OPINIÃO

Morte na montanha

Evereste abriu o Festival de Cinema de Veneza.

É o regresso do filme-catástrofe, um género que atrai público às salas e gera muito dinheiro. Evereste abriu o Festival de Cinema de Veneza – e foi lá que falámos com dois atores do superelenco e com a viúva do líder da malograda expedição.

No início deste mês, 15 anos depois, chegou finalmente ao grande ecrã a trágica e incrível história de uma das maiores catástrofes em expedições à montanha mais alta da Terra. O filme chama-se Evereste, é realizado por Baltasar Kormákur, um islandês fanático de cinema de ação e de confronto com a natureza, e estreou-se mundialmente no Festival de Veneza, com honras de abertura e sessão em 3D com a presença dos protagonistas. Josh Brolin, Emily Watson, Jason Clarke, John Hawkes e Jake Gyllenhaal são conhecidos do público, mas as verdadeiras estrelas no Lido de Veneza foram as neozelandesas Jan Hall, viúva de Rob Hall, o líder da expedição fatal, e Helen Wilton, a assistente de retaguarda no acampamento-base, uma das sobreviventes. As duas mulheres falaram com a Notícias Magazine.

O argumento – baseado em vários depoimentos dos sobreviventes e nos livros Left for Dead: My Journey Home from Everest, de Beck Weathers, e Into Thin Air, do jornalista testemunha Jon Krakauer – tenta dar luz às razões pelas quais duas expedições de grupo, em 1996, acabaram num terrível pesadelo depois de uma tempestade com avalancha apanhar os aventureiros em plena descida do topo do mundo: oito mortos, feridos e relatos de incrível sobrevivência em condições mais extremas.

Rob Hall (Jason Clarke), o experiente guia, um dos recordistas em levar de forma segura clientes da sua empresa de aventuras até ao cume da montanha mais alta do mundo, terá morrido a tentar salvar um alpinista que na descida ficou sem oxigénio na botija. O filme mostra-nos a sua lenta agonia e as tentativas desesperadas da sua equipa, em especial de Helen Wilton, a sua inseparável amiga, em tentar encontrá-lo a milhares de metros de altitude. Através de telefone-satélite, Rob falou com a mulher, Jan, na altura grávida de Sarah, até aos últimos momentos da vida. Ao ver o filme, na noite anterior, Jan garantiu que sentiu a alma do marido: «Foi uma sessão de cinema muito intensa! É um filme cuja tensão nunca se desvanece, está sempre em crescendo.» No final fica ainda mais emocional, com as fotografias das pessoas reais. A equipa do filme tentou ser verdadeira e acertou no tom. Do céu e da história.

Helen, interpretada por Emily Watson, acaba por ser o elo com o espetador. A amiga de Rob e uma das líderes da expedição diz que começou por recusar a ideia de ver a sua história ser transformada num filme de Hollywood. Só agora, tantos anos depois, ela e os outros envolvidos aceitaram e deram a bênção à equipa desta superprodução de Hollywood: «Depois de outras aproximações, estes produtores convenceram-nos porque tinham uma maneira diferente de contar a nossa história. Fiquei surpreendida pela forma como estavam bem documentados. Sabe, desde que a tragédia sucedeu têm surgido muitas histórias disparatadas e  isso sempre me magoou.»

Mais comovida, Jan, médica de formação (interpretada por Keira Knightley) que em 1996 só não se juntou ao marido por estar grávida, relembra que Ron atribuía sempre o sucesso da sua empresa de expedições aos sherpas, os guias locais que os ajudavam. «Fui médica em expedições a partir de 1992 e percebi logo na montanha a importância deles. Quando recebi a chamada da Helen de madrugada a dizer que eles não tinham voltado da descida do cume percebi logo o perigo…Ficaram para trás, na tempestade, 21 pessoas. Lembro-me de ele dizer-me ao telefone mais tarde, já sem esperança, que estava ainda no topo. Não quis acreditar, senti uma grande dor.»

O ator John Hawkes, conhecido de filmes como Seis Sessões e Despojos de Inverno (em que foi nomeado para um Óscar) interpreta uma das vítimas, Doug Hassen, um carteiro que, com pouca experiência, acabou por ser engolido pela terrível tempestade. Em Veneza, Hawkes revelou que a história do filme lhe bateu forte mas não considera que tenha ficado a perceber o mecanismo de vício de adrenalina da sua personagem. «Não creio ter ficado a perceber a motivação do Doug. Acho que depois de uma certa elevação é difícil perceber o que passa pela cabeça de certas pessoas. Há relatos desta tragédia que mostram que certos erros foram cometidos por falta de oxigénio, o que muda o comportamento de todos – o nosso pensamento não fica claro. O que sei é que conquistar o Evereste era algo que ele queria muito, mesmo que talvez não fosse a sua obsessão principal. Falei com muitos amigos dele.» No filme, Doug insiste para ser guiado até ao topo do Evereste numa altura em que os outros elementos da expedição já estavam a descer.

Emily Watson (Ondas de Paixão) tem uma interpretação que conquistou a própria retratada, Helen Wilton, na verdade, uma das maiores consultoras da veracidade do filme (diz que corrigiu meticulosamente a primeira versão do guião). Contudo, ambas só se encontraram agora, na altura da estreia. Todas as conversas que tiveram foram via Skype. «Foi espantoso poder finalmente encontrar a Helen, senti que já a conhecia. Mas também foi especial conhecer a Jan. Emocionei-me muito. Para elas, acho, foi demasiado, ainda para mais com a presença da Sarah, a filha de Jan e Rob… O incrível para mim quando pesquisei com a Helen, é que percebi que ela tem esta tragédia muito presente. Tive também acesso a toda a comunicação entre eles via rádio e passo este filme a comunicar via radiotelefone.» Já agora, perguntamos, como faz quando tem de dar vida a alguém ainda… em vida? Haverá um método? «Tentar encontrar a sua voz interior. A da Helen era uma voz muito específica. E haveria também aquele sotaque neozelandês.»

Jan conseguiu refazer a vida e olha para a perda do marido como uma estranha inevitabilidade. «Quando me casei com um homem que trabalha a oito mil metros de altitude havia uma parte que me dizia que não iríamos chegar à velhice. Creio que ajudou o facto de estar grávida. De alguma forma, estava protegida. Nunca me senti sozinha, uma mulher grávida nunca se sente sozinha, especialmente porque uma parte dele estava a mexer-se dentro de mim. A última coisa que o Rob me disse foi dorme bem, não te preocupes comigo, querida. Nessa noite, cheguei a adormecer, aquelas palavras eram da pessoa no ponto mais alto do planeta. Era como estivesse na Lua, como costumávamos dizer. Ele estava tão longe que não poderia ser salvo.» Keira Knightley ao telefone a chorar, a despedir-se do seu amor, sintetiza este pensamento. Para conferir no clímax do filme que não tem medo dos spoilers: todos sabem como termina…

Rui Pedro Tendinha, em Veneza