Pai, mais uma ficha, mais uma voltinha

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NÃO SEI QUAL É A MEMÓRIA mais antiga do meu pai. Cronologicamente falando. As lembranças que tenho dele de quando eu era criança atropelam-se de forma mais ou menos caótica na minha cabeça. Momentos diferentes, em espaços diferentes, não consigo datá-los de forma ordenada. Alguns estarão separados por anos, outros, por dias. Em todos eles, estávamos apenas os dois.

LEMBRO-ME DE ELE me segurar a bicicleta cor de vinho que se desdobrava e entrava no porta-bagagens do velho Ford Escort azul-bebé, quando me ensinou a pedalar junto à casa que ele próprio construiu, com a ajuda de pedreiros que contratava ao fim de semana. Lembro-me de passear com ele junto ao balneário das Termas de Monfortinho e lhe perguntar como é que nasciam os bebés – e de ele me dizer para ir falar com a minha mãe. Lembro-me de ele chegar a casa, vindo do trabalho no Porto de Lisboa, dar a volta da praxe ao carro estacionado na rua, garantindo que as portas estavam fechadas e que não havia novos riscos, e de me dar um beijo, acompanhado de um «Então e que tal, rapaz?».

HÁ UM OUTRO MOMENTO de que me recordo bem. Aconteceu na Feira Popular. Fomos só os dois. A minha mãe ficou em casa. As minhas irmãs, mais velhas, ou tinham de estudar ou tinham programa mais divertido. Tal como noutros episódios, não me lembro da idade que tinha. Só sei que era suficientemente pequeno para andar nos póneis. Naquela altura não pa¬recia um espetáculo cruel e degradante de exploração de animais. Era só um carrossel com bestas vivas, em cima das quais, em pequenas selas que cheiravam a couro e transpiração, eu e outras crianças abanávamos ao sabor do passo vagaroso dos bichos que andavam em círculos, palas nos olhos, focinho apontado ao chão sujo. Não era muito divertido. Mas era concorrido. Tal como noutras atividades do grande espaço murado em Entrecampos, pagava-se antes, davam-nos uma ficha ou bilhete de cartão, com sebo de tantas mãos por que já tinham passado, e entregávamo-los depois a um funcionário que passava a recolhê-los. Mas, naquele dia, o dito funcionário não passou. Por isso, quando os breves minutos à roda acabaram, corri para o meu pai, contei-lhe que o homem não me tinha pedido nada e perguntei se podia andar novamente. Com o mesmo bilhete. A segunda vez não foi mais divertida. Mas tinha um sabor meio adocicado a transgressão. Paguei uma volta, levei duas.

DEPOIS DISSO talvez tenhamos andado de carrinhos de choque. Talvez tenhamos dado uma volta no Comboio-Fantasma. Talvez o meu pai me tenha comprado algodão-doce, talvez ele tenha comido uma bifana e bebido uma mini. Não me lembro. E não sei quanto tempo mais andámos por ali. Mas lembro-me bem do que aconteceu quando nos vínhamos embora. Enquanto nos dirigíamos à saída, o meu pai fez um desvio: «Vamos ali passar pelos póneis. Não me sinto bem com aquilo. Vou pagar a volta que deste a mais.» E foi. Pagou ao homem da bilheteira os escudos que a consciência lhe dizia que estava a dever e fo¬mos para casa. Não abrimos a boca durante o caminho todo. Ele ia envergonhado. Eu envergonhado porque tinha sugerido uma coisa que me parecia muito esperta.

NÃO SEI QUAL É A MEMÓRIA mais antiga do meu pai. Mas sei qual é a mais recente. É da terça-feira passada, dia em que escrevi esta crónica, quando lhe telefonei a perguntar se ele se recordava disto. «Não me lembro», respondeu. «Mas olha que ainda na semana passada voltei atrás porque no supermercado não me cobraram uma curgete.». Depois perguntou-me porque é que eu queria escrever sobre isto. «Para servir de exemplo. Pode ser que um dia as tuas netas se lembrem de histórias destas como eu me lembro das tuas.» Ainda não é bem o que a minha psicoterapeuta me sugeriu várias vezes: «Diga ao seu pai o que sente.» Mas hoje, quando o meu pai ler isto, um dia depois de o filho fazer 40 anos, acho que pode considerar que é um bom passo nessa direção. E sabe bem poder escrevê-lo. Um dia destes digo-lhe.

[Publicado originalmente na edição de 1 de fevereiro de 2015]