OPINIÃO

Música, maestrina!

Quando o Teatro São Carlos vem para a rua.

Nos últimos sete anos, o Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, tem-se mudado para a rua durante o mês de julho – com música lírica, sinfónica e espetáculos de bailado. Mas, nas duas semanas que antecedem o Festival ao Largo – que começou no fim de semana passado e termina no dia 25 – há muito trabalho para fazer.

Todas as outras luzes estão apagadas. No palco, sobre o chão preto, os holofotes iluminam os arcos dos violinos, violoncelos e contrabaixos. Refletem o dourado dos oboés e das flautas, o ondulado de uma harpa, o tampo de um piano. As notas dançam um bailado que se quer ora frenético ora vagaroso. Um sobe e desce de tons, em memória dos grandes compositores clássicos. É nesse palco da sala principal do Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, que decorrem os ensaios da Orquestra Sinfónica Portuguesa (OSP) para o Festival ao Largo. Joana Carneiro comanda as operações. «Mais piano [calmo]», diz a maestrina, expressiva, concentrada, para o naipe de cordas à esquerda. Ao fundo, nos instrumentos de  sopro, as pausas servem para ler, em tablets pousados nos colos. Os ensaios começaram duas semanas antes dos espetáculos de rua e a OSP juntar-se-á ao Coro do Teatro Nacional de São Carlos na véspera da estreia.

Lá atrás, dois andares acima no edifício inaugurado em junho de 1793, já sem o cheiro dos barrotes de madeira que sustentam um cenário liso e sem o calor provocado pelos holofotes, cerca de cinquenta coralistas enchem a sala onde passam cerca de sete horas por dia. O italiano Giovanni Andreoli, maestro titular do coro, vai ouvindo e dirigindo os cantores. Apenas a experiência de quem o faz todos os dias, naquele mesmo sítio, lhes traz a serenidade com que enfrentam o desafio de mais um festival.

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Na sala de ensaios, os elementos do coro afinam as vozes, enquanto vão tomando notas do que não podem esquecer.

A sala dos cenários está vazia, a dos adereços também. «Estão todos lá fora», explica um dos técnicos. Os corredores, que durante uma ópera levam o público à plateia e aos camarotes, estão forrados com cabos gigantes que transportam a corrente elétrica para a rua. No exterior, oito maquinistas, seis eletricistas, um pintor e dois responsáveis por som e vídeo preparam o palco. «A grande diferença entre montar este palco cá fora ou fazê-lo na sala principal é o calor que apanhamos. No final, o que compensa são as cerca de duas mil pessoas que depois vêm assistir», diz Francisco Vicente, o responsável.

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Funciona tudo em simultâneo. Enquanto a maestrina Joana Carneiro ensaia com a Orquestra Sinfónica Portuguesa na sala principal, lá fora oito maquinistas, seis eletricistas e um pintor montam o palco, sob as ordens do responsável, Francisco Vicente.

Esta é a sétima edição do Festival ao Largo. O evento, que termina a 25 de julho, tem servido de chamariz para o trabalho de quem dedica a vida à música lírica. Desde a primeira edição, em 2009 – que se ficou por duas noites de concertos –, até à presente, em que estão previstas 15 – o festival já foi visto por mais de 120 mil pessoas. Um número que deverá chegar aos 150 mil no final deste mês. O primeiro concerto da edição deste ano é um bom exemplo de como a iniciativa é uma aposta ganha. As cadeiras tinham acabado de ser colocadas e já havia quem estivesse à espera de um lugar sentado – eram 17h00 de sexta-feira, 3 de julho. Faltavam quase cinco para o início. Quem ali se deslocou de propósito, ou quem por lá passou por acaso, ouviu obras de Copland, Bernstein, Morricone, Lloyd Webber ou Dvorak, apenas com o céu por abrigo. Bravo.

Ana Filipe Silveira
Fotografia: Diana Quintela/Global Imagens