. «Ar­ranjei um pequeno apartamento no centro de São Paulo, onde ia diariamente ves­tir-me como mulher. Depois saía, dava uma volta pela rua e voltava ao trabalho. Era tudo uma grande mentira.» A depressão ia ganhando terreno, uma noite tentou enfiar o táxi por uma ribanceira porque não aguentava mais. «So­brevivi e, quando acordei, decidi contar tudo à minha mulher. Ela acei­tou mal, mas eu expliquei-lhe que ou me assumia mulher, ou morria.»

Decidiu sair do Brasil, mudou-se para Portugal, onde tinha direi­to a cidadania por legado da avó. O filho mais velho – de 18 anos – aceitou a nova condição paterna, são bons amigos. O mais novo – de 15 – não lhe fala. «No início tentei uma vida como homossexu­al, mas também não me sentia bem. Voltei a entrar em depressão, perdi casa e trabalho, tive de ir dormir para a rua. Demorei mui­to tempo e finalmente percebi que se não me transformasse em mulher, ia acabar por morrer.»
Saiu das ruas pela mão da revista Cais, já com as decisões para a vida tomadas. Encontrou trabalho a organizar eventos e con­certos e começou a frequentar as reuniões da ILGA, organização de defesa de direitos LGBT. «Com o apoio dos psicólogos comecei a minha transição. E percebi que, se calhar, tinha uma oportunida­de de ser feliz.»

Há pouco mais de um ano perdeu definitivamente o medo. Assumiu nas redes sociais que deixara de ser Arnaldo, começou a vestir-se como mulher e iniciou o processo de transição nos hospitais públicos. Hoje é ati­vista pelos direitos dos transexuais, que na sua opinião continuam a ser alvo de discriminação por estarem escondidos. «Para as pessoas que acharem a minha opção estranha eu tenho uma resposta. Testei tudo, experimentei tudo e nada funcionou. Se eu não puder ser mulher, não quero existir.» Falou Sarah.

nm1193_conversao03

BASÍLIO HORTA, 70 ANOS
O socialista que não é

NUNCA QUIS SABER DE RÓTULOS, POR ISSO DIZ ESTAR A BORRIFAR-SE para quem lhe chama troca-tintas. Basílio Horta, fundador do CDS, foi eleito presidente da Câmara Municipal de Sintra com o apoio do PS. «Não sou filiado e nunca deixei de ser democrata-cristão», avisa de caras. «O meu partido, que era centrista no método, é que derivou para a direita liberal. Eu nunca poderia continuar num projeto que enfraquece o Estado, cria pobreza, fragiliza os idosos.»

Nos anos quentes em que o país vivia um período revolu­cionário, ele assumiu o posto de secretário-geral do CDS, prova dura. «Chamavam-nos de extrema-direita por­que nesse tempo toda gente era de esquerda.» Mas es­sa não era a sua verdade, nem a de Freitas do Ama­ral. Vê hoje que as bases do partido sempre estive­ram mais à direita do que a sua direção. «Nós éramos pela justiça social, não nos interessavam as defini­ções de esquerda e direita. Quando fizemos a Alian­ça Democrática com o PS mostrámos isso mesmo. Estávamos juntos no combate contra a disparidade económica da população.»

A mudança no seu partido começou, nas suas pa­lavras, logo em 1976, com a chegada de Francisco Lu­cas Pires. «Era de facto a chegada da tal direita liberal, que ideologicamente quer que os sistemas funcionem por si, sem intervenção do Estado. Era uma teoria dife­rente, mas o Lucas Pires nunca atentou contra as ideias da fundação do CDS e, como éramos democráticos, fizemo-lo vi­ce-presidente.» A rutura viria a acontecer mais tarde, nos anos noventa, com a chegada de Manuel Monteiro à direção.

Depois de anos na bancada parlamentar, Basílio Horta decidiu afastar–se do CDS quando percebeu que o partido tinha novas ideias. «Deixou de ser o CDS, passou a PP.» Não seria mais lógica uma aproximação ao PSD? «Quando me candidatei á presidência da República, contra o segundo mandato de Má­rio Soares, o PSD decidiu apoiar o candidato socialista. Disseram que quem vo­tasse em mim estaria a votar contra o PSD. Como é que eu poderia aproximar–me desse partido?»
Em 2002, as diferenças entre Basílio Horta e o PP tornam-se irremediáveis. Paulo Portas retira-lhe a presidência da bancada parlamentar e Guterres, então primeiro-ministro («um dos melhores homens que passaram pela política por­tuguesa»), convida-o para embaixador na OCDE. Era o primeiro passo.

Quando Sócrates vence as legislativas de 2005, Horta está a terminar o man­dato na OCDE e é convidado para o ICEP, a agência governamental de fomento económico no exterior. «Trabalhávamos quase diariamente e, quando me con­vidou para deputado, eu não podia dizer que não.» Assiste à coligação de Passos Coelho com Portas na bancada socialista, como independente. Passa a criticar ferozmente as posições do governo. «Não podia estar num sítio que tivesse es­tas políticas em relação aos salários, às pensões, à privatização do bem público. Não podia ser cúmplice desta desumanização toda.» Em 2014, foi eleito presi­dente da Câmara Municipal de Sintra com o apoio do PS. A sua prioridade, diz–nos agora, são as políticas sociais.

nm1193_conversao05

JOÃO ERMIDA, 50 ANOS
Não vale tudo

ERA 2003 E, EM ESPANHA, O BANCO SANTANDER FUNDIA-SE COM A CENTRAL Hispano, tornando-se um dos gigantes mundiais da alta finança. João Er­mida dirigia a tesouraria e os mercados financeiros do grupo a partir de Ma­drid. Viajava constantemente para Nova Iorque, Tóquio ou Frankfurt, era rico – muito rico. «Um dia disseram-me que teria de despedir cinco pessoas da minha equipa. Não me pediram para reduzir despesa, mas sim para des­pedir. Então eu disse para me despedirem a mim. Foi nesse dia que o copo de água transbordou.»

Há muito tempo que o desconforto lhe andava a crescer no peito. «Fui sen­tindo que se estava a perder qualquer valor humano, que se jogava com o di­nheiro das poupanças dos cidadãos em manobras arriscadas.» As carteiras de investimentos tinham todas ratings espetaculares, eram enganosas, pu­nham em causa anos e anos de credibilidade do sistema. Ele ainda acredi­tava numa certa ética dos velhos banqueiros, rigor nas contas e nos investi­mentos. Mas o espaço para fazer as coisas à sua maneira estava a estreitar-se.

Nos anos oitenta tinha deixado o curso de Economia na Católica para tra­balhar com um primo, corretor da bolsa. A partir daí foi sempre a subir. Hor­ta Osório, que tinha sido seu professor na universidade, convidou-o para as­sistente do diretor de mercado de capitais no Citibank, a partir de Londres investia nas bolsas do mundo inteiro. Na década seguinte, ajudou a construir o Santander Negócios (um sucesso) e o Santander Brasil (um fracasso). Até que lhe pediram para ser o homem forte do grupo na área dos mercados. Não era o lobo de Wall Street, mas era um lobo em Madrid.

«O mundo financeiro estava, nessa altura, claramente a mudar. Falsificar as contas tornou-se uma prática tolerada – e eu tinha de me confrontar com isso to­dos os dias.» À noite, quando chegava a casa, ligava para Lisboa, falava com a mulher e os filhos, sentava-se no sofá e pensava, nas suas palavras, que não queria fazer parte daquele mundo. «Mais cedo ou mais tarde a coisa tinha de explodir e eu não podia estar ali.»

Depois de se despedir, em 2003, voltou à capital portuguesa, tirou tempo para si e escreveu um livro de método para os mer­cados financeiros – Verdade, Humildade e Solidariedade (ed. Ofi­cina do Livro). A obra foi lançada a 12 de setembro de 2008, um dia depois da falência da Lehman Brothers, que acaba­ria por provocar a maior recessão económica do mundo desde a Grande Depressão. «Fui ganhando a vida a dar pa­lestras, fazer consultadoria a famílias que querem investir bem, trabalhei com o governo para tentar salvar o BPP.» Diz que em tudo isso tentou aplicar os critérios de humani­dade que entretanto desapareceram da alta finança.

No ano passado editou um romance, o Dono do Mundo, sempre à volta do mesmo tema. Todas as semanas faz vo­luntariado no Centro Paroquial da Ajuda, em Lisboa, «não por ser um homem particularmente religioso mas por que­rer ser solidário». Ajudou a organizar os 60 funcionários da instituição e a sua paixão está na Terceira Idade – passa horas à conversa no Lar de São José e apoia as equipas de trabalho domici­liário. Há uma velhota a quem ele trata por princesa, que lhe quer en­sinar tricot. Ainda não chegou a tanto, mas nunca se sabe.

nm1193_conversao02

ALA LITKOVETZ, 50 ANOS
A descoberta do paraíso

NO DIA EM QUE CHEGOU A CARTA QUE LHE CONCEDIA A NACIONALIDADE portuguesa, Ala Litkovetz arrumou o papel e não lhe ligou particular atenção. «Para mim era absolutamente natural eu tornar-me portugue­sa. Posso só ter a nacionalidade há três anos, mas sou portuguesa des­de o primeiro dia em que aqui cheguei. Sabes porquê? Porque me apai­xonei imediatamente por este país. E porque nunca o deixei de amar.» Foi há 15 anos. No dia em que aterrou em Lisboa, encontrou «o paraí­so na terra.»

Nasceu no Noroeste da Ucrânia, junto à fronteira com a Polónia. E foi ali que passou aquilo a que chama a sua «primeira vida». Cresceu num meio pobre, estudou numa escola de música e depois no conservatório. Piano. «Não conhecia nada do mundo e fui percebendo a riqueza dos sen­timentos humanos através do ritmo, do compasso, dos compositores.»

Apaixonou-se por um saxofonista, casaram-se e tiveram um filho. Viram o Muro de Berlim cair e assustaram-se. «Eu tinha toda a propa­ganda soviética na cabeça, pensava que no Ocidente era tudo uma gran­de máfia, estava cheia de medo.» De repente o preço das casas começou a aumentar, havia coisas novas para comprar nas prateleiras do super­mercado mas não havia dinheiro. «E aos poucos comecei a pensar que devia mudar de vida, de país. Tentar poupar e voltar.» Não foi nada dis­so que aconteceu.

Chegou a Portugal em 2000, já com um segundo filho nos braços. O mais velho tinha ficado com os avós na Ucrânia, a concluir os estudos. «De Portugal eu só conhecia Salazar e as Descobertas, que era o que ti­nha aprendido na escola. Mas assim que cheguei percebi a delicadeza das pessoas, tão gentis que eram. Foi uma revelação.»

Começou a trabalhar em limpezas, ainda hoje as faz para pagar as contas. E a dar aulas particulares de piano, no início a crianças ucrania­nas, agora sobretudo a portuguesas. «Tenho três alunas que entraram no conservatório com médias superiores a 90 por cento. É um orgulho muito grande.»

À medida que os anos iam passando, Ala ia-se apaixonando pelo país. «Os ucranianos são tão agressivos como os portugueses são simpáticos. Ao chegar aqui eu aprendi que a vida podia ser melhor, mais livre. E co­mecei a viver uma vida plena.» Ler os livros que queria, ver os filmes que lhe apetecia. Tirou a carta de condução, surpreendeu-a a paciência do instrutor. Pode andar na rua à noite, quem diria? Viveu anos em frente a um bar, nunca viu uma cena de pancadaria à porta. «Só os portugueses parecem não perceber que viver num cantinho à beira-mar plantado, e num país de brandos costumes, é o verdadeiro paraíso.»

O que a segunda vida ensinou a Ala? «Ao tornar-me portuguesa aprendi a ser livre. Antes eu não era, mas também não sabia que não era. E é por isso que eu sou portuguesa e que quero ficar em Portugal.» Ainda guarda saudades da Ucrânia, claro. Preocupa-se com o que está a acontecer no país onde nasceu, a guerra e a corrupção. Mas Ala, que nem sequer gosta de praia, tenta ir uma vez por ano para a areia, viver a vida dos outros portugueses. Come bacalhau e sopas como os do Sul da Europa, conhece o hino e interpreta-o com dedicação. Diz que viveu duas vidas plenas. E tão diferentes uma da outra.

Ricardo J. Rodrigues
Fotografia de Gerardo Santos/Global Imagens