OPINIÃO

Michael Jackson pode salvar a tua vida

Deus move-se por caminhos misteriosos...

A Igreja do Redentor, em Toronto, no Canadá, tinha cada vez menos fiéis na missa. Até que, há sete anos, começaram a organizar eucaristias rock mensais e as celebrações transformaram-se em concertos. Agora, os melhores músicos da cidade ocupam o altar para tocar Bowie, Dylan ou Led Zeppelin. Há dois meses quando estivemos lá, adorava-se o divino ao som de Michael Jackson. Amen.

Ao terceiro domingo de cada mês, Deus é uma estrela de rock. Na igreja do Redentor, um templo de culto anglicano na baixa de Toronto, há um riff de guitarra que não é nada menos que divino, um set de bateria que é toda uma oração e a palavra da salvação está nas letras das canções. David Bowie é Deus. Johnny Cash é Deus. Tom Waits é Deus. Bob Dylan é Deus. Prince é Deus. Lou Reed também é Deus. Às sete da tarde do terceiro domingo de abril, no entanto, Deus chamava-se Michael Jackson.

A sala está cheia, enche sempre que há uma eucaristia rock. Há sete anos que isto acontece. «Antes a igreja estava sempre vazia, não havia fiéis a quem pregar», diz o pastor Jeff Stone, que durante a celebração há de dançar o moonwalk ao som de Man in the Mirror. «Então lembrámo-nos de agitar um bocado as águas e introduzir um novo conceito. Rock’n’roll de grande qualidade, tocado por bons artistas, nas missas. E com isso começou a vir mais gente e mais gente e mais gente. Caramba, quando chegámos aos Beatles houve uma multidão que ficou à porta e não conseguiu entrar.»

O edifício é de uma imponência vetusta – uma nave central e duas laterais construídas em pedra cinzenta, uma passadeira vermelha até ao altar, ladeada por bancos de madeira maciça. A julgar apenas pela arquitetura, o Deus que aqui vive é monumental e temeroso. Mas depois, junto à sacristia, essa imagem dissipa-se com uma bateria, uma guitarra elétrica, um baixo e um sintetizador. A Igreja do Redentor, afinal, é uma improvável sala de concertos.

O culto anglicano não é assim tão diferente do católico. Há cânticos e leituras, uma homilia e a comunhão. Mas hoje a cerimónia arranca com Jam e toda a gente tem nas mãos um livrinho de fotocópias com a letra da música. Seguindo o tom agudo de Mike Ferfolia ao microfone, o povo entoa que tem de viver cada dia como se fosse o último. «Oh, eu sou vocalista de uma banda chamada Shugga e nos nossos concertos cantamos sempre qualquer coisa do Michael Jackson. Mas nunca tinha cantado pop numa igreja. É simplesmente brilhante.»

Os músicos que aqui vêm parar estão muito longe de serem meninos de coro. «Vêm tipos de blusão de cabedal, tatuagens e piercings no nariz, rockabillies a sério», diz Mike Daley, diretor musical da Igreja do Redentor. É musicólogo, professor na universidade de York, e um pianista de mão cheia. Adepto convicto do jazz, anda há vinte anos a cumprir a rota dos bares de Toronto. Tocou com alguns dos melhores músicos da cidade e são eles que contrata, mensalmente, para os serviços de domingo. «Tento selecionar um casting que já trabalhe as bandas que vamos tocar. Por exemplo, se há uns tipos a fazer bons covers dos Grateful Dead, então a missa vai ser ao som dos Grateful Dead. Por isso temos um nível de qualidade altíssima.» O Toronto Star, principal jornal da cidade, diz que ao terceiro domingo do mês aquele templo da baixa acolhe «os melhores concertos gratuitos do mundo.»

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Agora são as leituras e depois ouve-se Will You Be There. Algumas pessoas – e estão à vontade duzentas almas na igreja – levantam- se e começam a dançar nos seus lugares, mexendo pouco mais do que os braços porque a canção, bem vistas as coisas, também não tem uma batida propriamente acelerada. O pastor Jeff pede a toda a gente para se sentar e começa a falar assim: «Michael Jackson foi o primeiro profeta que eu conheci.» E então Arleen McLean acena com a cabeça e começa a chorar.

A audiência de hoje é maioritariamente composta por universitários que podiam muito bem estar num festival de música, casais que trouxeram os miúdos, mulheres e homens de meia-idade, músicos de todos os quadrantes. Há bastantes imigrantes e há aquela cabeleira branca, que tem 72 anos e uma fé de aço. «Eu vi como esta igreja quase morreu e ressuscitou. E isso deve-se a algo absolutamente divino, mas absolutamente polémico, que é o rock’n’roll. Deus move-se por caminhos misteriosos, quem havia de dizer que eu ia sentir Deus nas canções de um tipo tão problemático como Michael Jackson?»

Lá dentro, o serviço prossegue e o ritmo é cada vez mais frenético. Man in the Mirror e Heal the World são relativamente calmos. Depois tocam You Are not Alone e as coisas animam a sério. Aos primeiros acordes de Billie Jean quem é que consegue ficar sentado? Toda a gente se levanta das cadeiras, canta e dança como se nada mais interessasse além da música. O pastor Jeff tem ginga, e está a repetir o moonwalk para os filhos dos O’Neill, um casal que cumpre trezentos quilómetros de viagem mensal para assistir ao concert… perdão, à eucaristia. I Want You Back e a Igreja do Redentor é uma explosão de alegria, Don’t Stop Till You Get Enough torna o altar em pista de dança, Thriller, Beat It e ninguém consegue parar.

Há eucaristias rock que duram até às duas e meia da manhã. O pastor Jeff diz que não faz sentido a ideia de que temos de estar bem comportados na missa. Pelo contrário, é uma tremenda celebração, e por isso tem de ser uma festa. «Muita gente contestou fazermos o que fazemos. Mas porque é que o rock não havia de ser uma forma de adoração ao divino? Repare, Abraão é um cobardolas, Moisés um tipo cheio de raiva, David é adúltero e Paulo era na verdade um traidor. As escrituras estão cheias de rapazes mal comportados. De estrelas de rock

Aos poucos, as guitarras vão-se calando e uma multidão bem disposta dispersa pela noite de Toronto. «Michael Jackson estava acima de qualquer bizarria», tinha dito o sacerdote durante a homilia. «Não queríamos ser como ele mas queremos todos, e somos inevitavelmente todos, se formos autênticos, crianças presas a corpos de adultos.» Em maio seria a vez dos Ramones, em junho o profeta chamar-se-ia Bruce Springsteen, este mês os Beach Boys foram a palavra de salvação. Mas houve ali uma noite de abril em que um grupo de pessoas que não se conheciam de lado nenhum celebraram a vida e a fé com gritos agudos, bons movimentos de anca e toda a verdade do mundo que cabe na letra de uma canção do rei da pop. Foi, em abono da verdade, uma valente festa.

Ricardo J. Rodrigues, em Toronto
Fotografia: Matthew Sherwood